Literatura,
Música contra o horror
Yuri Andrukhóvytch fala sobre Rádio Noite, seu primeiro romance publicado no Brasil, e diz que a guerra é fruto da cultura imperialista russa
27fev2026Yuri Andrukhóvytch é uma voz central na literatura ucraniana contemporânea. Poeta, romancista e ensaísta, fundou em 1985 o grupo performático Bu-Ba-Bu (Burlesco-Balagan-Bufonada), que renovou radicalmente a poesia ucraniana nos anos finais da União Soviética. Pai da escritora Sofia Andrukhóvytch, uma das mais lidas na Ucrânia nos últimos anos, é também músico — canta em bandas e realiza performances que misturam palavra e som.
Em 2024, Rádio Noite (Zain) se tornou seu primeiro título traduzido diretamente do ucraniano para o português, pelas mãos de Lucas Simone. Publicado originalmente em 2020, foi chamado de “romance acústico”: um texto que não apenas fala sobre música, mas que é música.
Tive duas oportunidades de conversar com Andrukhóvytch: a primeira, por videochamada, para esta entrevista à Quatro Cinco Um, em setembro de 2025; a segunda, pessoalmente, durante uma viagem a Lviv, cidade no oeste da Ucrânia, para o Lviv Book Forum, maior encontro literário do Leste Europeu, que aconteceu entre os dias 2 e 5 de outubro. No hall do centenário Hotel George — onde já estiveram Balzac, Liszt, Sartre e Ravel —, indaguei o escritor, que não quis confirmar nem descartar, sobre uma curiosidade de muitos dos seus leitores: “O protagonista Rotsky vai voltar?”.
Alternando o inglês, o ucraniano e o russo, Andrukhóvytch falou sobre a gênese da história, sua relação com o realismo mágico latino-americano, a língua ucraniana como instrumento musical e os autores contemporâneos do país que merecem a atenção do leitor brasileiro.
Você sempre escreveu na língua ucraniana, mesmo durante a era soviética, quando muitos escritores ucranianos publicavam em russo. Por que essa escolha?
A marginalização do ucraniano aconteceu durante o Império Russo, quando havia a proibição legal de publicar livros em ucraniano ou encenar peças de teatro na língua. Durante a União Soviética, era bastante comum que escritores ucranianos escrevessem em seu idioma. Mesmo nos tempos de Stálin, os piores para a cultura ucraniana no século 20, a maioria dos membros da União dos Escritores na Ucrânia era de escritores em ucraniano. Havia até um fenômeno interessante: pessoas que falavam russo em casa e escreviam em ucraniano.
Para mim, não foi exatamente uma escolha — não tive outra opção. Falo russo fluentemente, mas não conseguiria escrever um texto literário de verdade em russo. Quando eu era jovem, nos anos 80, havia o que poderíamos chamar de duas literaturas ucranianas coexistindo: uma era o ambiente oficial da União dos Escritores, que publicava em editoras oficiais. Ao mesmo tempo, havia o samvydav — o equivalente ucraniano do samizdat russo, a literatura clandestina.
Mais Lidas
Aos 23 anos, levei meus poemas a um crítico literário. Ele tinha em casa uma enorme coleção de textos ucranianos não oficiais, tudo datilografado. Aquilo me deu uma ideia de quão grande e diversa era a literatura ucraniana. Escrever em ucraniano naquela época se tornou um privilégio, porque você podia fazer uma revolução em sua própria língua, usando meios não tradicionais, renovando a consciência literária ucraniana.
O livro foi chamado de “romance acústico”. Como a música estrutura Rádio Noite?
Sempre foi meu sonho escrever um romance que incorporasse o máximo possível de música. Sempre tive muita inveja dos músicos e compositores. Quando era mais jovem, queria tocar numa banda. Até hoje não consigo tocar nenhum instrumento — tudo o que tenho é minha voz. Então, decidi transformá-la em instrumento.
Relativamente tarde, com meus quarenta anos, comecei a participar de performances com músicos de verdade. Aprendi muito com eles. É bastante diferente do mundo literário. Então, era minha intenção combinar os dois mundos num texto. Queria criar um texto com sons, um romance acústico, em que eu, como autor, pudesse ser o performer do texto, com minha voz e entonações.
A cultura brasileira é conhecida por sua musicalidade; nesse sentido temos uma afinidade real
Acho que em Rádio Noite cheguei bem perto desse objetivo: criar um livro em que a música e o significado das palavras, a estrutura textual e a rítmica, sejam inseparáveis. Pode ser uma utopia, mas é para onde estou caminhando. Seria difícil encontrar sequer uma frase neste romance que pudesse ter sido escrita sem música. A língua ucraniana, na qual escrevo, me proporciona possibilidades inesgotáveis para a música.
