A professora e crítica literária Beatriz Resende (Bira Soares/Divulgação)

Crítica Literária,

Rebeldes com causa

Beatriz Resende questiona o modelo patriarcal da academia e propõe uma leitura livre, guiada pelos feminismos e pelo antirracismo

01mar2026 • Atualizado em: 26fev2026 | Edição #103

A saudosa imortal Heloisa Teixeira costumava repetir que, uma vez que se passa a enxergar a vida sob a perspectiva do feminismo, não existe caminho de volta. Para a professora emérita da Faculdade de Letras da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) Beatriz Resende, essa travessia foi feita ao lado de Helô, em décadas de trocas intelectuais e afetivas, marcadas pelo enfrentamento ao cânone literário.

Enquanto Helô se dedicou à poesia e a sistematizar o pensamento feminista em livros e coleções, Beatriz questionou o “modelo patriarcal, branco e masculino”, propondo uma “revisão das listas e bibliografias na academia para o exercício da crítica livre e atenta: uma crítica insubmissa”.

Sob essa inspiração, dois ex-alunos e parceiros de pesquisa, Adriana Madeira Coutinho e Lucas Bandeira, reuniram os textos de Beatriz que compõem Crítica insubmissa. Na recém-lançada coletânea, ensaios e artigos sobre Virginia Woolf, Carol Bensimon, Conceição Evaristo e Ana Maria Machado, entre outras, refletem o percurso intelectual da autora e seu compromisso com a renovação da análise e a problematização do cânone, a partir de epistemologias que levam em conta o feminismo, o antirracismo e os estudos queer.

Para quem conhece Beatriz pela minuciosa investigação sobre Lima Barreto, há também menções en passant ao escritor. A seleção de Crítica insubmissa cobre os últimos vinte anos de sua produção, abarcando desde discussões sobre a função da crítica e a leitura de autoras que escrevem em primeira pessoa, como Annie Ernaux, até elaborações teóricas sobre a relação entre literatura nacional e do mundo, o realismo na contemporaneidade e o teatro brasileiro. 

Além de mapear a produção contemporânea, os ensaios unem erudição e agilidade do jornalismo literário

Em entrevista, Beatriz afirma que a ideia do livro surgiu num momento em que estava “devastada” pela morte de Helô Teixeira, em março de 2025. “Eu ia pelo menos duas vezes por semana à casa dela para trocarmos leituras e sempre saía de lá iluminada”, diz a pesquisadora. “Fora a amizade, né? Assistia à novela Vale-tudo e pensava: ‘Tenho que falar com a Helô sobre isso’, mas não tinha mais Helô. Foi quando esses dois professores, a Adriana e o Lucas, disseram que eu tinha de publicar.”

Além de mapear a produção contemporânea e pensar o presente, Crítica insubmissa une a erudição acadêmica à agilidade do jornalismo literário, pelo qual Beatriz transita com a mesma sensibilidade e elegância. Como resultado, há histórias saborosas como a de seu encontro com Susan Sontag em 1993, no Rio. A estrela estadunidense só deu moral à brasileira depois de Beatriz contar que havia assistido às aulas de Roland Barthes em Paris. 

Na conversa, a professora defende que a crítica precisa se abrir para o “imediato”, abandonando a ilusão de que literatura é apenas o que sobrevive por gerações, e revisita a formação da sua perspectiva crítica.

Você afirma que Crítica insubmissa é um livro que propõe questões. Essas dúvidas marcaram sua trajetória?
Sobretudo a partir dos anos 90, Hêlo [Teixeira], Eduardo Coutinho, eu e outros estivemos sob a influência do pensamento teórico que questiona o cânone, por excluir mulheres, negros. Recentemente, fiz a mesma pesquisa, desta vez com o filtro voltado às escritoras. No meu livro, há apenas um texto a respeito de um homem, o querido Sérgio Sant’Anna. É um ensaio que escrevi emocionada, logo após a morte dele, em 2020. Mas claro que posso tratar de homens. Estou trabalhando com autores gays, como Didier Eribon. 

Desde quando os feminismos, o antirracismo e os estudos queer norteiam sua perspectiva crítica?
O antirracismo principalmente desde o doutorado sobre Lima Barreto. Logo em seguida, a Helô me convidou para ser uma das pesquisadoras da ciec [Coordenação Interdisciplinar de Estudos Contemporâneos], que ela havia acabado de criar [em 1986]. Aí começou o feminismo. Até então, atuava como feminista na política partidária, em eleições. Ao me juntar à Helô, me dediquei à teoria, o que foi maravilhoso. Ambas passamos a ler só mulheres. A Helô mais na poesia e eu na prosa. Embora não seja uma teórica como ela, me apropriei do que chamo de olhar feminista. Mas não me pergunte o que é, porque não sei.

A Helô dizia que, sob a lente do feminismo, a gente nunca mais vê o mundo da mesma maneira, né?
Nunca, nunca mais.

