Natalia Timerman em foto de Lia Lubambo

Bagagem Literária, Vida literária,

O outro tempo

Em diário mantido durante residência literária, autora paulistana revela o encontro com a escrita do seu romance Antes que apague

11maio2026 • Atualizado em: 12maio2026

Há pouco mais de um ano, Natalia Timerman desembarcou nos Estados Unidos para uma temporada no Art Omi, centro dedicado às artes e a retiros artísticos no interior do estado de Nova York. Durante um mês, a psiquiatra e escritora conviveu com outros nove autores, de origens diversas, preparando livros. Foi lá que ela começou a delinear o seu novo romance, que chega às livrarias no fim de maio, marcando sua estreia na Companhia das Letras.

A narradora de Antes que apague relata a convivência com a mãe diagnosticada com Alzheimer em meio a descobertas sobre o passado dela. Enquanto escrevia o livro, Timerman registrava em um diário o cotidiano na residência literária e o andamento do romance, com suas angústias e alegrias. A seguir, trechos desse percurso.

24 de março, segunda

No táxi, a caminho do aeroporto. 

Apertei tanto o Jorge que o abraço continua em mim. Apertei o Benja, ele não cabe mais no meu colo, pedi que se cuidasse, ele devolveu o pedido. O Eder transmitiu um cansaço frio. Nos resolvemos no abraço, a despedida possível. Mas volto, volto inteira e com um livro (escrevo isso para que nada dê errado, para que eu volte inteira e de preferência com um livro).

Lembro da última ida ao banheiro antes de sair, a sandália laranja de ficar em casa ali no canto. A vontade de ficar. A disposição habitual de cada objeto acusa o absurdo de eu sair por tanto tempo, sair para escrever.

Eu vou escrever sobre uma maldição, mas a literatura é a própria maldição. O que me rouba da minha vida.

A pergunta que quero responder: a literatura também é minha vida?

26 de março, quarta

Ontem eu estava tão cansada que não lembrei de escrever. Cochilei no metrô de Nova York, não conseguia ficar de olho aberto. Nova York: andar muito, comprar muito. E não há nada mais distante da escrita e da leitura do que comprar.

Hoje, fui com a Maíra Rosin (anfitriã tão cuidadosa) à Strand, uma livraria imensa de livros novos e usados, dispostos misturados. Um autor dá tudo o que é para um livro que depois vira só um livrinho numa estante. Por que não me contento em só ler? Que bobagem isso de querer ser publicada fora, para no máximo o livro ser mais um livrinho na estante.  

Lembrança de dezembro: o fim de tarde em que peguei o celular para encaminhar uma nota a uma paciente e havia um e-mail: Art Omi: Writers — DECISION, a perna bamba, o grande SIM. E se eu não conseguir escrever? Penso no abismo. No esforço que precisa ser feito pra entrar nele.

Esboço de culpa. Eu precisava ter comprado tudo isso? Carregar esse peso todo?

27 de março, quinta

Indo para o Art Omi, há uma hora no trem. Há uma hora tentando ter notícias do Benja, que deveria almoçar em casa e não apareceu, tinha um trabalho na escola, não avisou. A minha preocupação excessiva é responsabilidade minha, mas não consigo dissociá-la do fato de ser mãe. Lembro dos olhos, da voz, da apreensão da minha mãe diante de perigo nenhum. 

Ser mãe é imaginar perigos? Antecipá-los é afeto? Meu pensamento mágico me garante que minha preocupação sempre os salvou — e os salvará.

A paisagem lá fora é lindíssima, o trem vai ladeando o rio Hudson, a água reflete a luz. Na borda, a secura marrom dos galhos recém-saídos do inverno, ainda não entregues à primavera (isso ficou horrível).

18h: um diário só pode ser escrito num caderno. Não faz sentido escrever um diário no computador.

Escrever um livro (isso sim pode ser feito no computador) é entregar tudo pra ele. Tudo. Sem medo, sem vergonha, sem guardar nada pra depois. 

Vou escrever sobre uma maldição, mas a literatura é a própria maldição. O que me rouba da minha vida

Fui apresentada ao meu quarto que na verdade são dois, quase três (uma escadinha leva a outra cama). Primeiro, pensei que devia dormir em um e trabalhar em outro, me espalhar. Fiquei uns quarenta minutos indecisa sobre qual escolher para quê. Decidi colocar todas as minhas coisas em um só, onde de cara me senti melhor. 

