Onde Queremos Viver,
Vida, hoje
É este um paradoxo atual de Portugal: tirando lucro daqueles que quer expulsar do horizonte
01dez2025 • Atualizado em: 30nov2025 | Edição #100O preço das casas na área metropolitana de Lisboa empurra-nos para as franjas. Os comboios vão cheios de migrantes até o Entroncamento e a caminho de Setúbal, onde a extrema direita floresce. A população racializada e os portugueses sem recursos para a habitação na capital estendem-se até Ribatejo, pressionando os preços em Samora Correia, Salvaterra e Coruche.
O efeito na transformação demográfica e social anuncia tensões novas em territórios antes habitados maioritariamente por nacionais. É fervilhante o cenário de construção de novos empreendimentos por Lisboa, reabilitando edifícios antigos e edificando novos, nos quais o T0 (estúdio de cerca de 38 metros quadrados) ronda os 350 mil euros.
Segundo os agentes do sector, a medida lançada pelo governo para apoiar os jovens na compra da primeira casa reduz desigualdades geracionais, mas contribui para o aumento da procura e, através dela, do preço das restantes habitações. Apoiando os jovens até 35 anos, a medida deixa de fora as pessoas acima dessa idade que ainda não têm casa própria e que, apesar dos salários acima de média, não conseguem comprá-la. É a geração que começou a trabalhar nos anos da Troika e passou ao lado da sua chance.
À beira de estradas principais na península de Setúbal, emergem lotes vedados onde vivem, em contentores e tendas, trabalhadores migrantes e também portugueses. É frequente no concelho de Palmela, no mesmo território desbravado por migrantes oriundos de outros pontos do país.
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Movimentos civis expandem-se como agregadores de contestações antes minoritárias, representando hoje as lutas pelo direito à habitação, o antirracismo, a defesa dos trabalhadores e dos migrantes, em contraponto com o crescimento da extrema direita nas redes sociais e nas urnas.
Movimentos civis surgem em contraponto ao crescimento da extrema direita
Uma semana em Odemira, à beira de eleições autárquicas, dá conta da transformação demográfica profunda do território. No começo do ano escolar, crianças de origem asiática, hoje falantes do português, enchem as escolas, em lugares onde antes não havia crianças. Conheço Bino, migrante nepalesa, mãe de três filhos que ainda não se juntaram a ela em Portugal. Teme que a nova lei do reagrupamento familiar a impeça de trazer os filhos do Nepal para viverem consigo no Alentejo.
Ali, os portugueses enriquecem a arrendar quartos húmidos aos mesmos migrantes que querem longe da vista. Vivendo em casas sobrelotadas, estes juntam-se em baldios e nas falésias, ao fim do dia de trabalho, para momentos de lazer, longe do centro das vilas, onde são hoje a maioria. Os proprietários das casas usam-nos como modo de financiar as obras de que estas precisam para se qualificarem como habitações dignas. Trabalhadores agrícolas abrem pequenos negócios e formam uma comunidade; alguns, integrando-se, outros, de passagem.
É este um paradoxo que pretendemos reprimir, tirando lucro daqueles que queremos expulsar da cidade, do horizonte público. O denominador comum desse paradoxo é a pele escura e a situação diaspórica. A pressão do sector imobiliário pode não vir a encontrar um fim por via de um colapso financeiro, mas é inevitável que colapse por via social e política. O denominador comum desse colapso seremos todos nós.
Matéria publicada na edição impressa #100 em dezembro de 2025.
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