Crítica Literária, Os Melhores Livros de 2025,
Visões de alumbramento
Com ensaios impregnados de lirismo, Marília Garcia convoca músicos, cineastas e artistas para pensar sobre o que faz a poesia
01dez2025 • Atualizado em: 30nov2025 | Edição #100Nesta coletânea de ensaios, composta a partir do convite de Joca Reiners Terron e Diogo Medeiros para a coleção Errar Melhor, a poeta, tradutora e artista Marília Garcia oferece mais uma vez o olhar original que caracteriza seus poemas, agora em textos que, embora com teor analítico, são impregnados de lirismo e ritmo.
Dividido em 39 capítulos curtos —muitos deles reescrita de ensaios produzidos ao longo de dez anos para revistas, jornais e sites, além de textos inéditos —, a coletânea discorre sobre temas relacionados à poesia e à produção de textos. Permeada por perguntas que caracterizam a poesia da autora, a leitura traz um sopro de ar fresco, como se estivéssemos diante do olhar de uma criança para o mundo das letras: o que é um poema? Como usar palavras tão batidas como “coração”, “estrelas” e “flores”? É preciso fazer uma faxina nas metáforas gastas? Como incorporar palavras inventadas?
O capítulo inicial, inédito, trata justamente de começos. Como dar início a um poema? E se quisermos começar pelo meio? Como levar o leitor a imaginar um passado sem escrevê-lo? Dentre os muitos exemplos, inspirados por autores como Haroldo de Campos, Drummond e Anna Akhmátova, Garcia nos traz uma anedota de Paul McCartney acerca de sua engenhosa técnica de composição: ao finalizar a letra de uma música, passa a segunda parte para o início, fazendo com que a canção comece com o ritmo e o movimento de uma história em andamento: “Don’t let me down”.
A autora conta que a poesia chegou a ela como som. Quando era criança, sua mãe ligou por engano para um número e foi atendida por uma secretária eletrônica que recitava um poema de Drummond em gravação do próprio poeta. As ligações, partilhadas por mãe e filha, tornaram-se mensais, quando descobriram que a cada mês o recado era trocado e podia-se ouvir um novo poema do mesmo autor, até que o disco inteiro tivesse sido tocado. Mas foi mais tarde, nos recitais que se seguiram à publicação de seu primeiro livro, 20 poemas para o seu walkman (Cosac Naify, 2007), sentindo-se insatisfeita com o modo como soavam, que compreendeu melhor a relação entre poesia e som. A partir daí, desde o processo de escrita de Câmera lenta (Companhia das Letras, 2017), passou a testar o som dos poemas antes de publicá-los, modificando-os após leituras públicas.
Choração
Devo dizer que a autora também chegou a mim pelo som, em um evento da revista Serrote, em 2019, no IMS Paulista. Não a conhecia, de modo que não prestei muita atenção naquela moça pequena de cabelos enrolados sentada ao meu lado na primeira fila. Quando foi chamada ao palco e leu uma das primeiras versões de Expedição nebulosa (Companhia das Letras, 2023), experimentei fisicamente o sentido da palavra “choração”, inventada por sua filha, Rosa, ao saber da morte da avó: o coração batendo forte e a vontade de chorar.
Nunca tinha escutado alguém falar de luto, perda e saudade de modo tão contundente e, ao mesmo tempo, delicado. Quando ela voltou à plateia, surpreendi-a (e a mim) perguntando se podia abraçá-la. Tornei-me leitora e ouvinte apaixonada e, após a leitura deste Pensar com as mãos, constato que a sua expressão nos ensaios não causa menos impacto do que na poesia.
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Não estou sugerindo que a coletânea gire em torno de sua própria obra, pois a lista de autores elencados para a discussão de cada tema é de uma extensão impressionante, incluindo músicos, cineastas e artistas plásticos, que se misturam no estilo poroso de seus poemas. Entretanto, como disse Bruna Beber ao entrevistar Garcia para o podcast 451 MHz, a presença da autora é nítida em cada um dos textos.
Beber observa ainda que os ensaios deixam “espaços para respirar”. Entendo que se refere ao fato de que os textos intercalam questões estilísticas com experiências pessoais, além de imagens e exemplos de outros autores, que permitem uma compreensão clara das questões analisadas. Se o pensamento teórico for atravessado pelo ritmo e pela lírica da poesia, deixa de ser teoria?
É como se estivéssemos diante do olhar de uma criança para o mundo das letras: o que é um poema?
O título é inspirado no poema História(s) do cinema (Círculo de Poemas, 2022), de Jean-Luc Godard, no qual cita Penser avec les mains, do teórico suíço Denis de Rougemont, que diz: “a verdadeira condição humana é a de pensar com as mãos”. Garcia dá outra vez um exemplo concreto de sua experiência. Foi através do movimento de suas mãos que descobriu a obra da poeta portuguesa Adília Lopes, ao ser solicitada a digitar os poemas desta autora para a composição de uma antologia a ser publicada pela primeira vez no Brasil. Um deles expressa claramente o tema do livro: “Escrever um poema/ é como apanhar um peixe/ com as mãos”.
Pensar com as mãos me leva a um terreno com o qual tenho mais intimidade, as ciências sociais, cujos autores há muito falam do aprendizado pelo corpo. Um dos mais conhecidos, Pierre Bourdieu, usou o conceito de habitus de Marcel Mauss para desenvolver suas ideias sobre o fato de os princípios culturais e o pensamento serem objetivados por meio das ações cotidianas, ou seja, do corpo.
Sabemos que muitos povos ameríndios dizem pensar literalmente com o corpo e, alguns deles, particularmente com as mãos. É o caso dos Huni Kuin, povo do Acre que entende que cada pessoa tem diversas almas, situadas em partes diferentes do corpo. Uma delas é a alma das mãos, responsável pelas capacidades manuais, desde a confecção de cestos e a destreza com o arco até a escrita.
“É bom morar no azul”, o belíssimo capítulo que encerra a coletânea, é composto de microensaios sobre as representações textuais e visuais da lua, da Terra vista de lá e dos passos dos primeiros astronautas, que de tão desajeitados fazem a autora pensar nos primeiros passos oscilantes de uma criança. Para sobrevivermos ao caos que se instaura no nosso planeta azul, é preciso continuar a sonhar e imaginar, diz, entremeando as suas palavras com as de seu amigo poeta e artista Victor Heringer:
Neste momento em que estamos indo para a cucuia […] só nos resta vestir esses óculos do alumbramento bandeiriano para poder olhar uma chuvarada, mas enxergar a nostálgica São Paulo da garoa. Ou olhar uma torre de transmissão e enxergar estrelas.
Matéria publicada na edição impressa #100 em dezembro de 2025. Com o título “Visões de alumbramento”
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