Literatura brasileira,

Assassinato na Baía de Guanabara

Escritor gaúcho faz releitura de Agatha Christie com pitadas de romance histórico e aceno à política nacional

19maio2023 - 15h23 | Edição #70

No comecinho dos anos 30, viagens de zepelim eram uma febre mundial. É no interior de um deles, pilotado pelo lendário Hugo Eckener (comandante da primeira volta ao mundo num artefato voador, em 1929), que se passa O crime do bom nazista. Estamos em outubro de 1933, e um dirigível alemão se encontra no Recife para uma rápida escala antes de seguir para o Rio de Janeiro. Um dos passageiros é o sinistro Bruno Brückner, policial criminal com uma cicatriz cortando o rosto e um pingente de suástica preso no terno. Brückner bebe um uísque enquanto finge se entreter com uma revista, mas na realidade está de olho num certo Otto Klein. O destino deles vai se cruzar — já está se cruzando — e um dos dois não verá o sol nascer enquanto sobrevoa a Baía de Guanabara.

O romance tem jeitão de narrativa policial das antigas, a começar pela ótima capa, com estilização à la Pulp Fiction de um homem deitado numa poça de sangue. As convenções habituais do gênero estão todas ali: um cadáver, um investigador e um punhado de suspeitos com boas razões para se livrar de quem está fadado a morrer. Nem é preciso ser frequentador assíduo de narrativas policiais para perceber que o autor faz uma releitura engenhosa de um dos clássicos do gênero, Assassinato no Expresso Oriente (1934), de Agatha Christie. Assim como no romance da escritora britânica, o crime imaginado pelo autor gaúcho acontece num espaço de circulação restrita, durante uma viagem, o que faz com que as suspeitas recaiam sobre os passageiros e um dos tripulantes. Especialmente os que dividiram a mesa com Brückner e Klein na noite do crime: o médico racista, a baronesa de nariz empinado e o jovem inglês que, mesmo sem ser um nazista de carteirinha, não aparenta incômodo com a conversa reacionária dos seus comensais.

O tema da perseguição aos homossexuais na Alemanha nazista vai ocupando lugar de destaque no relato

Há um aspecto, porém, em que Samir Machado de Machado vai na contramão das narrativas policiais clássicas. No lugar de um investigador brilhante, cheio de manias, às vezes charmoso e às vezes turrão, temos o chocho Brückner, um policial isento de predicados intelectuais e ainda por cima nazista convicto (quem pode simpatizar com ele?). Para piorar, Brückner é um detetive involuntário, viajante comum que recebeu do comandante a incumbência de apurar os fatos discretamente, para que a imagem da empresa não saia arranhada. Abrir mão do detetive carismático é uma jogada de grande ousadia, mas que serve perfeitamente à trama: a reviravolta final mostra que era necessário que ele se apresentasse assim.

O mistério tem menos a ver com o “quem matou e por quê” do que com o mal-estar que talvez acompanhe boa parte dos leitores desde o título. O que seria, afinal, um “bom nazista”? De cara, imaginei que Brückner representasse essa figura, e que pudesse ser tachado de bom por ser uma espécie de nazista exemplar, alguém que não consegue, e nem deseja, questionar uma ordem dada (um equivalente a Eichmann dando seus primeiros passos na hierarquia do partido). Ou, então, poderia ser bom nos termos de uma ginástica moral que isentaria de responsabilidade quem supostamente preservou a cara limpa de respingos mesmo que estivesse afundado na lama até o pescoço (como no “mito do bom nazista” erguido em torno da figura de Speer). Mas não é nada disso.

Romance histórico

Ainda que tenha a estrutura de uma narrativa policial ao modo clássico, o livro também pode ser lido como romance histórico. Desses em que personagens de ficção se mesclam a pessoas que de fato existiram, e em que o passado é concebido como a antessala do presente, espelho que nos pega de surpresa num corredor e revela algo inquietante a respeito do nosso tempo: quase cem anos depois, a extrema direita segue viva, com as garras afiadíssimas. Nas palavras de György Lukács, autor de um celebrado estudo sobre o romance histórico, o traço mais notável desse gênero narrativo que surgiu no começo do século 19 é sua aptidão para “evidenciar, por meios ficcionais, a existência, o ser-precisamente-assim das circunstâncias e das personagens históricas”. É o que acontece no livro de Samir Machado de Machado. Cada cena está embebida na História, e isso — a historicidade da trama — condiciona o modo como as personagens agem, se expressam, dissimulam. Brückner não está investigando nada, no fim das contas. Os únicos detetives a bordo do zepelim são os leitores, que identificam, nas falas das personagens (na maneira como mobilizam o amplo repertório de preconceitos que o novo regime põe em circulação), as pistas que permitem solucionar o mistério.

O eugenista Vöegler, por exemplo, se orgulha de ser responsável pelo fechamento do Instituto para o Estudo da Sexualidade, fundado pelo médico judeu (e personagem histórico) Magnus Hirschfeld. Já a baronesa quer acobertar a foto de um sobrinho, feita por um fotógrafo que trabalhava para algumas publicações alemãs dos anos 20 voltadas ao público gay e encontradas na bagagem do morto. Aos poucos, o tema da perseguição aos homossexuais na Alemanha nazista vai ocupando lugar de destaque no relato — e se mostra a chave que deve abrir, ao mesmo tempo, os cadeados da narrativa policial e do romance histórico que coexistem. É outra escolha ousada do autor. O risco, agora, é o de resvalar no didatismo, transformando o livro num romance de tema, uma trama “sobre” questões politicamente atuais. Mas Machado de Machado é extremamente habilidoso na maneira como insere situações reais no romance — no modo como faz a imaginação histórica alimentar o jogo ficcional.

Isso só é possível por causa de Mr. Hay, o jovem inglês que ambiciona ser crítico de arte. Ele escrevia para uma das revistas encontradas na bagagem do morto, o que o torna suspeito. Diante de Brückner e do comandante, para se livrar, ele sai do armário e conta como levava “uma vida de excessiva liberalidade nos cabarés da República de Weimar, alimentando pretensões de viver como escritor, poeta, crítico literário ou algum outro desses ofícios de prestígio incerto e remuneração escassa”. Hay fugiu da Inglaterra para ter um modo de existir que era impensável no país que encarcerou Oscar Wilde: “Fui para a Alemanha para fugir de gente como vocês na minha ilha”. O que ele não podia saber naquele momento é que não havia para onde fugir, pois se sentir em segurança, em qualquer tempo e lugar, é só mesmo para quem foi capaz de se abrigar das investidas da História — e isso ninguém jamais conseguiu.

Quem escreveu esse texto

Felipe Charbel

Professor da UFRJ, é autor de Janelas irreais: um diário de releituras (Relicário Edições).

Matéria publicada na edição impressa #70 em maio de 2023.