Como era a crítica literária no período em que você buscava novas epistemologias?
Ainda existia uma quantidade razoável de veículos com suplementos que publicavam crítica literária. Fiz muitos textos para revistas e jornais como o Correio da Manhã, antes desses suplementos desaparecerem. Mas o que me influenciou muitíssimo foi escrever para o site No.com, do [crítico e jornalista] Paulo Roberto Pires. O contato próximo com jornalistas e o jornalismo literário mudou minhas leituras e foi fundamental para minha escrita, pois eu tinha pouco tempo para ler e escrever. Também colei no contemporâneo e passei a cultivar uma escrita e uma crítica não canônica.

Num dos textos publicados no livro, você questiona para que serve a crítica literária hoje…
Esse é um artigo bem recente, feito para um congresso. Estava muito incomodada, porque a gente fica falando que não tem mais crítica, não tem onde publicar, não tem caderno literário. Sabe o que acho? Que não tem crítica porque a gente não está sabendo lidar com a crítica.

Você se refere ao cancelamento?
A pessoa não aceita ser criticada e quem está escrevendo não consegue dizer que se trata de uma crítica. Não estou falando de coisas como “detesto esse escritor, além de tudo ele é homem”, nem de brigar na imprensa ou ao vivo. Às vezes tenho medo, né? Sou muito “branca azeda”, como diziam na escola. Evidentemente, sofri hostilidade quando trabalhava com Lima Barreto. A vida do crítico não é fácil. 

Você se recusa a escrever algumas críticas?
Às vezes, penso em não escrever, porque não vou aguentar levar porrada. O espaço que temos já é tão pequeno — não faço crítica para desqualificar ou descer o cacete. Mas, sobretudo quando se trata de uma pessoa com visibilidade, se tiver discordâncias, trato de dizer, o que é muito diferente de cancelar, né? 

Você escreve sobre construir novas epistemologias sob a perspectiva do feminismo. A partir de quais referências?
No Brasil, a própria Helô, Mary Castro e muitas das autoras publicadas pela [editora] Bazar do Tempo. E as americanas Judith Butler, Nancy Fraser. Me interessa refletir sobre a experiência de vida, que não é um conceito simples e está presente na literatura contemporânea de mulheres negras, mas não só. Em Te dou minha palavra [Companhia das Letras], Noemi Jaffe parte de vivências em família, na escola, com amigos Gosto muito dos últimos livros e dos contos de Simone de Beauvoir, que tratam da velhice. Quando escreve sobre sua mãe, Didier Eribon faz uma pesquisa maravilhosa do mesmo tema.

‘Uso Benjamin, Adorno, mas estou de saco cheio de lidar academicamente só com homens’

No Brasil, a escrita de si ganha outros sentidos com a escrevivência?
A escrevivência é uma experiência peculiar de Conceição Evaristo e de algumas poucas poetas. Isso quer dizer que a forma da escrita vai sendo cunhada por sua experiência. Minhas críticas, mesmo que não falem da minha vida, partem da minha posição social, do fato de ser uma mulher que teve filhas, que é avó. Uma mulher que enfrentou a liderança acadêmica de homens e todas as dificuldades disso. Até quando trato da academia, não posso deixar de levar em conta que, embora pertencendo a Letras, um campo mais feminino, tem a faculdade, os diretores. São todos homens.

Ainda?
Outro dia, tive um aborrecimento com a questão da teoria literária. Seja no Rio, em São Paulo ou na Europa, os programas só trabalham com homens. Uso [Walter] Benjamin abundantemente, assim como Adorno, mas estou de saco cheio de lidar academicamente só com homens. Prefiro introduzir Nancy Fraser. Eu e várias outras, como Flora Süssekind ou Ana Maria Machado, só pudemos nos constituir numa posição de insubmissão ao cânone e à teoria literária. Agora, com outras colegas, estamos organizando uma história feminista da literatura brasileira. Daí, vão questionar: “Ah, mas então quer dizer que só importam as mulheres?”. Não se trata disso, mas é no que estou interessada agora.

Além de epistemologias feministas (gênero, raça e classe), você considera a perspectiva de território em textos de Annie Ernaux e, no Brasil, na obra de Ferréz e Paulo Lins. Poderia falar sobre isso?
Ferréz e Paulo Lins são autores ligados ao seu território. Engraçado — ao mesmo tempo que falo muito sobre a liberdade de não precisar trabalhar com uma literatura nacional etc., tenho profunda curiosidade pela relação das pessoas com seu tempo e seu espaço. Nos dois cursos sobre “escrever a mãe” que dei na Escrevedeira [centro cultural em São Paulo], tratei de autoras que, falando de si, falam da mãe, como Simone de Beauvoir no livro Uma morte muito suave [Nova Fronteira]. Também fiz uma pesquisa sobre homens da América Latina e das Antilhas que escrevem sobre a mãe e percebi que é uma ocasião para falar de sua época e de onde vieram. Atualmente, estudo três homens gays que se relacionam com território: os franceses Didier Eribon e Édouard Louis e Ocean Vuong, um autor estadunidense que se ocupa de suas raízes vietnamitas.