São ambos lindos, janelas iluminadas, mesa grande de madeira, camas fofas, carpete cinza e macio no chão. Trouxe muitos livros, já arrumados na mesa, porque preciso da sensação de casa. Pronto. Estou instalada.

O quarto de Natália Timerman durante a residência (Acervo pessoal)

22h15: é bonito como a palavra whole tem o buraco dentro.

As pessoas aqui são incríveis. Humor e cuidado, uma das melhores combinações. My cohort (o grupo): Ly Tran, do Vietnã (mora em Nova York desde criança); Sholeh Volpe, do Irã (vive entre Califórnia e Barcelona); A. Van Jordan, de Ohio; Dur e Aziz Amna, do Paquistão (mora nos EUA desde a adolescência); Jalen Eutsey, de Miami; Jordan E. Franklin, de Nova York; M Lin, da China (mora há anos em NYC); Prafull Shiledar, da Índia; Thomas Lang, da Alemanha. Deveria haver mais um escritor, Maysara Salah El-din, egípcio, mas o visto dele foi negado pelos Estados Unidos.

Da esquerda para a direita, os escritores Jalen Eutsey, Prafull Shiledar, Thomas Lang, Jordan E. Franklin, A. Van Jordan (de pé), Natalia Timerman, Ly Tran, Sholeh Volpe e Dur e Aziz Amna (sentados) (Acervo pessoal)

D.W. Gibson, o diretor1, é de uma gentileza impressionante. Na verdade, todo o staff. E é muita gente só para cuidar de pessoas que querem escrever. Dizem que a prioridade é termos tempo para usar como quisermos. Um sonho. A Rita vai cozinhar todas as noites, durante o dia comemos o que tivermos vontade. A geladeira, sempre cheia (oito tipos de granola, massas, frios, kimchi, castanhas, pães; uma lista de compras na porta para preencher com o que quisermos).

O Art Omi é um parque de esculturas aberto ao público, parece enorme, ainda não fui lá. A área restrita à residência é composta de quatro grandes casas, três reservadas para os residentes e a Ledig House, onde ficam a cozinha, a sala de jantar e a biblioteca.

Uma das casas destinadas à residência literária (Acervo pessoal)

Depois do jantar cruzei em êxtase a ruazinha entre a Ledig House e o Raynold’s Cottage, onde estou instalada. O céu aberto, o frio, o vinho na cabeça. Terei um mês inteiro aqui. 

29 de março, sábado

Acordo, olho lá fora e um veado pasta debaixo da minha janela. 

Ontem o dia foi cheio e preocupante. Cheio: madrugada insone, acordei tarde, explicações gerais e longas do staff. Lemos com os diretores ao redor da mesa as regras do lugar, desde a divisão de tarefas até não fazer nenhuma aproximação sexual bêbado nem se a outra pessoa não tiver por onde escapar. Depois voltei pro quarto, li um pouco, comi o cookie que havia trazido de NY e não almocei. 

Fui caminhar pelo parque de esculturas, é bonito, mas seco demais, as árvores todas peladas. Corri um pouco (dor no pé, queria ignorá-la, que péssimo momento para diagnosticar um navicular acessório) e voltei para escrever. O texto não fluía. Preciso de um começo e de uma estrutura — preciso de escrita, não de história. A história eu tenho, mas ela está fechada, preciso furá-la para conseguir entrar nela e começar. Não conseguir não é uma possibilidade.

Parque no Art Omi, centro dedicado às artes nos EUA (Acervo pessoal)

Ímpeto, eu preciso de ímpeto.

Durante a caminhada pensei neste caderno. Me perguntei se escrever um diário da escrita é um esboço ou já a própria escrita. 

Um agente literário e uma editora vieram ontem para o jantar. Em determinado momento, o barulho das vozes parecia uma nuvem de estardalhaço sobre a qual só era possível pairar. 

As pessoas continuaram conversando depois do jantar, eu não consegui entrar na conversa. Um pouco assustador ouvir sobre o mercado literário estadunidense, só uma versão aumentada do brasileiro. Os mesmos problemas, barreiras, fraquezas.

O que escrevo é tão pequeno. Por que um mercado se interessaria? Não consigo mais falar dos meus livros com confiança.

Voltei para o quarto com vontade de chorar, me sentindo de fora da conversa e da literatura. 

