Laut,
Delírios feudais
Historiador canadense defende que atual onda antidemocrática tem raízes na fusão entre a ideologia de livre mercado e a crença em hierarquias naturais
04dez2025 • Atualizado em: 30jan2026 | Edição #102Em uma das passagens mais célebres de A riqueza das nações, Adam Smith observa que uma sociedade organizada segundo o princípio do livre comércio tenderá, com o tempo, a instaurar “a ordem e o bom governo”. A razão, segundo Smith, é simples: o funcionamento adequado dos mercados depende da garantia da liberdade e da proteção dos direitos de todas as pessoas. A instituição de um governo constitucional, capaz de responder ao bem comum, constituiria “de longe o efeito mais importante” de uma sociedade de mercado.
Smith sublinha um aspecto decisivo do liberalismo clássico: o antagonismo estrutural em relação ao feudalismo — ordem social em que servos trocam juramentos de lealdade por proteção contra inimigos externos e por acesso a meios de subsistência concentrados nas mãos dos estamentos superiores. Não apenas o liberalismo nasceu em oposição ao feudalismo, como manteve essa marca ao longo de suas principais correntes no século 20.
Entre os neoliberais, como Friedrich Hayek e Milton Friedman, prevaleceu a crença de que só os mercados livres podem garantir a liberdade e a prosperidade, ainda que com custos sociais. Já liberais igualitários, de John Stuart Mill a John Rawls, defendem que o mercado precisa ser regulado e compensado por direitos sociais para não gerar injustiças. No primeiro caso, o apoio ao capitalismo é incondicional; no segundo, depende de condições de justiça e igualdade. Mas ambos compartilham a ideia de que a combinação entre capitalismo e democracia é a melhor forma de organizar a sociedade.
É precisamente esse consenso liberal-democrático que a atual insurgência da extrema direita global teria colocado em xeque. Nas últimas três décadas, o crescimento econômico foi acompanhado não da prometida prosperidade compartilhada, mas do aprofundamento das desigualdades, enquanto a globalização, longe de significar integração equilibrada, produziu uma distribuição assimétrica de riscos e inseguranças. Com esse terreno de frustrações acumuladas, consolidou-se a imagem de que novos movimentos populistas de direita orquestraram uma reação contundente contra os componentes liberais das democracias, em nome de valores nacionalistas, racistas e autoritários.
O neoliberalismo aproxima-se do populismo de direita em seus fundamentos normativos
Contudo, pense novamente: qual movimento populista de extrema direita rejeita de forma categórica as políticas neoliberais ou mobiliza suas bases em defesa da manutenção — para não dizer da expansão — de políticas robustas de bem-estar social? Como observa o historiador canadense Quinn Slobodian em Hayek’s Bastards: Race, Gold, IQ and the Capitalism of the Far Right [Os bastardos de Hayek: raça, ouro, QI e o capitalismo da extrema direita, sem tradução], quando interpretamos a crise democrática apenas como reação populista à globalização e ao fundamentalismo de mercado, deixamos de notar que muitos de seus ideólogos e operadores políticos surgiram, na verdade, de uma mutação interna ao neoliberalismo. “No essencial”, observa Slobodian, “o apelo dos chamados populistas por privatização, desregulamentação e cortes de impostos” segue à risca os manuais neoliberais dos últimos trinta anos.
O erro reside em ignorar o objetivo original do projeto neoliberal. Como mostra em Capitalismo destrutivo: os radicais do mercado e a ameaça de um mundo sem democracia (Objetiva, 2024) e Globalistas: o fim do Império e o nascimento do Neoliberalismo (Enunciado, 2022), títulos que formam sua genealogia do neoliberalismo ao longo do século 20, Slobodian argumenta que intelectuais como Ludwig von Mises e Hayek, bem como instituições transnacionais como a Sociedade Mont Pèlerin, dedicaram-se a restringir, por meios legais e econômicos, o pleno funcionamento da democracia. Esse esforço se deu por diversas frentes — como a criação de instituições supranacionais e a proliferação de zonas econômicas especiais —, mas com o objetivo comum de “encapsular” a economia mundial em um arcabouço jurídico-institucional destinado a blindar a ordem de mercado contra as pressões redistributivas e as demandas democráticas.
Bastardos
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Lido como projeto de reengenharia estatal para salvar um capitalismo permanentemente em crise, o neoliberalismo aproxima-se do populismo de direita em seus fundamentos normativos. A oposição entre os dois se dissolve na combinação de pautas — o repúdio ao igualitarismo e à cidadania expansiva com a glorificação da disciplina de mercado, do mérito, do punitivismo legal e da família tradicional.
