Literatura infantojuvenil,
Todo dia o mesmo caminho
Narrativa ilustrada usa repetição e enquadramentos cinematográficos para tratar de infâncias roubadas, poder e o que permanece não dito
21abr2026 • Atualizado em: 27abr2026 | Edição #105Saía todos os dias para entregar o leite que o pai tirava das poucas vaquinhas.
É assim que começa o livro de Fernanda Rios e Marcelo Tolentino, publicado recentemente pela Pequena Zahar. Somos apresentados ao protagonista logo de cara e, então, à sua família, à sua casa e ao que irá acontecer repetidamente, todos os dias, até o final da narrativa.
Na primeira dupla de páginas, vemos, de um lado, o menino partindo em cima de um cavalo muito maior que ele, levando consigo galões de leite; de outro, a casa, os irmãos amontoados na janela, olhando para o menino e para o leitor, todos assistindo à partida. O rosto do menino, só veremos na próxima página. Não voltaremos a ver seus familiares.
Toda a narrativa se passa no sertão. Vegetação de caatinga, clima quente, seca, poucos animais e um velho. Qual sertão? Não importa — as cores e os tons terrosos predominam: laranja, marrom e amarelo queimado. Quente, tudo muito quente. Sentimos o calor na nossa pele.
Tolentino escolheu, como suporte para as ilustrações, o papel kraft marrom; sobre ele, o nanquim e o guache branco. Essas são as cores dos traços e das formas, que ele mesmo descreve como cruas. As outras poucas cores foram adicionadas depois, digitalmente, e essa escolha técnica nos conecta com a ambientação e nos aproxima do contexto. Cores, personagens e vegetação escassas. Poderia ser monótono, mas não é.
O menino está em nós e reconhecemos o olhar do velho exatamente por já termos cruzado com ele
Os autores estruturam a narrativa por meio do entrelaçamento do texto e das imagens, de tal maneira que possamos encontrar ali uma aula sobre livros ilustrados.
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Acostumado a desenhar storyboard para o audiovisual, o ilustrador aproveitou o formato horizontal do livro, já que usa os enquadramentos do cinema para contar a história com estética e ritmo que nos prendem à narrativa. Ele usa os enquadramentos de plano geral, médio e close-up como metáforas de duelo, travessia e introspecção. É com esses recursos que escolhe mostrar o ambiente e os personagens em um contexto vasto. Assim, o foco recai nos personagens e suas interações, e nos detalhes das expressões faciais que transmitem emoções e enfatizam um objeto ou animal específico. É como se cinema e livro ilustrado se aproximassem na forma de expressão.
Velho Sertão não é um livro-imagem. Tem texto — pouco, preciso e cirúrgico. Rios conta que, inspirada por memórias pessoais, maturou a história por oito anos.
Silêncios
Todas as manhãs, um menino percorre o mesmo caminho, pelo sertão, para entregar leite. E todos os dias, no final do trajeto, no alto de um morro, encontra um velho tão solitário quanto ele. O menino pede um copo de água, que lhe é negado. No dia seguinte, tudo se repete: o percurso, a paisagem, o calor, a solidão, o velho no alto do morro, o pedido de um copo de água negado.
É nessa repetição do tempo linear que se constroem o amadurecimento do menino e a dinâmica entre ele e o velho: a tensão entre inocência e poder.
Nem sempre o que se escuta é igual ao que se vê. Quando o não dito se torna visível, estruturamos uma nova percepção e a repetição da narrativa deixa de ser mera técnica para se tornar poesia.
Velho Sertão trabalha com precisão a gramática do livro ilustrado: nas relações entre texto e imagem; no acordo sutil de quem nos conta o quê; no ritmo que se estabelece na sequência das imagens, nas pausas, nas poucas páginas sem texto, no enquadramento cinematográfico e nas reflexões que todas essas combinações juntas proporcionam para além do livro. Esta não é uma história que termina quando a leitura acaba.
O que é silenciado na narrativa textual é o que muitas vezes também é silenciado por nós, em outros contextos, tão áridos quanto o sertão do menino: uma tensão silenciosa que é conhecida por todos nós e que nos faz reler, refletir e nos posicionar.
O que observamos é a infância roubada, ainda que não se diga uma palavra sobre ela. Acessamos uma realidade que muitos vivem diariamente e que outros, mesmo com os dedos esticados, nem sequer alcançam. Vem um desconforto, seguido de certo alívio, quando encontramos um pequeno rastro dessa infância no final. Parte do menino está em nós, encontramos nossos filhos nele, e reconhecemos o olhar do velho exatamente por já termos cruzado com ele — o velho Sertão.
Matéria publicada na edição impressa #105 em maio de 2026. Com o título “Todo dia o mesmo caminho”
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