A tradutora e escritora potiguar Bruna Dantas Lobato (Ashley Pieper/Divulgação)

Literatura brasileira, Os Melhores Livros de 2025,

Universo particular

Bruna Dantas Lobato explora caminho pouco trilhado na rica tradição de romances universitários ao narrar, em tom intimista, o exílio de uma estudante brasileira

01dez2025 • Atualizado em: 30nov2025 | Edição #100

No Brasil, romances ambientados em universidades são uma raridade. Em outras culturas literárias, como nos Estados Unidos e na Inglaterra, eles são tão frequentes que até receberam uma etiqueta: campus novel. Horas azuis, o belo romance de estreia de Bruna Dantas Lobato, acena a esse tipo de narrativa já na abertura:

Cheguei ao campus de madrugada e subi as escadas arrastando minhas malas. Tinha viajado por quase trinta horas para chegar do Brasil àquela cidade no meio do nada em Vermont, mas ainda assim estava agitada demais para conseguir dormir.

O campus novel (ou romance universitário) não é exatamente um gênero. Ele tem mais a ver com um cenário: as ações se passam em bibliotecas, dormitórios e salas de aula de universidades tão bem estruturadas que são como ilhas em relação ao resto da sociedade. A sua forma varia: às vezes, flerta com a comédia (Pnin, de Vladimir Nabokov) ou se arrisca no terreno do trágico (A marca humana, de Philip Roth). Outras vezes, se assemelha a um romance de formação (Stoner, de John Williams) ou a um thriller (A história secreta, de Donna Tartt).

O que ficções tão diferentes têm em comum? Elas são protagonizadas por figurões acadêmicos, em geral homens: professores, escritores ou estudantes que, quando não estão brilhando nas suas atividades, passam os dias remoendo fracassos e destilando inveja contra o mundo. Num universo tão competitivo, a vida confinada gera ocasiões perfeitas para as reviravoltas que põem a trama em movimento.

Nenhum desses traços se faz presente em Horas azuis. Aqui, estamos diante de um romance universitário sui generis: intimista e delicado, em que pouco acontece afora as conversas por Skype entre mãe e filha, as personagens principais. Lobato aposta suas fichas na construção de uma atmosfera: a solidão no campus. O grande acerto formal está na exploração de um caminho pouco trilhado na rica tradição do romance universitário, o que passa por encontrar um novo ângulo para narrar uma velha história: a do afastamento, seguido do reencontro, de uma filha com sua mãe. Se estivéssemos falando de cinema, isso teria a ver com posicionar a câmera perto do chão, como num filme de Yasujiro Ozu, para observar, a partir de um ponto de vista incomum, uma paisagem moral já visitada outras vezes.

Fiel ao ‘mostre, não conte’, Lobato cria com habilidade cenas que fazem mergulhar no desconsolo da narradora

A protagonista é uma jovem brasileira de origem pobre, que tenta a sorte na “América” com poucas mudas de roupas e seus diários na mala — e anos depois se torna a narradora do romance que lemos. Ela é uma “estrangeira não residente”, termo atribuído pelas autoridades dos Estados Unidos a imigrantes com visto provisório de trabalho ou estudo. Nonresident alien, a expressão em inglês, é mais insidiosa do que a tradução sugere: alien é um estrangeiro, mas também o estranho, o pária, alguém que, não raro, é visto (e se vê) como extraterrestre no país de adoção.

Observadora pouco participativa da vida no campus, a narradora não dispõe das ferramentas para decodificar o que vê. Em parte por uma questão de temperamento (timidez, inadaptação), se sente invisível. E essa sensação é reforçada, não suavizada, pela cordialidade extrema de que os estadunidenses são sabidamente capazes. Eles puxam conversa com ela sobre o tempo, elogiam seu bom inglês, sorriem com dentes muito brancos. Mas os rituais protocolares de convívio só reforçam sua penúria afetiva. As poucas amigas também são imigrantes, mais preocupadas com a renovação dos vistos do que com as conquistas que dificilmente serão encontradas por elas.

Não sabemos como a narradora se chama. Esse é um expediente comum em narrativas autobiográficas, mas o que está em jogo é algo mais denso. Ela não se nomeia porque se sente exilada na sua vida, moída por uma engrenagem que só vivendo ela entende como funciona. Ela é ninguém e é todo mundo, e seus dilemas são os nossos: amar e ser amada, se tornar alguém, não sucumbir à tristeza. Fiel à técnica do “mostre, não conte”, Lobato é capaz de criar com habilidade cenas que nos fazem mergulhar no desconsolo da personagem. São incômodos que não consegue expressar em palavras para sua única interlocutora, a mãe, que morre de saudades da sua menina. As conversas giram ao redor de trivialidades. Já a angústia vaza como hesitação nos longos silêncios.

Estranhamento

A passagem do tempo é construída de modo sutil em Horas azuis. É nas mudanças no tom de voz da mãe e da filha, no estranhamento do que era familiar, que ficamos sabendo que os anos voam e o retorno à vida anterior é cada vez mais improvável. Numa das cenas mais sugestivas, a mãe pergunta o que a filha tem feito de bom. Só o que vem à sua mente são as noites na biblioteca, o trabalho nos correios, a correria entre uma aula e outra. O frio. Por que um dia tem que ser palpitante? “Encontrei uma formiga no parapeito da janela, rápida e viva, e a segurei entre o polegar e o indicador”, pensa em dizer, como alguém que se pergunta o que acontece quando nada está acontecendo.

Um rapaz me chamou a atenção certa noite, na luz baixa da biblioteca, já passada a hora de dormir, e eu sorri demais e falei muito rápido, mas então ele disse, Adoro o seu sotaque, adoro como você pronuncia essa palavra, e nunca mais falei com ele.

Nada que ela queira confessar à mãe ou anotar no diário. Melhor guardar as mágoas bem fundo e fazer o dever de casa.

Bruna Dantas Lobato saiu jovem de Natal para morar nos Estados Unidos. Passou por dificuldades de adaptação à universidade americana, deixou a mãe no Brasil e se fixou no país onde construiria uma sólida carreira como tradutora e professora. Em 2023, foi premiada com o National Book Award pela tradução de A palavra que resta, de Stênio Gardel, além de ter publicado em revistas prestigiosas como The New Yorker. Ela poderia facilmente ter cedido à tentação de trazer essas conquistas para o romance, fazendo de Horas azuis uma pré-história do que estava por vir. Mas não é o que acontece. Não há projeções de futuro ou sentido de fim: o destino não bateu nem baterá à porta da narradora. Ela está sozinha no mundo. O único aprendizado que ela consegue absorver da jornada é a certeza do desamparo.

Quem escreveu esse texto

Felipe Charbel

Professor da UFRJ, é autor de Saia da frente do meu sol (Autêntica).

Matéria publicada na edição impressa #100 em dezembro de 2025. Com o título “Universo particular”

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