Repertório 451 MHz,

Páginas antirracistas

Lavínia Rocha e Andressa Marques discutem como o ensino de literatura pode ser um aliado no combate ao racismo

20fev2026

Está no ar o 184º episódio do 451 MHz, o podcast dos livros. Nesta edição, o programa apresenta um bate-papo entre as escritoras e professoras Lavínia Rocha e Andressa Marques sobre os caminhos para uma educação antirracista. 

As convidadas conversam sobre estratégias para combater o racismo em sala de aula e sobre seus livros mais recentes: o infantojuvenil O que você pensa quando eu falo África? (Yellowfante, 2025), de Rocha, e o romance A construção (Nós, 2024), de Marques. Elas analisam os desafios para implementar uma educação antirracista nas escolas brasileiras, especialmente devido à falta de orientação pedagógica para os professores.

O encontro aconteceu durante A Feira do Livro 2025 e foi mediado pela jornalista e historiadora Paula Carvalho. O episódio foi realizado com apoio da Lei Rouanet – Incentivo a Projetos Culturais.

Nascida em Taguatinga, no Distrito Federal, Andressa Marques é doutora em literatura pela Universidade de Brasília e fez parte de uma das primeiras turmas de cotistas do país. Além de professora e escritora, é coordenadora-geral de livro e literatura na Secretaria de Formação, Livro e Leitura (SEFLI) do Ministério da Cultura. A construção é seu romance de estreia. 

Já a belo-horizontina Lavínia Rocha ficou conhecida pela criação da Pedagogia do Entusiasmo, um método para estimular o aprendizado por meio da diversão. Com uma carreira que combina criatividade, educação e militância, é autora de vários títulos infantojuvenis e para adultos. Seu projeto África: um continente diverso, que lhe rendeu o prêmio Perestroika de professora mais criativa do país na educação básica em 2022, deu origem a O que você pensa quando falo África?.

Negritude em foco

O ponto de partida da conversa são os grupos historicamente invisibilizados cuja história é colocada em evidência nos livros das duas convidadas. A mediadora Paula Carvalho destaca que O que você pensa quando falo África?, de Lavínia Rocha, apresenta o continente africano antes do período da colonização europeia, enquanto o romance A construção, de Andressa Marques, acompanha os trabalhadores negros, na maioria nordestinos, que participaram da construção de Brasília, nos anos 1950.

Para Rocha, contar tais histórias é uma forma de mudar percepções estereotipadas da negritude — o que também vale para os povos indígenas, ela ressalta. A autora defende que o primeiro passo para uma educação antirracista é “positivar a ideia do que é ser negro”. 

“Meu livro O que você pensa quando falo África? é baseado em uma história real”, diz. “Perguntei para os meus alunos de quinto ano na época: ‘o que vocês pensam quando falam África?’. E as respostas que eles me deram foram bem negativas: pobreza, miséria, fome.” Ela conta que, depois de conhecerem mais sobre a história africana, houve uma transformação na imagem que os estudantes tinham do continente e na ideia do que significa ser negro. “Foi quase um chá de revelação racial”, brinca. 

A escritora mineira ressalta que, para uma educação antirracista efetiva, não basta falar de África em novembro, o Mês da Consciência Negra, ou restringir o debate ao problema da escravidão. “Falar de educação antirracista é uma coisa muito grande. Às vezes, a gente está falando, mas não entende muito bem o que é, como fazer”, diz Rocha, acrescentando que é importante buscar referências. Ela cita, por exemplo, Como ser um educador antirracista (Planeta, 2023), da professora baiana Bárbara Carine.

A professora e escritora Andressa Marques (Flavio Florido)

Andressa Marques conta que sua reflexão sobre pedagogia antirracista nasceu da inquietação sobre como ensinar literatura negra sem tratá-la como exceção. A professora relata que, a partir da experiência em sala de aula, sentiu necessidade de repensar o modelo tradicional, baseado em escolas literárias.

Inspirada nas ideias que a escritora norte-americana Toni Morrison apresenta na coletânea de ensaios A fonte da autoestima (Companhia das Letras, 2020), Marques diz ter encontrado na escrita criativa uma ferramenta para trabalhar a complexidade de personagens negros que, apesar de atravessados pelo racismo, não são definidos por ele.

