Colagem do ônibus 474 feita pelo autor, Gabriel Weber (Divulgação)

As Cidades e As Coisas,

Destino: ‘Hell’ de Janeiro

Gabriel Weber registra as complexas dinâmicas urbanas da cidade e seus personagens a bordo do ônibus 474, chamado de “linha do inferno”

02abr2026

Existem poucas coisas mais interessantes em uma cidade do que os ônibus. É verdade que talvez apenas uma urbanista entusiasta do transporte público diria isso. Mas pensemos nos seguintes elementos desse ingrediente fundamental do cenário urbano: ele é um meio que leva milhares de pessoas a lugares distantes e estranhos, permitindo observar a cidade por novos ângulos, em um percurso que é, por natureza, circular. Pode ainda incluir a figura do cobrador — pré-Google Maps, essencial para orientar o trajeto. E, mais do que o metrô, costuma abarcar a desordem cotidiana.

Se essa lista não foi persuasiva, não faz mal: o arquiteto Gabriel Weber vai convencer todo mundo de que o ônibus é um componente fascinante das dinâmicas urbanas — até quem nunca entrou em um deles. Fruto da sua tese de mestrado, 474 Jacaré/Copacabana é um registro antropológico-arquitetônico-afetivo de uma das linhas de ônibus mais emblemáticas do Rio de Janeiro, que faz a conexão entre comunidades e bairros empobrecidos da Zona Norte e a mundialmente famosa praia da Zona Sul. 

O arquiteto Gabriel Weber (Divulgação)

Para além da dimensão geográfica, o caráter temporal também é relevante para o 474. Enquanto durante a semana a linha é um vetor essencial para levar os trabalhadores do subúrbio a seus empregos na região nobre, durante o fim de semana ele se transforma em possibilidade de acesso ao espaço de lazer e cartão-postal do Rio: a praia. E é esse uso não tolerado que ajuda a explicar a reputação arruaceira do 474. Como resume Tiago Coelho no prefácio: 

Para os ricos da Zona Sul, o 474 é o transporte dos trabalhadores que cuidarão de suas casas e seus filhos durante a semana, mas que, no fim de semana, se torna o Cavalo de Troia que carrega dentro os inimigos desordeiros que tiram seu sossego ao lotar as praias. 

Ao pobre, é concedido o acesso ao trabalho, mas não o direito à cidade, porque ele pode atrapalhar a tranquilidade das ditas pessoas de bem. Como introduz Weber, “o 474 é entendido como recorte de um projeto de cidade, de seus esquemas de forças e negociações na luta pelo direito ao lazer”. 

O registro feito no livro é afetivo porque seu autor foi, ele mesmo, passageiro do 474 durante anos. O ônibus o levava do Riachuelo, primeiro ponto depois do Jacaré, para o Centro e a Zona Sul. Hoje em Portugal, Weber tomou para si a responsabilidade de tornar visíveis dinâmicas pouco óbvias da “linha do inferno”, também conhecida como “quatro-sete-crack”.

Epopeia

474 Jacaré/Copacabana começa com uma rica dissertação sobre as dinâmicas sociais e urbanas cariocas, muitas delas trazidas à tona pela linha, antes de nos convidar para embarcar no 474 em um “sábado de sol”. É nesse momento que o ônibus conecta os trabalhadores massacrados durante a semana, carentes de um lugar para se refrescarem, com a orla, em um percurso que costura uma espécie de catarse da desigualdade e que prova que a praia não é, afinal, um espaço tão democrático assim. 

Colagens de Gabriel Weber (Divulgação)

Apesar de Weber narrar os arrastões e assaltos que também fazem parte do cotidiano do 474, o livro promove um debate sobre como essas ocorrências são exploradas como moeda política para designar quem pode usufruir de determinados espaços do Rio. Além disso, são usadas como justificativa pelos moradores de Copacabana para desempenharem um papel de justiceiros, uma espécie de milícia defensora da ordem, que monitora em detalhes o trajeto do ônibus para “mostrar quem manda no bairro”. 

O que se passa dentro do ônibus é caótico: ambulantes transportando picolés que serão vendidos nas praias, passageiros surfando no teto, outros fazendo do veículo uma arena de passinho. Mas o 474 não deixa de ter um “código de ética”, segundo o qual “fodido não rouba fodido”, ou seja, os atores daquele ambiente sabem reconhecer quem são seus conterrâneos da desigualdade dilacerante.

O percurso costura uma catarse da desigualdade e prova que a praia não é tão democrática assim

No livro, a dimensão política anda junto da pessoal. E é essa mistura que torna a leitura instigante. Verdadeiro pesquisador-participante, Weber descreve os personagens do 474 sem achatá-los com maniqueísmos. Pelo contrário, explica seus contextos e sua relação com a cidade. Os desenhos e colagens, também de sua autoria, ajudam a compor um cenário marcado ao mesmo tempo pela desigualdade e por um caráter vibrante, uma dicotomia própria do Brasil. 

No capítulo que narra a jornada para Copacabana em um fim de semana ensolarado, o leitor tem a impressão de embarcar em uma epopeia mítica, com um roteiro que passa por lugares com nomes igualmente fantásticos, como Buraco do Lacerda, Pedregulho e Viadutópolis. Os longos trajetos, com seus engarrafamentos e tempos de espera, convertem-se, segundo o autor, “na pausa possível, momento de refúgio íntimo dentro do espaço abarrotado”.

A trajetória de vida de Weber permitiu que ele ocupasse uma posição rara: conseguir transitar entre o dentro e o fora; narrar o 474 sem os preconceitos de uma visão elitista, mas ao mesmo tempo com certo distanciamento acadêmico. A condição de fronteira se apresenta à própria linha: ao se aproximar de Copacabana, o 474 é parado por um “guichê de imigração”, onde os suspeitos — que no Brasil são sempre os mesmos — precisam apresentar documento de identidade e mostrar que têm dinheiro para a passagem de volta. 

474 Jacaré/Copacabana se dedica, muitas vezes, a narrar a experiência do corpo na cidade. Isso proporciona àqueles que nunca precisaram enfrentar ônibus lotados uma percepção mais concreta sobre o que é viver em uma área não apenas excluída, mas desprezada. Na ida à praia sobressaem o bafo, o calor, o suor e a música alta. Na volta para a Zona Norte, os resquícios do dia na praia: 

Dentro do veículo, o chão é lamacento. A areia trazida pelos corpos mistura-se à água, gelo de manhã, que vaza dos isopores esfarelentos dos ambulantes que voltam para casa.

Ao fim do dia de sol, a jornada se reinicia. E as duas facetas opostas do Rio, produtos da mesma estrutura, são uma vez mais conectadas. 

Quem escreveu esse texto

Mariana Schiller

É crítica literária, urbanista e mestre em planejamento urbano pela Bartlett School of Planning, em Londres.

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