Autobibliografia,
Nossa linda juventude
‘O gênio do crime’ é de um tempo em que literatura infantojuvenil podia incluir álcool, bullying, tortura — e álbum de figurinhas, claro
21maio2026Devo todas as minhas cáries à Copa do Mundo de 1982.
A Panini ainda não havia chegado ao Brasil. O álbum do torneio — o único que completei em toda a minha vida — fazia parte de uma promoção do chiclete Ping Pong. Vai vendo. Cada goma de mascar, tutti-frutti, hortelã ou morango, vinha embrulhada numa figurinha.
Pois masquei, masquei, masquei até conseguir as 216 figurinhas das 26 seleções que se digladiaram nos gramados da Espanha. Fossem as 980 dos 48 escretes atuais, provavelmente teria ficado banguela, mesmo com os esforços da doutora Dirce, minha dentista.
Além de picos de glicemia e buracos nos molares, a obsessão por colar Zico, Sócrates e Falcão na mesma página ainda me levou a outra empreitada envolvendo um álbum de craques da bola: O gênio do crime.
O romance de J. C. Marinho é um fenômeno desde seu lançamento, em 1969. Está na sexagésima edição e a cada quatro anos ganha um impulso extra, graças à Fifa. Desta vez, também tem a estreia do segundo filme baseado na história das crianças que se metem a investigar um falsificador de figurinhas.
Dito assim, parece um típico enredo infantojuvenil: protagonistas da mesma idade do leitor, jornada de iniciação com algum suspense e uns parágrafos dedicados à descoberta do amor — tudo com a leveza que se espera do gênero.
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Mas não é bem assim.
Um professor faz bullying com o aluno gorducho, um detetive oferece uns goles de uísque a um garoto, o tal gênio do crime comanda uma sessão de tortura, com direito a alicate para arrancar as unhas de um dos moleques — uma variação dos porões da ditadura para menores.
Traumatizante? Menos que Eu, Christiane F., 13 anos, drogada, prostituída. A pedagogia dos anos 1980 era selvagem.
Fiquei com a impressão de que enfim tinha lido um livro de verdade, como aqueles que os adultos liam, sem “Era uma vez…” e sem conto da carochinha.
Como diz uma das personagens lá pelas tantas, com seu sotaque gringo: “A problema fundamental do vida non ser ter razon, a problema do vida ser non ser chata”. O gênio do crime, definitivamente, não é chato.
Todo mês, o leitor Fernando Luna (@fluna) faz um exposed de seu relacionamento íntimo com um livro.
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JUNHO, 2026
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