Literatura,
Um DJ na trincheira
No ‘romance acústico’ de Yuri Andrukhóvytch, um revolucionário preso intercala música e memória, verdade e ficção, como forma de resistência
27fev2026Eu continuo vivo. Eu me safei de tantas fraturas, surras, dores e queimaduras que vocês não acreditariam. O pior foi quando quebraram um dedo por dia. Acontece que até isso dá para suportar.
O trecho poderia ser o relato de um soldado ucraniano capturado no campo de batalha. Ou poderia ser entendido como uma metáfora da língua e da literatura ucraniana ao longo das últimas décadas — ou, por que não dizer?, séculos. Mas é a abertura de Rádio Noite, romance de Yuri Andrukhóvytch, que chegou ao Brasil em tradução, direta do ucraniano, de Lucas Simone.
Zero hora, onze minutos. Jossyp Rotsky, músico de rock decadente transformado em DJ, transmite de uma fortaleza-prisão no meio do mar. Entre uma faixa de Lubomyr Melnyk e outra de jazz progressivo, ele narra sua vida: as revoluções perdidas, os dedos quebrados sistematicamente, o corvo Edgar no ombro, a música como última trincheira contra o horror. “Se Deus é nosso pai”, provoca Rotsky em sua primeira transmissão, “o diabo é nosso amigo mais íntimo.” Esse espírito, que beira a loucura, é a síntese da história, do “romance acústico” de um dos autores mais importantes da literatura ucraniana contemporânea.
Andrukhóvytch, pai da também escritora Sofia Andrukhóvytch, construiu algo que ele perseguia havia décadas: um romance que não apenas fala sobre música, mas que é música. “Seria difícil encontrar uma frase sequer neste romance que pudesse ter sido escrita sem música”, escreve no posfácio. E a promessa se cumpre: cada capítulo é uma estação na programação noturna de Rotsky, intercalando narrativa e playlist (ótima sacada da editora, disponível via QR code no livro). O resultado é um texto que pede para ser lido em voz alta, com ritmo, cadência, percussão. Como, aliás, bem captou Lucas Simone, que contou à Quatro Cinco Um ter testado a sonoridade durante a tradução verbalizando cada frase.
“Andrukhóvytch diz que é um romance pra ser lido em voz alta. Fiquei pensando nisso ao traduzir. Várias vezes eu me perguntava: ‘Por que eu estou falando?’. Não costumo falar. Estava tentando dizer a frase para ver se tinha a musicalidade, o ritmo do original”, contou o tradutor.
Atentado
A trama de Rádio Noite envolve, simultaneamente, thriller de espionagem, romance picaresco e meditação sobre arte e resistência. Jossyp Rotsky (que, como revolucionário, usa o pseudônimo “Agressor”) é um pianista que toca nas barricadas durante uma revolução que fracassa. Exilado, aceita trabalho tocando “jazzinho” em hotéis suíços — até que o destino o coloca diante do ditador de seu país, “o penúltimo da Europa”, num salão de luxo. O que Rotsky faz? Atira um ovo.
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Eu tinha mirado na testa dele. Eu queria que a gema do ovo escorresse pela fuça enorme e maldosa dele… Não queria mais nada. Que assassinato, que nada! Mas ele já ia se levantando, e o ovo, voando. E atingiu o peito dele e quebrou-se contra a dureza do colete à prova de balas, e escorreu pela gravata, pela camisa… Ele caiu.
O ditador morre — não do ataque com ovo, mas de “medo permanente, e também de uso indevido de poder e de Viagra”, segundo os médicos. Rotsky vai preso. Depois, numa fuga kafkiana organizada pelo enigmático Myroslav-Iaromyr Servus (vulgo Mef, numa referência ao Mefistófeles de Goethe) e sob a perseguição de agentes, ele atravessa a Europa com sua amante Anime e o corvo Edgar. A perseguição se torna viral: hashtags como #UmHeróiEmNossoMeio o transformam em “destemido herói da resistência”, embora ele mal acesse as redes sociais e desconheça sua fama. Por fim, Rotsky acaba na fortaleza-prisão de uma ilha no meridiano zero, onde a única coisa que lhe permitem é transmitir sua rádio noturna.
‘Rádio Noite’ é thriller de espionagem, romance picaresco e meditação sobre arte e resistência
A narrativa não é linear. Rádio Noite se estrutura a partir de duas vozes alternadas: Rotsky narra em primeira pessoa desde sua cabine de rádio, intercalando música e memória; paralelamente, um biógrafo anônimo, contratado por um misterioso Comitê Biográfico Interativo Internacional, tenta reconstituir a vida desse homem sobre o qual quase nada se sabe. “A soma das coisas sabidas a respeito da pessoa cuja trajetória de vida eu tinha que documentar em sua absoluta totalidade parecia não muito maior que zero”, confessa o biógrafo nas primeiras páginas. Ele viaja ao país de Rotsky, enfrenta a burocracia opressiva, entrevista pessoas e, no processo, revela tanto sobre si quanto sobre seu objeto de estudo. O resultado é um jogo de espelhos em que verdade e ficção se confundem.
A estrutura remete ao melhor do realismo mágico latino-americano. Não por acaso, Andrukhóvytch menciona em entrevistas a influência de García Márquez e Vargas Llosa. Como nos clássicos do boom, Andrukhóvytch cria uma geografia onírica: o país de Rotsky nunca é nomeado; as cidades dos Cárpatos se confundem (Romênia? Hungria? Eslováquia? Ucrânia?); o tempo se torce e dobra sobre si mesmo. Mas há também ecos de Fausto: como o protagonista de Goethe, Rotsky faz um pacto — não com o diabo, mas com a própria imortalidade. O personagem acredita ser imortal ou ao menos se comporta como se fosse. “Escritores devem pensar assim”, disse Andrukhóvytch à Quatro Cinco Um. “Eles são os intermediários entre a raça humana e a imortalidade.”
A metáfora do purgatório atravessa o romance. “A Ucrânia, desde 2014, está no purgatório. A revolução não teve final feliz — e isso significa que ainda não terminou. A Rússia quis nos arrastar do purgatório para o inferno”, diz o autor. Rotsky, preso e transmitindo entre meia-noite e oito da manhã, está em suspensão — nem livre, nem definitivamente condenado. A noite não é apenas horário: é condição existencial.
No desfecho de Rádio Noite, Andrukhóvytch evita a resolução fácil. Rotsky não é resgatado, não volta triunfante, não morre heroicamente. Ele apenas continua transmitindo. A última música toca, o relógio marca quase oito da manhã e ele anuncia a programação do dia seguinte: segunda-feira, 13 de dezembro. Um final resignado e, ao mesmo tempo, esperançoso. Não há redenção, mas há persistência. Não há vitória, mas há música.
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