*

Eu falo inglês. Aos dezesseis anos passei seis meses na Austrália e voltei dentro da língua. Falava chapada com amigos, devorava livros e ouvia de relance conversas no trem até descer na estação da Alphington Road, even write good essays I could.2 Trinta anos depois, uma mesa de jantar com velas e flores e amigos me recebe em Upstate New York. Eles me recebem em inglês e as palavras estão de braços abertos. Mastigo e engulo e sorrio de boca fechada. Meu cérebro está gasto, chegou na parte alta da ladeira a partir da qual agora só se desce, há buracos nos quais o vocabulário não cabe. Curbs? Rags? Spools?3 Espremo os olhos para entender, minha musculatura se contrai com o esforço, aproximo minha cabeça do som um pouco mais. Hoops? Lanço a bola na cesta de basquete mais baixa da escultura que de longe parece uma árvore em estilo japonês e de perto é uma miríade de basketball hoops.4 Miríade, é esse tipo de palavra que não sei, em inglês não faço literatura, a Dur e Aziz e a Sholeh sim, ambas precisam escrever em inglês porque os livros estrangeiros nos Estados Unidos of America são literature in translation e elas querem ser simplesmente literature, então deixaram para trás o urdu e o persa e falam inglês perfeitamente, têm à sua disposição palavras suficientes para serem poetas, mas elas têm sotaque, até eu percebo que sim, como se chama o pegador de salada? Please pass me the tong, I want your tongue, I’m very tired of trying to understand all the time.5 O primeiro nome que gravei foi o da Sholeh, que só decorei porque parece uma palavra em português. Minha vontade de ser lida em inglês vem do saco sem fundo que é meu âmago? Toda vez que alguém dizia so much depends upon6 eu caía dentro do red wheelbarrow7 do William Carlos William, e quando disse isso pro pessoal, the gang, the guys,8 vi que nem todos conheciam o poema. De lá da cabeceira eu escutava de longe a conversa em inglês, a influência do placement dans la table9 na conclusão de negócios, todos falando da Costco, Costco pra cá, Costco pra lá, o agente toma um gole de vinho e a editora que eu queria tanto que me publicasse se serve de mais macarrão, e eu quero entrar na conversa, I want please I want, what is Costco? You don’t want to know, Natalia. But yes. I did.10 

Escultura com cestas de basquete, Orange Functional [2022], de Alexandre Arrechea, no Art Omi (Acervo pessoal)

30 de março, domingo

Andei de bicicleta (fiz com Sholeh a big loop,11 estradinha com casas de madeira aqui e ali, frio de congelar os dedos e o nariz, a cidade mais próxima a mais de uma hora de caminhada).

Achar que se tem muito tempo para escrever é abrir o ralo por onde esse tempo começa a escoar

Ainda não sei como articular as partes do meu livro, mas acho que vou só escrever e depois pensar nisso. O problema é que não consigo só escrever, não consigo chegar no fluxo da escrita.

1º de abril, terça

Dormi bem! O primeiro dia, em meses, sem acordar de madrugada.

Ontem, Sholeh fez a leitura mágica, divinatória, de um livro para mim e me tirou um peso das costas. Terá sido isso? Sonhei que ficava grávida e nasciam trigêmeos. No total, seis filhos.

Não tive tempo de escrever. Imaginei que sobraria tempo aqui, mas não é o que acontece. O tempo voa entre leitura e alguma escrita, caminhada, conversas.

A minha vida em São Paulo me parece irreal, absurda, completamente atolada.

Já conheço melhor o parque de esculturas. Minha preferida parece uma árvore, mas na ponta de cada “galho” há uma cesta de basquete. No fim do dia, tentei acertar sozinha as cestas altíssimas. De umas trinta tentativas, acertei só uma. É preciso um rival para nos mover. 

3 de abril, quinta

Madruguei esta manhã (umas 4h30), tentei dormir de novo, não deu, às 6h tomei café, às 7h estava escrevendo. Continuo sem saber se confio nesse livro. Queria falar com minha mãe, mas se isso fosse possível o livro não existiria. Culpa atroz, sensação de que não dá pra voltar atrás, só ir adiante.

Depois de uma caminhada, me sinto melhor. Eu tenho tanto, o celular é o grande problema. Entro no Instagram e todo mundo tem todos os sonhos e anseios realizados, sei que não é assim, o que não me impede de ser assaltada pela certeza do que falta, diante do que os outros têm, ou postam que têm. Eu deveria apagar todas as minhas redes sociais.

