Literatura,
A impossibilidade de narrar o trauma
Para Édouard Louis, toda versão de um fato é, ao mesmo tempo, um ponto de vista e uma distorção
06mar2026 • Atualizado em: 14mar2026Há uma cena inaugural em História da violência, romance publicado na França em 2016 e traduzido para o português por Marilia Scalzo em nova edição da Todavia, que condensa, com brutalidade cirúrgica, a equação central da obra de Édouard Louis. O narrador-protagonista, o próprio Édouard, acaba de ser estrangulado, ameaçado com um revólver e violado pelo homem que levara para casa na noite de Natal. Poucas horas depois do episódio, ele desce a escada do prédio com o saco dos lençóis sobre os quais ocorreu a violência, para lavar a noventa graus na lavanderia. A escolha do detalhe — noventa graus — não é inocente. É a temperatura necessária para matar o que contamina o tecido. É a temperatura do horror que tenta se fazer higiênico.
Julgo fundamental esse detalhe porque a narrativa dessa violência se dá, antes de qualquer coisa, contra a impossibilidade do apagamento de uma mancha — portanto, contra uma versão limpa dos fatos. A metáfora se estende ao huis clos familiar em que a história da violência é retransmitida. Afinal, roupa suja se lava em casa. A cada página, o leitor é confrontado com a impureza constitutiva do relato: o fato de que toda versão da história é, ao mesmo tempo, um ponto de vista e uma distorção. O dispositivo narrativo escolhido por Louis, para dar conta dessa impureza, é duplo e é o núcleo formal do livro.
O romance — cuja adaptação para os palcos passou por São Paulo entre sexta (6) e domingo (8), na programação da Mostra Internacional de Teatro — se organiza a partir de uma câmara de ecos. Louis está na casa da irmã, Clara, no norte da França, e a escuta, escondido atrás de uma porta entreaberta, recapitulando com o marido, Léo, o que o irmão havia contado sobre a noite com Reda. Temos, portanto, dois relatos simultâneos: a voz de Clara, que narra, e a voz de Louis, que narra o que Clara narra a respeito dele.
A estrutura formal do livro expõe, desde o primeiro capítulo, que o trauma é caracterizado pela impossibilidade de ser plenamente narrado pelo sujeito. O acontecimento traumático retorna de forma fragmentada e distorcida na história, mostrando que a violência nunca chega em sua forma pura — ela vai além. Ela arranca do indivíduo a possibilidade de relatar em seus próprios termos. Assim, é a irmã que conhece a verdade da violência sofrida pelo irmão: “Na minha opinião, ele já havia planejado tudo, Édouard diz que não, mas está errado”. Esse arranjo narrativo retira de Édouard, o sujeito do trauma, a condição de protagonista/testemunha. Ele se torna mero ouvinte daquela história, que não é mais sua.
O romance alterna entre o relato da noite com o agressor e reflexões sobre o racismo do aparato policial
O romance alterna entre o relato da noite com Reda, desde o encontro casual na rua, a sedução, a entrada no apartamento, a irrupção da violência e as reflexões do narrador sobre o racismo constitutivo do aparato policial. Quando Édouard registra o boletim de ocorrência, o policial, quase em júbilo, interrompe a descrição física de Reda para comentar: “tipo magrebino”. A expressão aparece no texto como um sintoma da violência. Louis a analisa com precisão fria: “tipo magrebino não indicava uma origem geográfica, mas queria dizer escumalha, ladrão, delinquente”. A partir daí, o relato começa a se aproximar do ensaio e a fronteira entre literatura e teoria política se torna deliberadamente porosa, como é comum na escrita do autor.
O episódio do boletim de ocorrência desloca a violência para outra instância: a do racismo à francesa. Reda, o criminoso, é magrebino. Essa origem geográfica, que a polícia converte em categoria moral degradada, torna impossível que Édouard narre a agressão sem, ao mesmo tempo, alimentar o aparato racista contra Reda. Denunciá-lo à polícia é colaborar com um sistema que criminaliza corpos árabes. Todavia, não denunciar a violência sofrida é aceitá-la. Não importa o que aconteça, não há saída não comprometida. O relato se desenrola ciclicamente nessa armadilha.