Literatura como espelho

A construção de personagens que valorizam sua identidade racial é outro caminho para transformar o ensino de literatura em um aliado na luta contra o racismo, explicam as convidadas na conversa.

A escritora e professora Lavínia Rocha (Flavio Florido)

Lavínia Rocha conta que, quando começou a escrever ficção, suas protagonistas eram brancas — personagens que projetavam desejos e sonhos distantes da realidade da autora. Com o tempo, ela sentiu necessidade de se ver nas próprias histórias. Criou então sua primeira protagonista negra, que até nas ilustrações fazia lembrar Rocha. “Parece comigo? É de propósito”, ela respondia a quem apontava a semelhança.

Hoje, acrescenta a escritora, muitas de suas personagens nascem do cotidiano escolar. Ela conta, por exemplo, que um dia ouviu duas alunas negras falando sobre cabelo. “Eu gosto de cacho, mas dá um trabalho!”, uma delas disse. Percebendo que o diálogo poderia suscitar uma narrativa sobre autoestima e identidade negra, Lavínia Rocha imediatamente teve a ideia de um livro. “Elas vão ser personagens. Eu não criei, elas existem, eu só estou escutando”, explica a respeito da inspiração para a escrita .

No caso de A construção, de Andressa Marques, a história familiar da autora se mistura à fabulação na criação de Jordana, a protagonista do romance. A escritora diz que a jovem é “insegura” e “em cima do muro” porque precisava ser atravessada por ausências e silêncios familiares.

No episódio, Marques revela que teve um avô eletricista, que morreu durante a construção da capital federal, pano de fundo da narrativa. Ela só descobriu detalhes da vida dele depois de mergulhar em arquivos que usou como fonte de pesquisa. 

“Essa história do avô era uma coisa que a minha família não sabia. A gente sabia que o avô foi, construiu, faleceu. Meu pai era criança de colo e voltou para a família. Então, [o romance] é bem autobiográfico também.”

Livros e afins

Confira os títulos que aparecem nesta edição do 451 MHz e outras leituras ou referências mencionadas durante a conversa:

  • Como ser um educador antirracista, de Bárbara Carine (Planeta, 2023)

  • A fonte da autoestima, de Toni Morrison (Companhia das Letras, 2020)

  • O que você pensa quando falo África?, de Lavínia Rocha (Yellowfante, 2025)

  • A construção, de Andressa Marques (Nós, 2024)

  • Amada, de Toni Morrison (Companhia das Letras, 1987)

  • Entre 3 mundos, de Lavínia Rocha (Gutenberg, 2022)

Mais na Quatro Cinco Um

Lavinia Rocha falou sobre O que você pensa quando falo África? na entrevista a Jaqueline Silva publicada em maio de 2025 na revista dos livros. Na conversa, a escritora mineira discute formas de pensar a educação antirracista nas escolas e o compromisso do país em honrar as histórias afro-brasileiras e indígenas desde a infância dos cidadãos. 

“Há muitas diferenças dependendo do povo que você trabalha. Falar dos iorubás, por exemplo, é enfrentar muito racismo religioso dentro das escolas”, diz a escritora. Leia na íntegra.

O melhor da literatura LGBTQIA+

No quadro de dicas literárias LGBTQIA+, o episódio traz uma recomendação do escritor cearense Luciano Brito, autor do romance As falésias (Machado, 2024). Ele recomenda Simpatia pelo demônio, de Bernardo Carvalho, que saiu pela Companhia das Letras em 2016.

“O arranjo é impressionante. Na maneira labiríntica como a narração estuda essas obsessões e emoções, muitas vezes ela parece sair de controle, mas sempre se reencontra. Até sugere alguns esclarecimentos sobre um caminho feito, depois que, em dada fase da vida, tudo se desfaz. No comentário que faz sobre a violência, é um livro incendiário, fino e sóbrio”, diz.

O 451 MHz é uma produção da Associação Quatro Cinco Um.
Apresentação: Paulo Werneck
Colunista mensal: Bruna Beber
Produção: Beatriz Souza e Mariana Franco
Edição e mixagem: Fabio Teixeira
Identidade visual: Quatro Cinco Um
Identidade sonora: Guilherme Granado e Mario Cappi
Apoio: Ministério da Cultura
Para falar com a equipe: [email protected]