Patti Smith segura um retrato de si mesma com outra imagem semelhante, em 1978 (Richard McCaffrey/Michael Ochs Archives/Getty Images)

Literatura,

A verdade de Smith

Prestes a completar oitenta anos, artista preenche as lacunas dos outros livros de memórias e conjuga passado, presente e futuro em Pão dos anjos

01mar2026 • Atualizado em: 02mar2026 | Edição #103

Patti Smith é visceral. Escreve como canta: abrindo as entranhas despudoradamente para o público, dando-nos a sensação paradoxal de que grita e sussura ao nosso ouvido. Para quem, como eu, amou Só garotos (Companhia das Letras, 2010), em que narra a sua relação com o fotógrafo Robert Mapplethorpe e os primeiros encontros com poetas, escritores e artistas da cena nova-iorquina da segunda metade do século 20, Pão dos anjos chega neste mês de março para suprir as lacunas biográficas deixadas pelo primeiro livro.

O subtítulo do livro o resume: a história da minha vida. Conhecemos, enfim, o passado e o futuro daquela juventude em Nova York: a infância em Nova Jersey, as relações com os pais e irmãos, a vida de casada com o músico Fred “Sonic” Smith e a retomada dos palcos após a súbita renúncia para viver como pacata dona de casa em Detroit.

Após a publicação de três outros volumes de memórias considerados herméticos por alguns críticos — Linha M (2015), Devoção (2017) e O ano do macaco (2019), todos lançados no Brasil pela mesma editora —, em que fatos, divagações e sonhos misturam-se de modo quase indiscernível, Pão dos anjos retoma o estilo factual e a escrita objetiva de Só garotos

Narrado em ordem cronológica, foi escrito como um meio de preservar a memória de sua vida, agora que está prestes a completar oitenta anos: 

Enquanto ela [a irmã Linda] estiver aqui, nossas lembranças estarão asseguradas. Mas e o futuro, quando ambas tivermos partido? Escreva para esse futuro, a caneta diz.

Vamos saber agora que aquela garota, que aos dezenove anos decidiu sair sozinha de casa com pouco dinheiro rumo a Nova York, onde gradativamente passou a fazer sucesso como musa do punk rock, atraindo uma legião de fãs com sua energia inebriante, teve uma infância “proustiana”. 

O Hoedown Hall, celeiro na zona rural de Nova Jersey onde a jovem Patti ia ouvir música e dançar nos anos 50 e 60 (Linda Smith Bianucci/Divulgação)

Talvez por sua mãe ter sido uma fumante inveterada, nasceu fraca e doente, tendo sido salva pelo pai, que, em um inverno rigoroso, a segurou sobre a fumaça de uma tina de água quente. Depois disso, foi vítima de uma sucessão de doenças infecto-contagiosas, da tuberculose à escarlatina, em decorrência das condições precárias em que vivia em apartamentos insalubres, alguns deles infestados de ratos, com os pais e os três irmãos. “Em meus primeiros quatro anos de vida, nos mudamos onze vezes, de pensões a apartamentos mobiliados.”

Patti atribui aos seus longos e solitários períodos de convalescença, deitada ao lado do fogão a carvão da cozinha, a expansão de sua já poderosa imaginação. Conta que a mãe anotou no “livro de bebê” que a menina era propensa a falsidades e que se a realidade não a interessasse ela “apresentava uma realidade alternativa”. Seus irmãos mais novos, Linda e Todd, a acompanhavam em viagens a lugares distantes, possibilitadas por um simples girar de maçanetas e trapos que serviam de velas para seus barcos: “compartilhávamos uma telepatia inexplicável”. Mas não só brincadeiras imaginárias: a menina alta e magricela era boa corredora e assumia a liderança em confrontos corporais com meninos das gangues rivais.

