Onde Queremos Viver,
Na Brasileira
Estava na pureza dos anos em que, distante dos sofrimentos futuros, uma pessoa se sente imortal
01mar2026 • Atualizado em: 27fev2026 | Edição #103Passadas poucas semanas, um dos seus passeios era meter-se no metro no Campo Pequeno, sair na Baixa-Chiado à procura da mesa ideal. Foi numa dessas manhãs que bebeu um café na Brasileira pela primeira vez, onde acendeu um cigarro e escrevinhou num caderno, o que a fez sentir-se uma mulher em vista dos quadros nas paredes e da sua imagem reflectida nos espelhos gastos que rodeavam as mesas.
Tinha o cabelo em tranças miúdas arranjado num apanhado, como costumava usar. Trouxera de casa uns brincos da mãe, mas não saíra de casa com eles postos, trouxera-os no bolso e pusera-os no comboio até Lisboa. Eram dois pendentes brilhantes, talvez festivos demais para usar de dia e para ir para a faculdade. Lábios pintados de vermelho. Unhas prateadas e compridas. Tinha ainda cara de menina, mas não sabia. A pele firme e luzidia, sem uma ruga. Os lábios rosa carnudos. O cabelo farto e armado. A expressão era ainda amiudada, embora, olhando a sua imagem, visse uma mulher.
Na Brasileira do Chiado, era uma jovem negra lançando fumo à sua volta, só para ver ao espelho o seu reflexo. Tinha alguns trocos nos bolsos, que davam para o carioca de limão e o tabaco. Em volta, homens velhos bebiam café, conversavam e liam jornais. Salvo os casais de namorados, os cafés da cidade pareciam lugares masculinos. Era quase um ritual para Catarina sentar-se onde não se sentia completamente bem-vinda ou atrever-se num lugar que não era seu. Era destemida, ainda que parecesse não ser precisa grande coragem para se sentar num café e acender um cigarro.
Era quase um ritual para Catarina sentar-se num lugar onde não se sentia bem-vinda
Bastava, contudo, entrar na sua sala de aula e, olhando em redor, ver que era a única negra em setenta e cinco alunos. Olhara em volta para ter a certeza, além dos pouquíssimos colegas negros que havia na faculdade e se juntavam habitualmente na esplanada, reunidos num núcleo de que Catarina não sabia se queria fazer parte, para encarar que o destino de estudar na universidade no seu país acarretava para Catarina uma brecha de luz na escuridão.
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Olhando a mochila carregada que trazia consigo e transportava pela cidade, sentia-se acolhida pelos livros. Nada lhe impedia o caminho, embora não chegasse sequer a formular este pensamento. Estava dentro da pureza dos anos em que, esquecida dos sofrimentos da infância, distante ainda dos sofrimentos futuros, uma pessoa se sente imortal. Desceu até à estação, fez a viagem até à Damaia, no comboio desde o Rossio, carregada de livros requisitados em várias bibliotecas da cidade.
Sentada na carruagem, pôs a mochila ao colo e conferiu a colheita do dia e as próximas leituras, indiferente às pessoas que a rodeavam e à paisagem agreste do outro lado do vidro. Que era a feiura daquilo tudo perto dos versos de Cesariny que aprendera aquela manhã na aula de estudos literários?:
Em todas as ruas te encontro
em todas as ruas te perco
conheço tão bem o teu corpo
sonhei tanto a tua figura
que é de olhos fechados que eu ando
a limitar a tua altura.
Naquele primeiro outubro do século, Catarina foi feliz.
Matéria publicada na edição impressa #103 em março de 2026. Com o título “Na Brasileira”
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