Fantasmas
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Leio História da violência em companhia de dois fantasmas tutelares que o próprio Louis, em diversas entrevistas e textos, evoca com frequência: William Faulkner e Jean Genet. Em Faulkner, a multiplicidade de vozes narrativas serve para expor a impossibilidade de uma versão única e autoritativa dos fatos. O mesmo evento é narrado por consciências diferentes, cada uma com limitações, filtros e silêncios. O que Faulkner descobriu, no Sul estadunidense pós-guerra civil, com toda a carga de trauma histórico não elaborado, foi que a forma da narrativa podia ser o diagnóstico de uma sociedade que não consegue se dizer.
Louis toma emprestado a Faulkner esse procedimento formal. O dispositivo da dupla narração — o relato de Édouard mediado pelo relato de Clara — é faulkneriano na sua arquitetura. A versão de Clara não é superior nem inferior à de Édouard — é outra. É exatamente esse ser outra que o livro quer investigar.
De Genet, Louis herda a recusa de separar a baixeza da santidade, o crime da beleza, o desejo da humilhação. Nossa Senhora das Flores e Querelle são romances escritos a partir de uma inversão moral radical: o crime não é sujo, porque é humano, e o humano basta. Em Genet, os criminosos, os proxenetas e os assassinos são santos porque são inteiramente autênticos.
Louis não é Genet, porque ele não celebra nem romantiza seu agressor Reda. Todavia, há algo genetiano na forma como recusa a narrativa policial da vitimização pura. A noite com Reda começa em sedução e alegria; há sexo consensual e ternura provisória. A violência irrompe no meio desse encontro, que tinha outra natureza. Essa complexidade, que o discurso policial não é capaz de acomodar, é genetiana na oposição à simplificação moral.
Representação
Que faire de la littérature? — conjunto de entrevistas e textos programáticos de Louis sobre a função da literatura, ainda inédito no Brasil — oferece uma chave de leitura importante para História da violência. Nesse ensaio, publicado em 2025, o autor recusa sistematicamente a ideia de que a literatura serve para representar a realidade. A representação, para ele, é sempre suspeita, porque tende a naturalizar o que deveria ser politizado. Portanto, quando se representa a pobreza e a violência sem questionar as estruturas que as produzem, há um reforço de sua normalização.
Louis é explícito sobre sua relação com a verdade do relato. Ele não reivindica a autobiografia como garantia de autenticidade. Ele sabe, e diz, que toda narrativa de si é uma construção. Mas reivindica, sim, a verdade da experiência vivida como matéria irredutível, como algo que aconteceu, que deixou marcas no corpo violado, no boletim de ocorrência, na gaveta. Para o autor, a literatura é a tentativa, sempre falha, sempre parcial, de fazer com que isso chegue a outros sem ser completamente desnaturado no caminho.
Essa posição teórica encontra sua forma mais complexa em História da violência precisamente porque o livro tematiza a impossibilidade de chegada intacta. A versão de Clara — narrada com amor, com os recursos linguísticos que ela tem, atravessada pelos preconceitos que herdou e que Louis também herdou e de que se separou a custo — é a demonstração concreta de que a verdade do relato nunca chega intacta. Não porque Clara mente, mas porque toda transmissão implica uma transformação.
Pensando nesses temas, caros ao autor e tantas vezes comentados e defendidos por ele, me causou estranheza a entrevista que ele concedeu à Folha de S. Paulo no dia 1º de março de 2026. O incômodo não decorre tanto do que Louis pensa, mas da maneira como alguns pontos estão formulados, recortados e simplificados na entrevista. O resultado geral parece oscilar entre a lucidez habitual do autor e uma fala surpreendentemente pouco elaborada, dada a força e a acuidade contumazes de seu raciocínio.
