A escritora britânica Zadie Smith (Kemka Ajoku)

Literatura,

A fraude do colonialismo

Zadie Smith conversa sobre seu primeiro romance histórico, legados da Inglaterra vitoriana, veleidades literárias e necessidade de escrever

01jan2026 • Atualizado em: 05jan2026 | Edição #101

Um famoso julgamento na Inglaterra do século 19; a sociedade e os escritores ingleses da era vitoriana; o colonialismo e a escravidão. Zadie Smith fez história. 

O livro de estreia, Dentes brancos (2000), escrito quando tinha pouco mais de vinte anos, foi um sucesso instantâneo, de crítica e público. Seguiram-se O caçador de autógrafos (2002), Sobre a beleza (2005), NW (2012) e Ritmo louco (2016), publicados no Brasil pela Companhia das Letras. Depois desses cinco romances ambientados no tempo presente (ainda que determinado pelo passado), a escritora, filha de mãe jamaicana e pai inglês, lançou seu primeiro romance histórico: A fraude

“Vagamente baseado na vida de William Harrison Ainsworth”, conforme os agradecimentos finais de Smith, o romance acompanha o escritor de uns quarenta livros nada memoráveis (apesar da relativa fama de sua primeira publicação), sua família e sua musa-amante-conselheira Eliza Touchet. No período representado, Ainsworth está em crise criativa — tentando escrever seu “romance jamaicano”, com uma visão bem questionável da Jamaica — numa Inglaterra mobilizada pelo caso Tichborne.

O caso: Sir Roger Tichborne, herdeiro de barões, some em um naufrágio aos 25 anos; sua mãe acredita que continua vivo e oferece recompensa para quem o encontrar. Surge um açougueiro cockney que vivia na Austrália (Arthur Oton) alegando ser ele o ex-futuro barão. Segue-se um longo julgamento por perjúrio, com boa parte da população (e da família Ainsworth) acreditando que o açougueiro é realmente o nobre desaparecido. Ao seu lado, como principal testemunha e apoiador, está Andrew Bogle, ex-escravizado na Jamaica, que trabalhou para a família Tichborne e sustenta a versão de Oton. A segunda metade do livro mergulha na vida de Bogle — e ainda mais nas relações coloniais entre Inglaterra e Jamaica. 

‘Não pretendia fazer um livro de 600 páginas, mas o século 19 é complicado’

Seria Oton/Tichborne a fraude do título? Spoiler da autora: “a maior fraude é a escravidão e o colonialismo”. Mas há outras, como a fogueira das vaidades nos convescotes do mundinho literário da época (não muito diferentes das reuniões de escritores atuais, segundo Smith), as relações entre a classe trabalhadora e a elite, a vida das mulheres na Inglaterra vitoriana. São muitas camadas: a escritora quis retratar toda a sociedade, “o melhor e o pior dos tempos”, como era então e é até hoje, diz ela nesta entrevista para a Quatro Cinco Um. Na conversa por videochamada, Smith falou sobre história, colonialismo, envelhecimento, escrever a partir de frustrações e seu amor pela personagem Eliza Touchet, de A fraude, e pela dança contemporânea. 

O que te levou a escrever um romance histórico? 

Queria entender por mim mesma qual foi a história entre meus países, Jamaica e Inglaterra, e, entre outras coisas, saber como a escravidão acabou. Foi um jeito de me educar sobre um assunto que me dava curiosidade. 

Como foram a pesquisa e a escrita?

Achei que seria muito trabalho. E foi. Uns dez anos de leituras. Mas a escrita foi bem rápida, terminei em uns dois anos. Tudo me deu muito prazer. É lendo muito que você se sente suficientemente segura no mundo que está sendo escrito. 

Teve a sensação de que a história real [o Caso Tichborne] era melhor do que a ficção?

Na verdade, não tive que fazer muita [ficção], apenas tentei contar mais ou menos a verdade. Todas as pessoas do livro são reais. Suponho que a parte mais ficcional é a senhora Touchet indo ao julgamento — não tenho ideia se ela fez isso de fato. Mas não é muito diferente de escrever ficção: é como escrever um romance em que a trama já está decidida. Nesse sentido, é mais fácil; mas no sentido de criar os personagens e os diálogos é a mesma coisa de escrever algo puramente ficcional.

‘Gosto de falar sobre o tanto de respeito dado aos escritores, excessivo do meu ponto de vista’

Além da pesquisa histórica, há muitas referências, inclusive estilísticas, a escritores da época. Algum te influenciou especialmente? 