Com dois dos irmãos, em 1951 (Linda Smith Bianucci/Divulgação)

Naqueles rincões americanos pobres do pós-guerra circulavam livros, música e arte. Os avós tocavam instrumentos, a mãe gostava de ler e cantava nos bares em que servia como garçonete, e o pai, veterano de guerra, além de ler em voz alta passagens de seus livros prediletos, tinha sido dançarino de um grupo de sapateado e malabarismo que constituíra com os irmãos. Em casa, o rádio era onipresente — “era nossa salvação” — e foi nele que ela ouviu Madame Butterfly, de Puccini, e se encantou. 

Em uma das muitas passagens tocantes, Patti, debilitada pela gripe asiática que quase a levou, só abria os olhos para ver, depositado em frente à sua cama, uma caixa com a gravação da música, presente de sua mãe: “Não havia quantidade de penicilina ou oração mais eficaz”. 

Gênese

As artes visuais entraram na vida de Patti de modo inusitado, ao achar no lixo uma pilha de revistas Vogue e Harper’s Bazaar. Acostumada a folhear somente catálogos da loja de departamentos Sears, as revistas de moda apresentaram o mundo da arte, da fotografia e do estilo. Foi também decisiva a única visita familiar ao Museu de Arte da Filadélfia, onde descobriu Picasso e identificou seu próprio rosto nas pinturas de Modigliani. 

Desde então, decidiu que seria artista, “jurando que me manteria firme, quaisquer que fossem as consequências”. Impulsionada por Yeats e sobretudo pela descoberta avassaladora de Rimbaud, aos quinze anos, entendeu que poderia ser uma escritora. 

Ao receber de sua mãe como presente um disco de Bob Dylan, comprado ao acaso por considerar, pela foto da capa, que seria alguém de quem Patti gostaria, ela rapidamente o conectou a Rimbaud, considerando-os reinventores da poesia, voltados para o rebanho das ovelhas desgarradas. Em alguns anos, compartilharia o palco com o cantor.

Patti atribui aos anos de convalescença da infância ‘proustiana’ a expansão de sua imaginação

A descrição do primeiro encontro com Bob Dylan é deliciosa. O cantor entrou no camarim após um show de sua banda e ela, de costas, o reconheceu pela voz: “Tem alguma poeta aí?”. Combativa e cheia de adrenalina, Patti respondeu: “Eu odeio poesia”. Outro momento dos dois é digno de nota. Certa vez, o cantor lhe disse que precisava de uma cantora para o novo disco, ao que Patti respondeu: “Bom, eu sou cantora”. “Não”, disse Dylan, “preciso de uma cantora de verdade, você é mais parecida comigo.” 

Ao ser escolhida, em 2016, para representar o cantor na entrega do Prêmio Nobel de Literatura, Patti protagonizou uma cena inesquecível. No meio da récita de “A Hard Rain’s A-Gonna Fall”, esqueceu-se da letra, parou, olhou para o público, pediu desculpas confessando estar muito nervosa, e prosseguiu.

Embora com menos detalhes do que em Só garotos, a cena do rock nova-iorquino das décadas de 60, 70 e 80 aparece em meio à narrativa de sua passagem da poesia à música. 

Por sugestão de seu então namorado, o dramaturgo Sam Shepard, Patti decidiu declamar alguns de seus poemas acompanhada da guitarra de Lenny Kaye (até hoje seu guitarrista e parceiro em letras), escritor que tocava um pouco de guitarra e trabalhava em uma loja de discos: “Se eu imaginasse um acidente de carro, ele reproduzia”. Aí está uma das características do estilo que ficou conhecido como punk rock: mesmo aqueles sem qualquer formação musical eram incentivados a pegar um instrumento e tocar — um meio de expor ao mundo sua vida precária e sua revolta. 

A artista durante apresentação no Royal Albert Hall, em Londres, em outubro de 2021 (Jo Hale/Redferns/Getty Images)

Das apresentações poético-musicais na igreja de São Marcos, quando vivia em um quarto do hotel Chelsea com Mapplethorpe, Patti acabou por se tornar uma das primeiras líderes femininas de uma banda de rock. Chegou ao auge com o disco Horses, recentemente eleito um dos melhores de rock do século 20. Naquele momento, já tinha por companhia a sua guitarra Fender Duo-Sonic, e seu público alvo eram os renegados e marginalizados, que não deixam de lembrar os meninos perdidos da Terra do Nunca que povoaram o seu imaginário infantil. Por ironia do destino, Horses foi prensado na mesma fábrica da Columbia Records onde ela havia tido um pedido de emprego recusado. 