Muitos leitores brasileiros, e eu me incluo neste grupo, associam Rádio Noite ao realismo mágico latino-americano. Essa é uma influência?
Sim, isso faz parte de mim há muito tempo. Ficava absolutamente espantado com cada novo livro latino-americano que conseguia encontrar nas livrarias soviéticas quando era estudante. Um dos primeiros foi Concierto barroco, de Alejo Carpentier. Li em tradução ucraniana. É uma história curta e divertida sobre a viagem a Veneza de um cavaleiro cubano que encontra Vivaldi e Handel. E, claro, li outros autores entre os dezoito e os trinta anos, época em que estava me desenvolvendo. Eles se tornaram parte do meu repertório. Carpentier, García Márquez, é claro. Cortázar foi uma figura fundamental, com aquela história do saxofonista, que dizem ser baseada em Charlie Parker.
O saxofonista é Johnny Carter, inspirado em Parker, um dos heróis de As armas secretas. E qual é o verdadeiro herói de Rádio Noite: Jossyp Rotsky ou a música?
Espero que seja a música, não Jossyp Rotsky. É uma espécie de condição interior em cada um de nós. A cultura brasileira é conhecida pela musicalidade belíssima, e acho que há mais semelhanças do que diferenças na nossa forma de sentir o mundo. Por isso espero que não haja problema para entender meu romance. Não é necessário saber sobre a Ucrânia, a Europa Oriental ou a União Soviética. É bom se houver esse contexto, mas o principal é simplesmente sentir e ter a música como o maior valor. Nesse sentido, acho que temos uma afinidade real.
É verdade que Rádio Noite surgiu durante uma entrevista sua em 2005?
Um dos começos deste romance aconteceu em Varsóvia, em 2005. Eu estava na Polônia para algumas apresentações e fui convidado por uma rádio estudantil para uma entrevista -— e fui avisado de que tinha que haver surpresas. Uma das perguntas foi mais ou menos assim: “Se, em algum momento da vida, você não quisesse ou não pudesse mais escrever, a que se dedicaria?”. Respondi a primeiríssima coisa que me veio à cabeça: “Eu abriria minha própria estação de rádio, uma rádio noturna, e só tocaria músicas tristes. As mais tristes que podem existir. Ah, já tenho até um nome para a estação: Rádio Tristeza!”. Rimos um pouco da minha ideia espontânea e depois esqueci dela por anos.
Há algo como um testamento sagrado do Estado russo: ter a Ucrânia como parte do país
Em dezembro de 2017, quando meu romance anterior, Os amantes da justiça [sem tradução no Brasil], estava prestes a sair, fiquei inquieto por não ter qualquer ideia para o próximo e, de repente, durante o passeio matutino com meu cachorro, veio uma iluminação: meu próximo romance vai se chamar Rádio Tristeza! Acho que naquele mesmo dia comecei a fazer as primeiras anotações. Em algum momento tive que renunciar à palavra “tristeza” para o título — um jovem autor ucraniano acabara de publicar seu primeiro romance, com o título Capitão Tristeza [livro de Serhii ‘Kolos’ Martiniuk, publicado em 2018]. Lamentei, mas hoje acho Rádio Noite mais adequado.
O romance foi escrito durante a primeira fase da guerra, entre 2014 e 2022. A invasão de 2022 foi uma surpresa ou já sentia que era inevitável?
Não foi uma mudança dramática nas minhas expectativas políticas. Observei a escalada de agressividade desde o fim dos anos 90. Está muito ligada ao momento da chegada de Putin ao poder na Rússia. Ele apareceu em 1999, depois foi eleito pela primeira vez em 2000 — e desde então foi uma tendência muito visível.
Há algo como um testamento sagrado do Estado russo: ter a Ucrânia como colônia, como parte do país. Sem esse mito ucraniano, eles não têm uma compreensão clara do que eles são. E, então, foi absolutamente lógico que eles nos atacassem em 2022. Escrevi Rádio Noite durante a primeira fase da guerra e tive a premonição de que haveria uma invasão maior.
Em Rádio Noite, a revolução fracassa. Foi uma forma de exorcizar seus medos sobre o que poderia acontecer se a Revolução da Dignidade tivesse sido derrotada?
Exatamente. No meu romance, há muita coisa que lembra aquela nossa Revolução da Dignidade, entre 2013 e 2014. A diferença é que, na história, a revolução sofre uma derrota esmagadora. É, portanto, a minha versão da “história alternativa”: o que teria acontecido se tivéssemos perdido.
