Autobibliografia,
Sobre a dezembrite aguda
Sêneca dá de presente tudo o que você precisa nesse corre de final de ano: tranquilidade da alma e ócio
25dez2025 • Atualizado em: 20dez2025Bom velhinho para mim é Sêneca, embora o filósofo romano fosse conhecido como o Jovem — seu pai, de quem herdou o nome, era o Velho.
A reunião dos tratados Sobre a tranquilidade da alma e Sobre o ócio me acompanha há exatos trinta anos: comprei na livraria Dazibao, que ficava na rua Visconde de Pirajá, em Ipanema, quando eu era mais jovem e mais vulnerável.
A juventude passou, antes tarde do que nunca, mas a vulnerabilidade não.
Por isso, sigo consultando o livrinho do mesmo jeito que o discípulo Sereno se aconselhava com o mestre latino em suas páginas, atrás de maneiras de apaziguar a tal “inconstância da alma” — eufemismo da Roma Antiga para ansiedade, angústia, crise, enfim, dezembrite aguda.
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Neste momento do ano propenso a balanço existencial e gastura emocional, redobre o cuidado: vacilou, enfie na mala de viagem um mal disfarçado manual de autoajuda que só autoajuda o próprio autor, com soluções simples e completamente erradas para tudo isso.
Sêneca sabe que o que atrapalha a humanidade são as pessoas.
“Às vezes, toma-nos uma aversão do gênero humano”, escreve, sem imaginar que o gênero humano produziria nos dois mil anos seguintes cerca de cem Sóstenes Cavalcante para cada padre Júlio Lancellotti.
Se nem existia tanta coisa de rico para cobiçar, ter ou não ter já era a questão. Para dar conta do “maior motivo das aflições humanas”, ele aponta que “a melhor medida do dinheiro é aquela que não cai na pobreza nem se afasta muito dela”.
E atenção, “os desejos não devem ser levados muito longe; permitamo-lhes apenas sair para as proximidades, porque não podem ser totalmente reprimidos”. Uma voltinha no quarteirão está de bom tamanho — mais que isso é perdição.
Leve, porém, o corpinho para longe. “É preciso passear por espaços abertos, para que o espírito se fortifique”, recomenda. “Algumas vezes um passeio, uma viagem ou uma mudança de região darão vigor”.
Só não fique checando o zap: “É lícito viver ocioso: não digo que se tolere, mas que se eleja o ócio”.
Todo mês, o leitor Fernando Luna (@fluna) faz um exposed de seu relacionamento íntimo com um livro.
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