Patti foi uma daquelas pessoas que estavam no lugar certo na hora certa. Na efervescente Nova York, especialmente nos saguões do Chelsea, parece ter conhecido todos os artistas famosos das décadas de 60 e 70 de que se tem notícia: os escritores William Burroughs e Allen Ginsberg, a fotógrafa Anne Leibovitz, Jimi Hendrix e Janis Joplin, entre outros. Certa noite, em uma festa em comemoração a uma exposição sua em parceria com Mapplethorpe, a campainha tocou: eram John Lennon e Yoko Ono, que ela jamais havia encontrado, e entraram dizendo que não poderiam ficar. “Yoko sorriu, e John olhou para mim e disse ‘Bom trabalho’.”

Misticismo

Se nos demais volumes de memórias o misticismo que guia a vida e as decisões de Patti é evidente, em Pão dos anjos — e o título é significativo — suas raízes são explicitadas. A autora diz que pensou em dar ao livro um título com uma só palavra, “Verdade”, pois isso definia o seu propósito ao escrevê-lo, mas acabou por desistir. Penso em outro título possível: Religare, o ato de reconectar as coisas, sendo uma das origens possíveis da palavra “religião”.

A curiosidade aguçada, expressa em perguntas constantes sobre o significado das coisas, levou a mãe a matriculá-la, aos três anos, na escola dominical presbiteriana, onde passou a estudar as escrituras com um grupo de crianças mais velhas. Mais tarde, seguindo a mãe, tornou-se Testemunha de Jeová, indo de casa em casa para pregar, suportando xingamentos e até “baldes de urina e excrementos” que às vezes eram jogados sobre eles.

Referências bíblicas e menções a figuras divinas permeiam as páginas. “Deus sussurra por uma dobra no papel de parede”, escreve no prólogo poético. Mas o cristianismo logo lhe pareceu limitador: interessou-se pelo budismo tibetano, que juntou “às lições de moral dos contos de fadas”, entre eles Alice no País das Maravilhas e Peter Pan, livro que, segundo ela, constituía “outro tipo de religião”.

Já adulta, as práticas devocionais passaram a incluir visitas a túmulos de seus músicos e escritores favoritos, como William Blake, Rimbaud e Keats, e uma coleção de talismãs, recentemente expostos como fotografias em Um livro dos dias (Companhia das Letras, 2023): pequenos objetos, como o canivete do falecido Sam Shepard, uma xícara dada por sua filha Jesse, o colar persa que Mapplethorpe lhe oferecera, imagens de santos e edições raras de seus livros prediletos. 

A inclinação devocional é tanta que, quando o marido Fred pediu que escolhesse qualquer lugar do mundo para uma viagem a dois antes que tivessem filhos, ela se decidiu por uma pequena cidade da Guiana Francesa, Saint-Laurent-du-Maroni, a fim de visitar a prisão abandonada que abrigara Jean Genet. Uma foto de Um livro dos dias mostra o momento em que pegou algumas pedras do chão e as levou para casa.

Em uma festa, a campainha tocou: eram John Lennon e Yoko Ono, que a cantora jamais havia encontrado

É instigante como a autora abriga, sem contradições, a sua duplicidade, que primeiramente reconheceu em Rimbaud: “o demoníaco lado a lado com o caridoso”. A dualidade se expressa também como androginia, que, se evidente nas fotos que cobrem seus discos e livros, só aqui é explicitada. 

Considerada, quando criança, uma figura esquisita, decidiu que “não queria escolher entre Peter, o menino, e Wendy, a menina. Era melhor conter ambos”. Mas não só ela: no dia em que Patti, aos dezenove anos, revelou à família que estava grávida e que ia doar o bebê, diante dos olhos arregalados dos pais, seu irmão Todd revelou que era travesti, e que as roupas das irmãs que sumiam do armário estavam guardadas debaixo de seus gibis. 