Nossa Revolução da Dignidade tinha muitos rostos e símbolos. Um deles era o músico misterioso que se apresentava como Piano Extremist. Se você jogar no Google essas duas palavras, vai encontrar uma quantidade grande de vídeos dele.
Meu herói Jossyp Rotsky (pseudônimo revolucionário: Agressor) deve sua existência àquela pessoa. Sei muito pouco sobre ele. Mas, em uma das noites mais duras da revolução, em janeiro de 2014, quando a temperatura caiu abruptamente para quinze graus negativos e o governo preparava mais um ataque em massa às nossas barricadas, tive a chance de ouvi-lo tocar ao vivo. Um piano de rua, velho e desafinado, completamente rodeado por manifestantes dispostos a resistir até a morte — um inesperado momento de verdade, que me atravessou por inteiro: nós não podíamos mais ser derrotados.
Como a guerra afetou a relação da Ucrânia com a cultura russa? Você falou sobre colocar a “herança russa em quarentena”…
Sim, colocamos a herança russa em quarentena. Negamos discussões, palcos com colegas russos. O mundo deve entender o quanto a invasão é produto da grande cultura imperialista russa. Sempre houve essa visão russa de que os ucranianos deveriam estar na sombra dessa gigantesca cultura. Os problemas começaram com os primeiros sinais de diferença ucraniana em relação à sociedade russa, que se tornaram muito mais claros depois de 2000. A Revolução Laranja em 2004 foi um grande choque para os russos. Eles nunca pensaram que seríamos capazes de fazer algo como um protesto político. E, desde então, começaram a nos odiar.
David Bowie aparece como uma figura importante no livro. Por quê?
Bowie foi talvez o último de sua espécie. Como dizem, de outro planeta. Sua morte em 2016 foi um evento cataclísmico que nos empurrou para uma realidade estranha. Em Rádio Noite, Rotsky tem os olhos de Bowie: a mesma anisocoria, um olho com a pupila dilatada. Para mim, Bowie representa o artista que transcende, que transita entre mundos.
Como foi saber que Rádio Noite seria traduzido para o português brasileiro, a primeira tradução direta do ucraniano em décadas? Não sei se você sabe, mas o professor que introduziu a literatura russa no Brasil, Boris Schnaiderman, era ucraniano de Uman…
Fiquei muito feliz em saber que a tradução brasileira foi tão bem-sucedida, porque vocês formularam as coisas que eu tentava ter no meu original ucraniano. O português brasileiro é muito musical, encaixa perfeitamente. Sobre Boris Schnaiderman, é uma história bonita que ele era ucraniano de Uman e que um aluno dele agora traduziu Rádio Noite diretamente do ucraniano. É simbólico.
Que autores ucranianos contemporâneos você recomendaria para o leitor brasileiro?
Não tenho certeza se há muitos autores traduzidos para o português, especialmente o brasileiro. Mas mencionaria meu amigo Serhii Zhadan, que agora é soldado no exército ucraniano. Ele é poeta, escritor e o mais popular hoje na Ucrânia. Foi traduzido para muitas línguas, tem 51 anos e está num período muito ativo de sua vida. Toca ska punk com sua banda, que se chamava Sobaki v Kosmosi (Cães no Espaço) e agora é só Sobaki. Zhadan e Sobaki, no YouTube.
O segundo nome não é muito modesto da minha parte, porque é o da minha filha. Ela é minha filha por acaso, mas é realmente uma grande escritora. O romance dela chamado Amadoka foi traduzido para alguns idiomas, mas estamos esperando a tradução em inglês. É prosa literária contemporânea do mais alto nível, uma coisa épica, com cerca de mil páginas. Tem a história da Ucrânia no século 20, mas também a guerra de hoje, porque são quatro livros em um grande volume e cada parte dialoga com as outras de uma forma muito interessante.
Chegou a hora de
fazer a sua assinatura
Já é assinante? Acesse sua conta.
Escolha como você quer ler a Quatro Cinco Um.
Há nove anos nutrindo leitores onívoros!
Assine a revista dos livros e ajude a fomentar a cultura do livro no Brasil
Peraí. Esquecemos de perguntar o seu nome.
Crie a sua conta gratuita na Quatro Cinco Um ou faça log-in para continuar a ler este e outros textos.
Ou então assine, ganhe acesso integral ao site e ao Clube de Benefícios 451 e contribua com o jornalismo de livros independente e sem fins lucrativos.
