Autobibliografia,
O anjo torto
Com imagens mórbidas e cadência convulsiva, Augusto dos Anjos precisou de um único livro para inocular o cânone da poesia brasileira
29jan2026De repente, alguém se levanta no meio do auditório lotado e interrompe o poeta com poesia — como quem invade o Maracanã fazendo embaixadinhas no meio de um Fla-Flu.
— Para desvirginar o labirinto do velho e metafísico Mistério, comi meus olhos crus no cemitério, numa antropofagia de faminto!
Espantado, como toda a plateia, Ferreira Gullar suspende sua arenga contra os artistas conceituais, reunida no então recém-lançado livro de ensaios Argumentação contra a morte da arte, para escutar o sujeito.
Que então avança, em altíssimo e bom som.
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— A digestão desse manjar funéreo tornado sangue transformou-me o instinto de humanas impressões visuais que eu sinto, nas divinas visões do íncola etéreo!
E prossegue até os últimos versos do, como eu descobriria mais tarde, “Solilóquio de um visionário”.
— Vestido de hidrogênio incandescente, vaguei um século, improficuamente, pelas monotonias siderais… Subi talvez às máximas alturas, mas, se hoje volto assim, com a alma às escuras, é necessário que ainda eu suba mais!
Era um soneto, afinal.
Em voz alta, as imagens pareciam ainda mais fantásticas, o tom, mais mórbido e o vocabulário, mais intrigante. Em contato com o ar, cada palavra entrava em combustão espontânea.
Gullar nem titubeou ao apontar o autor: quem, além de Augusto dos Anjos, escreveria “comi meus olhos crus”, “íncola etéreo” ou faria “hidrogênio incandescente” rimar com “improficuamente”?
O paraibano saiu ignorado da vida para entrar na história da literatura, reabilitado por Otto Maria Carpeaux, Antônio Houaiss e Manuel Bandeira.
Não sei quem fez aquela performance. Vários suspeitos: no início dos anos 1990, havia vários grupos — sim, grupos; só se usava “coletivo” para ônibus — de poesia no Rio. A cidade era um Cabaret Voltaire com vista para o mar.
Podia ser alguém do Boato ou do Pô-Ética, um frequentador do CEP 20.000 ou algum escritor fazendo hora antes de tentar vender seu livro de bar em bar no Baixo Gávea.Para você, herói desconhecido das diatomáceas da Lagoa, meu agradecimento tardio. Saí de lá e fui direto comprar Eu e outras poesias.
Todo mês, o leitor Fernando Luna (@fluna) faz um exposed de seu relacionamento íntimo com um livro.
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JUNHO, 2026