5 de abril, sábado

Viajar para escrever é sair para conseguir ficar.

Hoje, muita chuva. Fomos de van à Bartlett House (padaria em Ghent) — tontura com tantas pessoas e rostos diferentes.

Na volta, me enfiei debaixo do edredom e li — já tinha escrito de manhã, o melhor dia de escrita. Cheguei no meu próprio livro, mas para isso tive que construir em mim um lugar aonde eu pudesse chegar.

Agora a chuva parou de bater no telhado, mas vou continuar deitada até a hora do jantar. O tempo destilado. Mas ainda não ganhei de volta minha concentração, foram anos de estrago.

1h: escutei “The Best”, da Tina Turner, no banho. Hoje foi meu dia de arrumar a cozinha junto com Jordan e Jalen, colocamos Tina Turner e depois Stevie Wonder e depois mais e mais músicas, não queríamos que a louça acabasse. A Jordan canta e o Jalen dança estalando os dedos, a louça acabou e continuamos dançando, depois levamos o baile para os outros que conversavam na sala, foi uma festa. 

6 de abril, domingo

No meio da escrita, pela janela, na árvore em frente, um pássaro vermelho.

Hoje é aniversário de quinze anos do Benja e estou longe. Mandei cesta de café da manhã, fiz chamada de vídeo, mas estou longe.

Dia da nossa leitura na Flow Chart, em Hudson. Leituras maravilhosas, que saboroso escutar esses amigos e seus textos. A da Jordan foi explosiva. Ela, reticente, ensimesmada, no microfone é um leopardo. Me arrepiou. Jantamos e bebemos na cidade, quando saímos do restaurante fazia tanto frio que ficamos dançando na esquina para nos esquentar. 

8 de abril, terça

Estou atrasando como nunca para responder e-mails, mensagens, executar tarefas que antes tirava da frente rápido. Poderia ser estranho, já que agora “tenho mais tempo”. Mas é o oposto. Talvez esteja enfim no tempo certo. Entrei no meu próprio ritmo. 

Sobre o tempo: achar que se tem muito tempo para escrever é abrir o ralo por onde esse tempo começa a escoar.

9 de abril, quarta

Dia de muita angústia. 

Questionamento profundo sobre o livro, penso em não publicá-lo.

O mundo batendo na porta do meu quarto (contas, pacientes, demandas dos filhos) e eu sentindo que não consigo sustentar a fantasia de estar aqui.

(A fantasia da literatura?)

10 de abril, quinta

Decidi hoje só transcrever as entrevistas feitas como pesquisa para o livro e responder e-mails. O dia voou como se eu não tivesse feito nada. Não consegui ler. Tirei o Instagram do celular.

Fui correr no fim do dia e de repente estava numa região do parque de arquitetura inteiramente nova, um campo se abriu. Metáfora: voltar não é repetir, é ampliar. Estar aqui: os cheiros que já reconheço e amo (o cheiro do salão no térreo do meu cottage, de um doce pontiagudo; o cheiro do perfume da Jordan, perguntei qual era e ela disse que é um creme; o cheiro da cozinha quando a Rita está cozinhando).

Os sons, os pássaros no começo e no fim do dia. Os veados que pararam hoje às 6h, o dia clareando, para me ver quando eu cruzava a ruazinha. Parei para vê-los também. 

Lá fora, o frio absurdo. Dentro do quarto, calor, carpete, aconchego. O contraste move a escrita.

SIM, EU ESCREVO.

Noite no karaokê em Chatham, no The People’s Pub, a hostess é a drag queen Stella, estupenda. Noite divertidíssima com Ly, Jordan e Thomas. Jordan vai embora amanhã, nos disse que nunca foi tão feliz.

12 de abril, sábado

Acordo e o mundo está branco. Não havia previsão de nevar, mas tem uma camada grossa e fofa de neve, as pegadas chegam a ficar marcadas. Fiz uma videochamada para mostrar ao Jorge, mas a criança da conversa era eu. 

Fui com a Sholeh ao parque de esculturas, o colorido das coisas sumiu, cada escultura é outra, e de repente uma mulher aparece esquiando, vinda do universo peculiar que aqui é a realidade.