Além da androginia, Patti não reconhecia a sua fisionomia nos rostos dos álbuns de família, descobrindo mais tarde que havia uma razão concreta para esse estranhamento, uma das surpresas reservadas para o final da narrativa.

Já o encontro com Fred e a vida de casada são envoltos em tal misticismo que chegam a lembrar um conto de fadas. Lenny Kaye os apresentou: “Fred Smith, Patti Smith” e foi amor à primeira vista. Idas e vindas entre Nova York e Detroit, insuficientes para aplacar o desejo mútuo, fizeram-na despedir-se dos palcos, para a tristeza dos músicos da banda, dos fãs e de sua mãe, que frequentava os concertos. 

Na busca de um lugar definitivo para viver, depois de um período morando em um quarto de hotel em Detroit, os dois se depararam com uma casa coberta por trepadeiras em St. Clair Shores. Não estava à venda, mas Patti diz ter tido a “premonição” de que viveriam ali. Um tempo depois, ao passarem novamente pelo local, encontraram uma placa de venda: “Nossa pequena mas fervorosa oração foi atendida”. 

Ali construíram uma vida tranquila, onde escrevia diariamente em uma espécie de quartinho sagrado com um chão forrado de feltro preto e uma mesa baixa, sobre a qual colocava seu caderno e um chá de hortelã: 

Naquele momento, soube com toda a minha essência que ser escritora era o que mais queria na vida.  Mas nem tudo é revelado: o conto de fadas tinha seus cantos obscuros, sobre os quais guarda silêncio. Fred vivia tormentos impenetráveis e sofreu uma decadência física progressiva, resultado dos muitos anos de abuso de drogas. “Seu declínio foi a tragédia da minha vida, e não serve a ninguém expor as batalhas privadas de um homem tão reservado.”

Retorno

De volta a Nova York após a morte de Fred, em 1994, que foi seguida pela do irmão Todd, Patti se reergueu com a ajuda da irmã Linda, de sua banda e dos muitos amigos músicos que a convidaram para parcerias. Das turnês pelo mundo levando consigo os seus filhos pequenos, prosseguiu sem mais interrupções, conciliando os palcos com a escrita diária em mesas de cafés, hotéis e até em um farol onde ficou hospedada. 

Fã confessa, cheguei certa vez a visitar um de seus cafés prediletos, o Café de Flore, em Paris, onde um gerente gentil me apontou sua mesa cativa. Enquanto eu bebia meu café, ele foi buscar em seus pertences uma polaroide com seu retrato feito por ela. Eu então lhe perguntei: “Sobre o que conversaram?”. “Não conversamos; ela não falava francês e eu não falo inglês.” 

Escritora, música, desenhista e fotógrafa, Patti tem também um importante papel como ativista em prol da paz e dos direitos das minorias. Uma de suas músicas mais tocadas nos últimos anos, especialmente em atos políticos, é “People Have the Power”, de 1988, que compôs com Fred. Nos muitos vídeos disponíveis, vemos a figura da mulher grisalha, com cabelos longos emoldurados por duas finas tranças, vestida no mesmo estilo de sempre: calças e botas pretas, camiseta velha branca e paletó preto largo. 

Com o olhar fixado na plateia e um esboço de sorriso, ela levanta o braço direito e grita o refrão: 

That the people have the power/ to redeem the work of fools/ upon the meek the graces shower./ It’s decreed: the people rule. (Que o povo tem o poder/ de redimir a obra dos tolos/ graças são derramadas sobre os dóceis./ Está decretado: o povo governa.) 

Um testemunho de uma mulher poderosa, que esbanja coerência entre vida e obra. 

Quem escreveu esse texto

Aparecida Vilaça

Professora de antropologia social do Museu Nacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro, é autora Ficções amazônicas (Todavia, 2022).

Matéria publicada na edição impressa #103 em março de 2026. Com o título “A verdade de Smith”