A ex-vice-presidente dos Estados Unidos, Kamala Harris, durante o lançamento de '107 Days' em Miami, em novembro de 2025 (Matias J. Ocner/Miami Herald/Tribune News Service/Getty Images)

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Alegria na luta

No lançamento de 107 Days, Kamala Harris diz ter vivido luto na derrota para Trump e afirma que os EUA estão preparados para uma mulher presidente

01mar2026 • Atualizado em: 27fev2026 | Edição #103

“Você me perguntou se terá algum show durante sua visita. Não encontrei nada, mas achei algo interessante”, meu irmão me escreveu meses antes da viagem que eu faria a Miami, em novembro de 2025, para visitá-lo. O mistério não me empolgou. Se o país com mais shows no mundo não tinha uma apresentação musical nos quase vinte dias que eu passaria lá, o que me restaria? 

Um banner saltou na tela, anunciando o último encontro da turnê de lançamento de 107 Days, da ex vice-presidente dos Estados Unidos, Kamala Harris. Publicado um ano depois das eleições norte-americanas de 2024, o livro detalha o curto período da histórica campanha presidencial contra Donald Trump, após o ex-presidente Joe Biden desistir da corrida e apoiá-la. “Pode comprar os ingressos”, respondi.

Na noite de 20 de novembro, enquanto caminhávamos pelas ruas do centro de Miami até o local do lançamento, um carro com as cores da bandeira estadunidense e alto falante se demorava em meio ao trânsito espalhando uma gravação: “Kamala Harris mentiu”, “ela e todo o partido democrata não passam de farsantes”, “o povo americano enfim acordou”.

Na calçada em frente ao auditório, se formavam filas de pessoas vestidas em tons de azul, combinando com o livro um tom mais claro que seguravam embaixo do braço. Sem me dar conta, eu também tinha ido a caráter. Notei que havia ali o maior número de pessoas pretas entre todos os lugares que eu tinha visitado até então. Uma mulher na fila verbalizava algo parecido: “É bom ver mais irmãos nessa luta após um ano tão difícil”.

O livro narra do convite de Biden até a noite de eleição, que definiu como o capítulo mais difícil de escrever

Lá dentro, não demorou para que o palco se iluminasse, imagens da turnê do livro e da campanha presidencial fossem exibidas e o público voltasse a atenção para as imagens de Kamala Harris ao lado de artistas, políticos e do eleitorado que a apoiou. A nicaraguense Ana Navarro, analista política e apresentadora do programa The View, fazia a mediação naquela noite e, após uma breve introdução, a ex-vice-presidente também subiu no palco. 

Vestindo um terno branco visto até das últimas fileiras da plateia, Harris detalhou as razões que a levaram a publicar o relato. Escrito quase em forma de diário, com capítulos que correspondem a cada um dos 107 dias da campanha, o livro narra desde o convite de Biden até a derrota na noite de eleição, capítulo que ela definiu como o mais difícil de escrever. 

“Parei de assistir às notícias por um tempo”, contou. “Eu precisava processar aquele período. Durante a campanha, era natural que eu me orientasse pelas tarefas. Então todos os dias eu precisava fazer o máximo possível. Toda noite, eu dizia: ‘Deus, por favor, me diga que fiz tudo o que podia fazer’.”

Harris era uma vice-presidente contra um ex-presidente que estava em campanha havia dez anos. “Estava preparada e resignada a fazer tudo o que pudesse para evitar o que previa que seria o resultado da eleição: que uma autocracia comandaria este país. E, de fato, previ praticamente tudo o que aconteceu”, disse.

Perspectiva

Na noite de 4 de novembro, véspera da eleição, a democrata participou de um grande comício na Filadélfia. O clima era festivo e todos acreditavam na vitória. No dia seguinte, com a família em casa, o marido, Douglas Emhoff, recebeu uma ligação de um amigo, dizendo que os resultados eram preocupantes. “Doug subiu e foi rezar, esperando que não fosse verdade. E eu senti algo que só tinha sentido quando minha mãe morreu”, conta. “Foi um luto. E o meu luto era pelas pessoas. Eu sabia o que aconteceria.”

Questionada se acredita que o racismo e o sexismo podem ter afetado sua campanha à Casa Branca, a ex-vice-presidente adotou uma perspectiva contrária à de muitos de seus colegas democratas, para os quais o país não está pronto para uma presidente mulher — incluindo uma declaração recente de Michelle Obama.

“Dizem que o país não está pronto para eleger uma mulher. Eu não acredito nisso”, disse, bastante aplaudida. “Essa não é a minha experiência: fui a primeira mulher em diversos cargos que ocupei e, na maioria das vezes, a primeira mulher negra.”

Ainda que à época do lançamento não existissem protestos tão intensos contra o ICE, a agência federal dos EUA responsável pela fiscalização da imigração — e tampouco que as prisões sem mandado e mortes por agentes ainda fossem tão evidentes —, as ameaças das políticas anti-imigrante de Trump já dominavam as conversas. Durante minha viagem, era comum ouvir sobre o temor das pessoas numa cidade em que a grande maioria dos habitantes tem outras origens ou descende de imigrantes, principalmente vindos de países da América Latina.

“O governo de Trump já ameaçou processar algumas organizações que trabalham pelos direitos dos imigrantes”, disse Harris. “E o cidadão já sente os efeitos disso em suas comunidades”, completou, antecipando o que veríamos ocupar as manchetes.

Esperança

Aquele não era o meu país nem a minha língua, mas, àquela altura do debate, como a maioria ali, senti que não havia muita esperança no horizonte. Navarro perguntou à ex-vice-presidente como conseguiu encarar a derrota nas eleições e fazer um discurso para milhares de pessoas — principalmente aos que acreditavam na sua vitória, como muitos da plateia. 

“Durante 107 dias, eu encerrava os comícios dizendo ‘Quando lutamos, vencemos’. E nós lutamos. E às vezes a luta demora, porque essa é uma luta por algo, não contra algo”, disse Harris. “Precisamos aceitar que a vitória e a derrota podem coexistir. Há motivos verdadeiros para querer quebrar tudo, para nos sentirmos perturbados a ponto de chorar diante do medo e do sofrimento que presenciamos. Mas estamos juntos e por isso digo: há alegria na luta.”

A lenta saída que nos levava até a rua era elétrica. As palavras de Kamala Harris reverberavam e se misturavam à música de Tina Turner que tocava nos alto-falantes (“What’s Love Got to Do with It”). Em casa, folheio 107 Days e a frase em que me demoro diz “get your people ready” (“prepare seu pessoal”).

Editoria especial em parceria com o Laut

LAUT – Centro de Análise da Liberdade e do Autoritarismo realiza desde 2020, em parceria com a Quatro Cinco Um, uma cobertura especial de livros sobre ameaças à democracia e aos direitos humanos.

Quem escreveu esse texto

Jaqueline Silva

É jornalista em formação pela ECA-USP e assistente editorial na Quatro Cinco Um.

Matéria publicada na edição impressa #103 em março de 2026. Com o título “Alegria na luta”