Literatura japonesa,
Crônica de um desaparecimento
Hiromi Kawakami retorna às tramas de mistério e narra a busca incessante de uma mulher pelo marido
20abr2026 • Atualizado em: 27abr2026 | Edição #105“Meu marido desapareceu sem deixar vestígios. Até hoje, não tenho nenhuma notícia dele”, revela Kei quando a voz de um homem desconhecido lembra-lhe a do marido, Rei, desaparecido há doze anos. Thriller psicológico, Manazuru gira em torno das memórias e sentimentos da narradora sobre o desaparecimento e a sua busca incessante pelo marido e por compreender as razões dele. Aborda, assim, um fenômeno comum no Japão, onde a cada ano entre 70 e 100 mil pessoas são registradas como desaparecidas e passam a fazer parte dos jōhatsu, os evaporados, tema de documentários e reportagens.
De acordo com a BBC, embora desaparecimentos ocorram em outros países, no Japão é mais difícil solucioná-los. Dada a proteção da privacidade no país, as pessoas chegam a usar caixas eletrônicos sem serem identificadas, pois os vídeos das câmeras de segurança não podem ser acessados pelas famílias para tentar descobrir o paradeiro dos parentes.
As razões para os desaparecimentos vão de dívidas e falências a problemas no casamento e no trabalho, e existem empresas especializadas em apagar rastros e executar o sumiço. Algumas pessoas são encontradas depois de anos; outras, jamais, como no caso de Rei. Como outros parentes de pessoas desaparecidas, Kei permanece assombrada pelo ato do marido, para ela incompreensível, pois ele não parecia ter problemas no trabalho ou na vida familiar.
Eu preciso, em minha raiva, saber por que ele partiu.
Será que meu marido queria morrer? Ou será que sumiu por querer viver?
Se eu tivesse falado para Rei se cuidar, poderia ter evitado o seu desaparecimento?
Certo dia, ao voltar de trem para casa, decide prolongar a viagem e saltar por acaso em Manazuru, uma pequena cidade à beira-mar. Sem planejar, segue até o cais, contempla o mar e resolve passar a noite em um hotel, para onde voltará em viagens futuras, sempre atraída por uma força desconhecida.
Kawakami diz que suas duas maiores inspirações foram Gabriel García Márquez e J. G. Ballard
O cenário alterna-se, assim, entre Manazuru, a casa da família e os bares e hotéis onde Kei se encontra com o amante, Seiji, um homem casado por quem se apaixona como um modo de canalizar seus sentimentos desenfreados. Entretanto, a trama central se passa na mente dela, povoada não só por lembranças, mas por pessoas que lhe aparecem como sombras, sobretudo quando está em Manazuru: “São silhuetas tênues, não consigo distinguir se são homens ou mulheres”.
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Uma dessas silhuetas se aproxima e sua forma bem definida deixa evidente que se trata de uma mulher — que, a partir daí, torna-se uma de suas principais interlocutoras, persuadindo-a a voltar diversas vezes a Manazuru. Mesmo vivendo em mundos distintos, as duas ficam próximas e conversam sobre família, vida, morte e sobre o paradeiro do marido desaparecido, pois Kei acredita que ela o conhece e pode ajudar a encontrá-lo. Ao lado da mulher, ela circula entre mundos, frequentando lugares de aparência real que se evaporam no momento seguinte, sempre em busca de ao menos um vislumbre do marido.
Realismo mágico
Os leitores de A valise do professor (2021) e Quinquilharias Nakano (2010) — únicos livros da autora publicados no Brasil (ambos pela Estação Liberdade), que tratam da miudeza de vidas aparentemente corriqueiras — podem ter dificuldade em reconhecer a mesma autora em Manazuru. Mas, desde que abandonou a carreira de bióloga para se dedicar à escrita nos anos 1990, Kawakami é reconhecida como autora de ficção científica e de obras marcadas pelo realismo mágico. Não à toa, conta que as suas duas maiores inspirações foram Gabriel García Márquez e J. G. Ballard, escritor inglês conhecido por romances pós-apocalípticos.
O segundo livro da autora, publicado em 1996, traduzido em 2017 para o inglês como Record of a Night Too Brief (“Registro de uma noite muito curta”) e ganhador do prestigioso prêmio Akutagawa naquele ano, lembra Aventuras de Alice no País das Maravilhas, de Lewis Carroll, autor com quem é frequentemente comparada. Seus romances mais recentes retomam esse estilo, aproximando-a de Haruki Murakami e de autoras japonesas contemporâneas como Yoko Ogawa, Sayaka Murata e Yoko Tawada, assim como da precursora Izumi Suzuki, todas publicadas no Brasil.
Isso não quer dizer que Kawakami deixe de lado as cenas detalhadas e os personagens originais e bem construídos dos títulos anteriores. Em Manazuru, o cotidiano se passa na casa onde Kei vive com a mãe viúva e a filha. Acompanhamos as transformações de corpo e humor da adolescente, o envelhecimento da mãe, o ritual de troca de guarda-roupa nas mudanças de estação, as compras e os momentos em que, juntas, as três dedicam-se à costura.
Como em A valise do professor, em que um professor e sua aluna iniciam uma relação amorosa silenciosa, que acaba por revelar suas personalidades inusitadas, Kei está longe de ser uma mulher comum. Não só porque oscila entre um cotidiano de aparência banal e uma vida em meio às sombras — em que o flerte com a morte é constante —, como também porque algumas de suas reflexões fazem lembrar as densas personagens de Clarice Lispector:
Aquela sensação que eu tinha quando era jovem, de o meu corpo parecer extravasar de suas bordas no início do verão.
Ser comum é um tanto difícil… É facil ir além da ruptura. Muito mais difícil é se manter normal.
Kawakami não busca uma solução para o suspense, deixando claro que as relações que conduzem Kei em sua busca são mais importantes do que o fim. Passados mais de dez anos do desaparecimento de Rei, a família finalmente decreta a morte dele, permitindo a Kei retomar o nome de solteira. Não se sabe se de fato o marido está morto, embora o leitor seja gradativamente apresentado a explicações sinistras para o desaparecimento — uma delas é um assassinato passional, cujos rastros vão sendo encontrados por Kei na agenda deixada por ele e em imagens reprimidas em sua memória, que a mulher-sombra a obriga a rever. Mas seriam memórias deste ou de outro mundo?
Editoria com apoio Japan House São Paulo
Desde 2019, a Japan House São Paulo realiza em parceria com a Quatro Cinco Um uma cobertura especial de literatura japonesa, um clube de leitura e eventos especiais.
Matéria publicada na edição impressa #105 em maio de 2026. Com o título “Crônica de um desaparecimento”
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