Minha primeira inspiração foi uma escritora chamada Penelope Fitzgerald, autora do romance The Blue Flower, que se passa no século 18. É uma novela histórica linda e muito curta. Gostaria que o meu [romance] fosse mais curto do que acabou ficando. A novela de Fitzgerald é muito elegante, tem um tom interessante e não se parece com um livro do século 18 — é impressionante como ela fez isso. 

Em A fraude você descreve os círculos literários de Londres na época, o que me fez pensar em Virginia Woolf

Eu amo a Virginia Woolf e assim que terminei de escrever A fraude li os cinco volumes de seus diários, foi um presente que dei para mim mesma. Mas somos escritoras bem diferentes. As descrições dos círculos literários — bem, eles ainda existem e são bastante parecidos com os da época [do romance]. Em Nova York ou em Londres, os escritores ainda se reúnem para jantar, beber, discutir. Não foi difícil imaginar como era no século 19, época em que se passa o livro. Muitas das cenas são experiências pelas quais já passei. 

Essa Inglaterra vitoriana em que se passa o romance parece exercer fascínio em muitos lugares do mundo, Brasil incluído. Como explica essa atração? 

Muitos países, como o Brasil, têm a ver com a Inglaterra vitoriana porque a máquina do comércio de escravizados se estendeu por toda parte. Era uma força global e todos entendem o poder que os britânicos tinham no século 19, mesmo quem não tem consciência disso. E temos todas aquelas lindas paisagens dos romances de Jane Austen, aquelas mansões em Brighton que foram construídas com o dinheiro do comércio de açúcar. Acho que há uma espécie de inconsciente coletivo que reconhece esse tempo de riqueza insana e, se não têm consciência política ou histórica, as pessoas precisam pelo menos saber de onde veio toda essa riqueza. 

Você quis fazer essa conexão em seu romance?

Sim, mas não só isso. A outra coisa que quero dizer sobre a era vitoriana é que, além da economia baseada no trabalho escravo, foi a época em que surgiram as raízes do movimento trabalhista, das escolas públicas, da saúde pública, a ideia de parques como uma área comum, o começo das estruturas sociais que permitiriam a minha vida e a de milhões de pessoas. Citando o velho [Charles] Dickens, “o melhor dos tempos, o pior dos tempos”. Isso é sempre uma verdade, para o século 19 ou para os dias atuais. 

Esses dois aspectos estão em A fraude, que, aliás, é um mosaico de aspectos da sociedade vitorina. Eles foram aparecendo conforme escrevia? 

Minha escrita tem muito de inconsciente. Não pretendia fazer um romance de seiscentas páginas, mas o século 19 é complicado e eu queria retratar toda a sociedade. Seria fácil mostrar só os abolicionistas, só os escravocratas ou só a classe trabalhadora. Mas a sociedade é formada por todos eles e assim vieram as várias camadas. Essa é a parte da literatura. Quando falo do período vitoriano com meus alunos, eles quase sempre perguntam: “como é possível que essas pessoas supostamente civilizadas, escritores, jornalistas, artistas, ficassem em seus salões conversando enquanto aquele horror [da escravidão] estava acontecendo?”. Quero mostrar a eles que é exatamente o que estamos fazendo na sala de aula. Ficamos sentados conversando sobre livros enquanto horrores inimagináveis estão acontecendo no Sudão, em Gaza, nas fábricas de Bangladesh. Então, meu romance não é apenas apontar o dedo para a Inglaterra vitoriana, é um autoexame: que histórias conto a mim mesma para chegar até o fim de cada dia? 

‘Escrever não substitui a terapia, não é mais importante que viajar ou cuidar dos outros’

Nessa relação entre o século 19 e o 21, o romance também quer fazer pensar nas fake news, no populismo? 

O que me interessou no caso Tichborne é que, por mais ridículo, populista e irracional que tenha sido, foi o primeiro que mudou a forma de se fazer julgamentos na Inglaterra. Até ali, os júris eram formados só por aristocratas e pela classe média alta. O populismo no caso Tichborne foi a exigência de que a classe trabalhadora fizesse parte, pela primeira vez. Para mim, é um bom exemplo da participação popular. 

Há várias fraudes no romance. Escritores como William Ainsworth são uma delas?

