Onde Queremos Viver,
Avocação
Uma vida bem vivida, dizem, é aquela que segue um itinerário orientado pela vocação
01dez2025 • Atualizado em: 30nov2025 | Edição #100“O meu objectivo na vida”, escreveu Robert Frost, “é unir/ A minha avocação e a minha vocação/ Como meus dois olhos são um na visão.” (“My object in living is to unite/ My avocation and my vocation/ As my two eyes make one in sight.”) Há ali um erro, uma licença de tradução, mas o que nos diz esse erro?
“Avocação” é um falso amigo. A sua raiz, a mesma de advogar, advogado, advocacia, é a de advocatio, ser-se chamado para, em defesa de, ou em representação de alguém, com origem em ad (para) e vocare (chamar). O termo “avocação” aparentemente serve como uma luva, já que descreve um ofício para o qual se é chamado ou pelo qual se é pago, o que de resto não viola os termos de Frost, na sua leitura habitual, que poderíamos parafrasear assim: “quero fazer o que gosto e ser pago por isso”.
(Claro que isto aponta para uma confusão habitual entre vocações e proclividades, que nos levaria para uma outra conversa.) A não ser que ser-se chamado para o serviço de outrem seja a nossa vocação, a avocação é pensada assim, por algumas pessoas, como um desvio em relação a si mesmo.
Acontece porém que “avocation” tem, em inglês, outro étimo, aliás oposto. Não ad+vocatio, mas ab+vocatio, ser-se chamado para fora de, afastar-se de alguma coisa, neste caso, da vocação, entendida como aquilo para que se é ou não chamado, como na repreensão “não te metas nisto: não és para aqui chamado”, ou seja, “não te diz respeito”. Designa portanto uma distracção: o impulso na direcção de uma actividade que não é aquela que nos diz respeito ou aquela para que nos pagam, ou que é uma perda de tempo.
A corruptela de Frost descreve um sonho caro a pessoas cujas inclinações são artísticas
Mais Lidas
A corruptela de Frost descreve um sonho comum, caro a pessoas cujas inclinações são artísticas e literárias, dando de barato que a sua vocação e as suas inclinações se confundem. O sonho de não se distraírem de si. Sonho este inseparável de uma ideologia. A de que uma vida separada da sua vocação é uma vida desperdiçada na medida em que é um desvio em relação a si mesma (uma certa espécie de pecado), ou antes que uma vida subordinada a ocupações adversas à vocação não é uma vida plena. Intuição do desperdício que não pode ser vivida sem algum sofrimento.
Considera-se plena uma vida se, e apenas se, se encontrar a vocação, e se, e apenas se, se dedica a realizá-la, ou a tentar realizá-la, dentro da sorte das circunstâncias. Considera-se a busca por realizar uma vocação um modo de já viver de acordo com essa vocação, independentemente das consequências dessa busca. O que arrasta a seguinte dificuldade lógica. A de podermos por exemplo dizer de alguém que essa pessoa viveu uma vida plena apesar de não ter chegado a realizar-se. (E é isto tão absurdo assim?)
Uma vida bem vivida, dizem, é uma vida cujos episódios de alguma forma descrevem um itinerário orientado pela, ou para, a vocação. Nenhuma bela ideia não tem o seu lado sinistro. Um grande número de pessoas é pobre de vocação. Ou porque não a têm, ou porque não a encontram, ou porque nunca pensaram nisso, ou por terem uma ideia distorcida de si, ou porque, nascidas privadas de vocação, os versos de Frost não encontram tradução possível. A corruptela não ajuda. A verdadeira tragédia talvez resida não na possibilidade, mas na desigualdade do desperdício.
Matéria publicada na edição impressa #100 em dezembro de 2025. Com o título “Avocação”
Porque você leu Onde Queremos Viver
Exilar o coração
Tenho encontrado muitas pessoas que julgam saber, melhor do que eu, de onde sou
JUNHO, 2026
Chegou a hora de
fazer a sua assinatura
Já é assinante? Acesse sua conta.
Escolha como você quer ler a Quatro Cinco Um.
Há nove anos nutrindo leitores onívoros!
Assine a revista dos livros e ajude a fomentar a cultura do livro no Brasil
Peraí. Esquecemos de perguntar o seu nome.
Crie a sua conta gratuita na Quatro Cinco Um ou faça log-in para continuar a ler este e outros textos.
Ou então assine, ganhe acesso integral ao site e ao Clube de Benefícios 451 e contribua com o jornalismo de livros independente e sem fins lucrativos.
