Bagagem Literária,

Estética da resistência

Tinta-da-China chega aos vinte anos sem abrir mão da identidade ou fazer concessão às modas

19nov2025 • Atualizado em: 20nov2025

Fazia pouco mais de cinco anos desde que Bárbara Bulhosa tinha inaugurado a editora portuguesa Tinta-da-China quando entrou no prelo o livro do ativista e jornalista Rafael Marques de Morais. Diamantes de sangue era uma denúncia de abusos contra direitos humanos, como espancamentos e assassinatos praticados por empresas de exploração de diamantes no norte de Angola. Morais acusava os donos de serem os autores morais dos crimes.

“Acontece que os donos das empresas eram generais em Angola, muito próximos do poder político da época. Acabei processada junto com o autor por nove generais angolanos aqui em Portugal”, lembra Bulhosa. O episódio, que poderia frear outros editores, serviu como combustível para ela, que reafirmou publicamente sua confiança nos relatos e disponibilizou o livro gratuitamente na internet. Mais de 100 mil downloads foram realizados e o Ministério Público português arquivou o processo.

A personalidade destemida de Bulhosa está impregnada na história da Tinta-da-China, criada em 2005 com a ideia de publicar autores da sua geração, na época com trinta e poucos anos, além de livros de história “mais arejados”. Ela convidou a amiga de faculdade Inês Hugon para se associar ao projeto e assim nasceu a editora.

Pequeno terremoto

Em entrevista à Quatro Cinco Um, Bulhosa diz nunca ter imaginado “que a editora sobreviveria até aqui”, em 2025, quando celebra duas décadas de existência. No entanto, comenta ter definido que não faria concessões “às modas” nem venderia a casa editorial. “Ao longo destes vinte anos, vimos muitas editoras serem integradas em grandes grupos editoriais, normalmente destruídas na sua identidade”, afirma. 

“A Tinta-da-China vive exclusivamente das vendas dos nossos livros. Nunca tivemos sócios capitalistas e não tínhamos fortuna pessoal. O risco de fazer livros contra uma corrente que estava em voga [em Portugal] na época, a da ‘literatura light’, era alto. O investimento no objeto-livro, que sempre fizemos, é muito caro”, ela explica. 

O primeiro título publicado foi O pequeno livro do Grande Terremoto, do historiador Rui Tavares. Chegou às livrarias em 1º de novembro de 2005, nos 250 anos do sismo que destruiu boa parte da cidade de Lisboa e que desencadeou um maremoto e múltiplos incêndios. Acredita-se que os desastres tenham matado cerca de 10 mil pessoas. O livro foi eleito Melhor Ensaio do ano pelo jornal português Público.

“Ali já estava a ousadia de publicar uma investigação histórica fora das normas acadêmicas, um texto de uma qualidade irrepreensível, o cuidado com a paginação, o design de capa singular e os materiais de excelência: capa dura, guardas pintadas, fitilho, tudo isto num ensaio de história, que ainda hoje é um dos livros que mais vende”, lembra Bulhosa. 

Na sequência, vieram livros de crônicas de autores portugueses; Cândido, ou o otimismo, de Voltaire; Pequena história do mundo, de E. H. Gombrich; e Primeiras páginas: o século XX nos jornais portugueses, de Luís Trindade. “Sabíamos o que queríamos fazer: lançar livros de grande qualidade na prosa, grafismo diferenciado e que nos pareciam pertinentes para a comunidade leitora em Portugal. O nosso lema informal era: ‘A qualidade pode vender’.”

Livro-objeto

Desde o início, a editora trabalha com a mesma capista: Vera Tavares. A estética da Tinta-da-China, afirma Bulhosa, é dirigida a quem gosta do livro-objeto. “Por isso não publicamos ebooks, pois o cuidado que dedicamos ao livro se perderia”, explica. “Investimos muito em materiais diferenciadores, utilizamos muito pouca fotografia nas capas, cuidamos das fontes utilizadas, muitas vezes desenhadas para cada livro. Cuidamos com a mesma atenção do texto, da paginação, da capa e da comunicação.”

Bulhosa segue como a única encarregada de escolher os livros que serão publicados, à exceção das coleções, que têm curadoria de autores especialistas em cada área. Carlos Vaz Marques foi convidado a dirigir a coleção de viagens, Pedro Mexia fez a de poesia, Ricardo Araújo Pereira ficou com a literatura de humor e Jerónimo Pizarro tocou a coleção sobre Pessoa. 

Em 2012, quando Portugal enfrentava um momento econômico delicado, a editora viu no idioma uma luz: para não demitir a equipe, poderia tentar criar um braço do outro lado do Atlântico. Surgia assim a Tinta-da-China Brasil. “A língua portuguesa sempre foi uma das minhas obsessões e sou muito crítica da forma como os dois países a trataram, nomeadamente com adaptações de livros de um país para o outro”, afirma.  

“No meu estreito contato com o Brasil, fui percebendo que faltavam autores portugueses essenciais. Decidi, então, arriscar e publicar contemporâneos e, em simultâneo, publiquei alguns nomes incontornáveis, como Antero de Quental, Eduardo Lourenço ou Sophia de Mello Breyner Andresen, que não estavam publicados no país. Não fiz qualquer adaptação no português dos textos, nem nos textos de autores brasileiros que publiquei e ainda publico em Portugal.”

Depois de atravessar anos de pandemia e de crise no mercado editorial brasileiro, Bulhosa decidiu concentrar as atividades em Portugal. Em vez de encerrar a empresa, a editora e seus sócios no Brasil optaram por transferir, de forma não onerosa, a propriedade para a Associação Quatro Cinco Um, que reativou a Tinta-da-China Brasil com reimpressões, venda dos livros já produzidos e lançamento de novos títulos.

Sem luxos

Bulhosa avalia que o mercado português de editoras independentes segue tão desafiador quanto na época da fundação e que são poucas as que alcançam visibilidade. Para sobreviver com liberdade (um “ato de resistência”, como define), é preciso ter uma gestão consciente, sem brechas para “luxos”. Quando o faturamento é melhor do que o esperado, o dinheiro é guardado. 

“Há momentos em que temos plena consciência de que a nossa continuidade é frágil. Sempre coexistimos com os grandes grupos editoriais, muito musculosos financeiramente. Impusemos a nossa estética e ideias ao longo destes anos, sabendo desde o início que teríamos de trabalhar melhor, ser mais criativos e arriscar mais.” 

Um futuro com guerras e ascensão global da extrema direita aflige a editora. “Só posso garantir que seremos sempre um espaço de resistência para proteger os valores com os quais crescemos”, diz. Mas, se o porvir for generoso, há um sonho que ela gostaria de realizar: abrir uma livraria Tinta-da-China. “Foi numa livraria que comecei a trabalhar e continuo com a ideia de um dia conseguir ter uma.”

Quem escreveu esse texto

Marcella Franco

É jornalista e escritora.