Algo de que gosto nos romances é eles deixarem você criar muitas hierarquias. Neste livro, a maior fraude é a escravidão e a relação entre a Inglaterra e a Jamaica, o colonialismo. Mas há várias formas de ser uma fraude e, para mim, a de Ainsworth é a mais benigna e mínima. Porque não importa se você não tem talento, mas invadir uma ilha, transformá-la em uma prisão e mentir sobre isso tanto para o povo da ilha quanto para o do país invasor é uma fraude histórica. Mas há várias fraudes cômicas no livro, como Ainsworth. Gosto dele e de escrever sobre o tanto de respeito dado aos escritores, excessivo do meu ponto de vista. Acho que a necessidade de escrever é uma consequência psicológica de certo tipo de infância. Escritores não deveriam ser levados tão a sério. Têm seus dons, como os atores ou os músicos, mas em uma área limitada. É importante saber que escritores tendem a ser sentimentais, autocentrados, podem ser infantis e são muito ambiciosos. 

É “o peso da literatura”, como diz no livro o garoto que vai consertar o teto que caiu por causa da quantidade de livros na biblioteca de Ainsworth? 

Essa é uma história verdadeira — o teto sob a biblioteca da casa de Ainsworth caiu mesmo. No meu caso e de muitos escritores com mais de 45 anos, começamos a entender que escrever não funciona se você espera que cure suas misérias espirituais ou questões psicológicas. Não substitui a terapia ou os relacionamentos humanos; não é mais importante do que viajar, cuidar de outras pessoas, ser parte de uma comunidade. Os escritores mais velhos sabem disso e o livro é sobre pessoas descobrindo isso ao longo do tempo. 

Você pensou em simular o estilo de escrita do século 19 ou de Ainsworth?

Seria divertido fazer isso, mas os trechos [de livros] de Ainsworth são dele, não fui eu que escrevi. O meu prazer foi estar na pele da senhora Touchet — deve ser a melhor personagem que já criei. 

A senhora Touchet tem suas aspirações, paixões, frustrações, e está envelhecendo. O quanto se reconhece nela? 

Estou envelhecendo rápido, envelhecia enquanto escrevia o romance. Para mim, escrever é como atuar. Vejo a personagem e imagino que sou ela. Tudo que preciso é fingir que sou eu ali. Fingia que ela era como eu sem todas as liberdades que hoje temos como garantidas. Pensava como seria viver sendo uma pessoa mais frustrada do que eu sou. As mulheres de meia-idade são frustradas: têm filhos, muito trabalho, pais muito velhos, muitas responsabilidades, nem se lembram mais do que é fazer o que gostam ou gostavam e faziam quando tinham vinte anos. Só que, para uma mulher vitoriana, era assim a vida toda. Pense em alguém como Jane Austen. Provavelmente era virgem; escrevia no pouco tempo que tinha quando não estava entretendo gente chata. É um bom exemplo do uso da frustração — é incrível o que você consegue fazer quando está frustrada. A senhora Touchet também é um exemplo. Ela se torna abolicionista, mas não é perfeita — no final, deixa de fazer algo que poderia ter feito. Mas você não precisa ser perfeita para criar mudanças. As pessoas são limitadas e eu quis celebrar a senhora Touchet pelo que foi. 

Você também escreve a partir da frustração? 

Muito da minha melhor escrita surgiu quando eu estava sob mais pressão, quando tinha filhos pequenos, vários trabalhos, essas coisas. Não tenho mais outro emprego nem filhos pequenos — minhas frustrações são mais políticas e tento manter minha clareza em relação à ética, tento dizer a verdade o máximo que posso. 

Em um artigo para o jornal The Guardian, “Lições da dança para escritores”, você fala de inspirações para a escrita vindas de dançarinos desde Fred Astaire até Beyoncé. Quais dançarinos ou estilos inspiraram A fraude e te inspiram hoje? 

A fraude é um tipo bem complicado de dança. Seria uma mistura de Bill Robinson, um velho dançarino negro de sapateado, e Shirley Temple. Não tenho predileção por um coreógrafo ou bailarino específico, mas amo particularmente a dança negra contemporânea e sou encantada pelo hip hop. O fato de as pessoas encontrarem novas formas de se movimentar é extraordinário. Pouco tempo atrás assisti ao MTV Video Music Awards — as pessoas dançavam como se fossem robôs e fossem falhar, foi maravilhoso. Os jovens sempre encontram um novo jeito de se mexer.

Quem escreveu esse texto

Iara Biderman

Jornalista, editora da Quatro Cinco Um, é autora de Tantra e a arte de cortar cebolas (Editora 34).

Matéria publicada na edição impressa #101 em janeiro de 2026. Com o título “A fraude do colonialismo”