Louis sabe que toda narrativa de si é construção, mas reivindica a verdade da experiência vivida
A primeira colocação que chamou a atenção foi: “as pessoas criam uma polícia literária para distribuir multas e punições para quem desrespeita regras ou ultrapassam fronteiras. É exatamente como fazem os Estados autoritários”. Quem seriam essas pessoas que criaram tal polícia literária? Seria importante, como bourdieusiano que é, situar, mesmo que brevemente, esse genérico “pessoas”, sobretudo porque isso é fundamental para qualificar o debate proposto.
Caso se assuma que essas “pessoas” sejam os membros da classe dominante, detentores do capital cultural, a reflexão sobre a quebra de regras e fronteiras não é necessariamente nova, de modo que o comentário soa desatualizado. É da própria natureza da literatura, historicamente, desrespeitar regras e ultrapassar fronteiras. Ele é, inclusive, celebrado por essa razão. As próprias referências literárias mobilizadas em História da violência — Faulkner e Genet — desobedeceram inúmeras regras do campo literário e são considerados, hoje, modelos de desrespeito às regras a serem seguidos.
Soou igualmente estranha a declaração: “No meu trabalho, não estou interessado na liberdade do leitor. É o oposto. Eu quero forçar todos a serem confrontados com o que eles não querem ver”. Louis estaria se colocando como aquele que traz verdades consideradas incômodas ao leitor, à sua revelia? Pode-se depreender dessa declaração que aquilo que o leitor não quer ver está lá, existe. Ela faz eco ao trecho de História da violência que diz: “Sabe que estar com Clara te força a ver o que não quer ver de si mesmo e por isso a culpa”. Que tipo de força mobilizadora essa verdade — que é, insisto, apenas um ponto de vista do relato — reivindica? Se todo relato está condenado a jamais ter sua verdade restituída, o que resta a ver? Clara poderia forçar o irmão a ver a verdade que seus olhos recusariam?
Seguindo o mesmo raciocínio, penso na cena do policial que exultou diante da descrição física de Reda, julgando que ela teria fornecido “uma prova de que ele estivera do lado da verdade desde sempre”. O próprio romance deixa explícito que só podemos enxergar o que queremos ver e que os esforços alheios de restabelecer uma verdade são fadados ao fracasso. A questão da verdade é tão central no romance que encerra o livro, cujas linhas finais dizem: “sobre a pergunta o que é a verdade, escrevi, há uma resposta muito simples: verdade é o que me consome”.
A fala recente do autor se aproxima de uma crítica rasa ao que se convencionou chamar de ‘identitarismo’
Há um terceiro estranhamento em relação à entrevista quando o autor afirma: “As pessoas com quem estou lutando e de quem sou aliado estavam falando sobre o problema e a violência dos homens brancos heterossexuais. Lembrei, então, de meu irmão, que tinha acabado de morrer, e de meu pai, que de certa forma está morrendo ainda jovem. Pensei que não era justo e que não deveríamos pôr as coisas apenas nesses termos na linguagem política”.
Louis poderia simplesmente ter reiterado, como já fez brilhantemente nos seus livros, particularmente em História da violência, que classe social, raça e estrutura de dominação capitalista complexificam a figura do homem branco heterossexual. Sabemos que essas figuras masculinas existem — ele já trabalhou longamente com a história do pai e do irmão e, em certa medida, com Reda, cujo desejo por outro homem é analisado por Louis no romance: “ele deseja e odeia seu desejo”.
No entanto, sua fala sugere que o debate estaria sendo reduzido a identidades, aproximando-se perigosamente de uma crítica rasa ao que se convencionou chamar de “identitarismo”. Isso soa estranho vindo de alguém que tem plena capacidade teórica de sustentar que classe, gênero, sexualidade e raça não se excluem, mas se entrecruzam. A sensação que fica é a de uma simplificação desnecessária — e, para quem conhece sua obra, inesperada — da questão.
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