Em um dos artigos, você menciona Capão pecado, de Ferréz, e Cidade de Deus, de Paulo Lins, como marcos da literatura contemporânea. Nesse contexto, qual é o papel das cotas nas universidades?
Ah, elas mudaram tudo. A sala de aula virou outra coisa. Temos muito mais escritores, o que atribuo não só à oportunidade de ir à universidade, mas também a uma valorização. Paulo Lins e Ferréz são bons, mas, depois deles, em 2010, as mulheres vieram para valer. Dou oficinas a escritoras negras e elas dizem que os caminhos estão abertos, mas se perguntam se serão lidas. 

A primeira peneira é escrever. A segunda, publicar. A terceira, ser uma autora como Eliana Alves Cruz. As questões feministas e antirracistas também elevaram a crítica e as discussões a outros patamares. Inclusive entre as negras. A Djaimilia Pereira de Almeida, por exemplo, diz que não tem nada mais irritante do que ser chamada para um congresso, não poder ir e ouvir da pessoa que a convidou se ela pode indicar outra mulher negra para substituí-la. A literatura da Djaimilia é maravilhosa mesmo quando não trata de raça. Ela se ocupa dos subalternos, dos pobres. Mas voltando às cotas, agora, estamos vivendo uma nova mudança, com a chegada das pessoas trans nas universidades.

‘Com esse livro, quis fazer uma crítica que não obedece aos padrões, ao cânone ou ao mercado’

Recentemente, houve uma discussão acalorada a partir de uma fala da professora Aurora Bernardini ao jornal Folha de S.Paulo, na qual ela afirmava que na literatura brasileira contemporânea o conteúdo predomina sobre a forma. Qual é sua opinião sobre a recepção crítica desses autores?
Primeiramente, tenho profundo respeito por Aurora, que é professora, intelectual, tradutora e crítica. Me desagradaram muito comentários que a desqualificavam como se fosse uma velha gagá. Não se trata disso. Aurora tem uma visão canônica da literatura, o que não é nenhum demérito. Houve um momento em que essa era a grande literatura. No final dos anos de chumbo, as obras com depoimentos eram a coisa mais importante. São livros precários, que não foram adiante, mas são relevantes politicamente. A Aurora tem um nível de exigência em termos de escrita. Certamente, ela não deve ter gostado da fase engajada de [Jean-Paul] Sartre. O teatro de Sartre é importantíssimo, mas bem ruinzinho. Em especial se pensarmos que ele escreveu no tempo de [Samuel] Beckett.

Como a crítica deve se comportar frente à literatura contemporânea?
Não se fala mais da “literatura”. Não existe mais isso. Portanto, a crítica tem que mudar. Não dá para escrever sem considerar o sujeito, o território, as condições socioeconômicas. Não precisa ser um autor engajado para falar disso. As mídias, a web, as redes sociais também fazem parte da literatura. Inclusive, não sei por quanto tempo ainda vamos falar de contemporâneo. Essa foi uma palavra muito forte na virada do século, mas agora as coisas acontecem e se difundem tão rapidamente no tempo e no espaço que temos de pensar em outra terminologia.

Qual?
Talvez tenhamos de falar em arte ou literatura do imediato. O que me angustia é a velha e equivocada afirmação de que “literatura é o que fica”: “Vamos ver se isso é bom ou não daqui a duas gerações”. No século 20, a literatura boa era essa. Isso não tem mais cabimento. Não sei o que vai ficar. Certamente, Ana Maria Gonçalves, por sua importância e por razões sociais e históricas. Sob o impacto do imediato, a crítica é ainda mais necessária — ou vamos ficar só na lista de mais vendidos. Não estou dizendo que devemos falar mal dos best-sellers, mas, sim, chamar a atenção para os que estão fora desse ranking. Não tenho nada contra os livros do TikTok. Minha neta lê.

Em sua opinião, como a crítica pode se abrir para novas vozes?
Antes de mais nada, é preciso aceitar o diferente. Já sobre a dificuldade de fazer e receber a crítica sem cancelamento ou porrada, a gente passa por isso, assim como o autor com o qual trabalhamos ou a bibliografia que usamos na universidade. Com esse livro, quis fazer uma crítica que não obedece aos padrões, ao cânone ou ao mercado. Temos de debater buscando uma forma de praticar a crítica.

Quem escreveu esse texto

Adriana Ferreira Silva

Jornalista, escritora e palestrante, trata de temas como desigualdade de gênero e liderança feminina.

Matéria publicada na edição impressa #103 em março de 2026. Com o título “Rebeldes com causa”