Isso não significa, evidentemente, não haver diferenças significativas entre neoliberais e populistas de extrema direita. A mais decisiva delas talvez seja o recurso ao que Slobodian chama de “três endurecimentos”: o das fronteiras, o da moeda e o do apelo à natureza humana. Para compreender a gênese dessa inflexão, Slobodian constrói o perfil intelectual de algumas figuras centrais da direita radical — os “bastardos de Hayek” do título —, entre eles o anarcocapitalista Murray Rothbard, membro fundador do Instituto Mises; Hans-Hermann Hoppe, ex-aluno de Jürgen Habermas convertido em filósofo da “defesa da civilização branca”; e Charles Murray, teórico da diferença de inteligência devido a fatores raciais.
O que une todas essas figuras é a adesão a um diagnóstico paradoxal: o fim do comunismo não representou o triunfo do capitalismo. Ao contrário, argumenta o historiador, a derrota do comunismo autoritário teria implicado a vitória incontestável da democracia com seus males contemporâneos, como o feminismo e a agenda ecológica. Mais inquietante ainda é a constatação de que as elites pós-1960 haviam cedido à tese “anti-humana” do igualitarismo. “A biologia”, defende Rothbard, precisa voltar a funcionar “como uma rocha diante das fantasias igualitárias”.
Slobodian traça a cartografia desse “novo fusionismo” — uma aliança entre livre mercado e hierarquias naturais (alegadamente) validadas pela ciência — sucedendo ao fusionismo original dos anos 60, que uniu conservadorismo de mercado e cristianismo. Essa combinação tornou-se, a partir dos anos 90, o ponto focal de think tanks conservadores nos Estados Unidos e, em seguida, ao redor do mundo, do Instituto Cato ao Instituto Mises Brasil.
Sua tese elementar é que a linha de frente contra o igualitarismo no século 21 precisa ser erguida sobre a “realidade biológica” da desigualdade entre homens e mulheres, brancos e negros e — desde que o mercado seja deixado livre para operar — entre ricos e pobres. Desde então, ideias como a criação de “etnoeconomias”, a luta contra a “grande substituição” dos povos europeus, o reconhecimento de “castas cognitivas” fundamentado em testes de inteligência e o retorno ao padrão-ouro passaram a circular no campo neoliberal não como fantasias aberrantes, mas como propostas plausíveis para a reorganização da economia global no pós-crise econômica de 2008.
Ao acompanhar a virada ideológica do novo fusionismo, o historiador identifica uma mudança na estratégia conservadora. Para Hayek, maiorias sempre representam uma ameaça ao mercado e, portanto, é preciso conquistar a adesão das elites, entendidas como guardiãs da ordem de mercado. O insight fusionista, segundo Rothbard, amadurecido com a participação nas campanhas racistas de Pat Buchanan nos anos 90, foi o de que as elites liberais são irremediavelmente estatistas, mas não o eleitorado branco. Daí a estratégia da “revolta euromasculina”: fomentar uma contracultura ao mesmo tempo antiestatal e antielitista.
Distopias
O autor apresenta uma história importante para a compreensão da crise democrática. Um pouco à maneira dos romances de Roberto Bolaño, Slobodian sugere que, nos rastros deixados por autores obscuros e figuras patéticas, se anunciam as distopias mais sombrias de amanhã. Mas outra leitura do problema é possível. Derrotado cultural e politicamente nos anos 60, o neoliberalismo elitista da Mont Pèlerin passou a incorporar em suas fileiras o libertarianismo norte-americano, um aliado eleitoral cuja política revela traços essencialmente feudais.
Como discutido na filosofia política, a defesa do direito absoluto à propriedade e à liberdade de contrato — princípio central do libertarianismo — é incompatível com o arranjo institucional das democracias liberais.
Diferentemente da igualdade de direitos fundamentais, concebida para impedir que a liberdade de alguns destrua a de todos, o libertarianismo considera justos contratos voluntários de escravidão e a privatização irrestrita de funções estatais — incluindo, no caso de Rothbard, a própria administração da justiça. Para ele, como no feudalismo, o poder político não se ancora em normas públicas universais, das quais todas as pessoas podem participar, mas em uma teia de acordos contratuais privados.
A força da extrema direita contemporânea não parece residir no apelo de fantasias pseudocientíficas de hierarquia racial ou nas utopias high-tech de colônias espaciais. Seu magnetismo provém de algo mais arcaico e mais persistente: o controle privado do poder político comum. Nesse sentido, os bastardos de Hayek não são os herdeiros da liberdade, mas da corveia — o serviço prestado pelo servo como pagamento aos senhores feudais. Cabe aos partidários da democracia explicar por que o horizonte de uma sociedade mais igualitária deixou de encantar maiorias eleitorais.
Editoria especial em parceria com o Laut
O LAUT – Centro de Análise da Liberdade e do Autoritarismo realiza desde 2020, em parceria com a Quatro Cinco Um, uma cobertura especial de livros sobre ameaças à democracia e aos direitos humanos.
Matéria publicada na edição impressa #102 em fevereiro de 2026.
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