Meus sonhos estão distantes, como minha memória. Como são hoje os sonhos da minha mãe?

Escrevi bastante depois da neve, fácil, que delícia. Ontem falei do livro (em inglês) e vi que ele já existe. A angústia deu uma trégua.

Agora a neve já derrete lá fora, as cortinas estão abertas, o mundo ainda branco, mas já ganhando cor.

Por ser sábado, me permiti deitar debaixo do cobertor e ler. 

13 de abril, domingo

Ainda tem restinhos brancos de neve aqui e ali. Fui fazer a small loop12 com o Thomas e expressei minha preocupação com a primavera, a volta das plantas e flores ao mundo depois de tanta neve, como se o frio tardio queimasse os brotos e bagunçasse o ritmo das coisas. Ele, alemão, entendido do inverno, disse para eu não me preocupar. Porque once blossoming begins, it’s irreversible. Sim, é irreversível depois que as flores começam a brotar.

15 de abril, terça 

Desde sábado não escrevo. E não durmo. Durmo, mas acordo constantemente. Não escrevo, mas estou o tempo todo escrevendo.

Ontem andamos até a Bartlett House. Foi a angústia, esse estado tão egoísta, o combustível das quase três horas de caminhada. Mas nas fotos estou sorrindo.

Preciso escrever para conseguir dormir. Meus sonhos, à noite, estão distantes. Um pouco como minha memória. Como são hoje os sonhos da minha mãe? Como foram mudando conforme avançava o Alzheimer?

17 de abril, quinta

Perdi meu fone de ouvido caminhando/correndo, bosta. Provavelmente quando fui tirar o celular da bolsa para fazer alguma foto.

18 de abril, sexta

Saí cedo para procurar o fone, determinada a seguir meus próprios passos. É inacreditável: achei o fone.

Todos os dias caminho ou ando de bicicleta, no parque ou nas estradas do entorno. Me dei conta de que meu pé, o navicular acessório, parou de doer. Também me dei conta de que parei de checar, a cada sei lá quanto tempo, onde está o Benja no aplicativo de localização. Esses dois fatos me dizem que estou aqui. Que cheguei, agora que já é quase hora de ir.

19 de abril, sábado

Acabamos de deixar M Lyn na estação, estamos em um café em Hudson. Ly, Thomas, Jalen e eu. Dur, Jordan e M foram embora.

Aqui vemos o tempo passar. Lógico que o tempo sempre está passando e sempre sabemos disso, mas em casa a vida parece perene. Estar aqui é agora e nunca mais. Nunca mais este lugar com estas pessoas. A alegria pontiaguda e triste de estar viva. 

Mais cedo, pela primeira vez entrei de verdade na escrita, naquele túnel no qual não vejo o que está em volta. Só agora, prestes a ir embora. Mas talvez eu precisasse construir uma plataforma, tijolo a tijolo, todos esses dias, de onde eu pudesse saltar para o outro tempo.

Justo hoje, perto do túnel da escrita, cheguei a pensar em abandonar não só o livro, mas a própria literatura. Porque a escrita não é só beleza, é fúria que arrasta, queima, desfaz e destrói.

20 de abril, domingo

Terminei o primeiro rascunho do livro, primeira prévia de uma primeira versão. Não contei para ninguém, nem para o Eder, não postei, deixei o fato em silêncio. Fui almoçar em seguida e constatei uma sensação nova, algo havia assentado em mim. Talvez eu possa chamar de paz.

  1. Em abril de 2025, a diretora da residência literária passou a ser Emma Ramadan. ↩︎
  2. Até escrever bons ensaios eu conseguia. ↩︎
  3. Meios-fios? Trapos? Carretéis? ↩︎
  4. Cestas de basquete. ↩︎
  5. Por favor me passe o pegador, quero sua língua, estou muito cansada de tentar entender o tempo todo. ↩︎
  6. Tanto depende de. ↩︎
  7. Carrinho de mão vermelho. ↩︎
  8. A turma, a galera. ↩︎
  9. Lugar na mesa. ↩︎
  10. Eu quero, por favor, eu quero, o que é Costco? Nem queira saber, Natalia. Mas sim. Eu queria. ↩︎
  11. Grande volta. ↩︎
  12. Pequena volta. ↩︎

Quem escreveu esse texto

Natalia Timerman

Psiquiatra e escritora, é autora de Copo vazio (Todavia).