Literatura brasileira,
Perseguir a vida
Em seu primeiro romance, Bianca Santana continua a se despir da vaidade para relatar a busca pela própria identidade
01nov2025 • Atualizado em: 31out2025 | Edição #99É o material da própria vida e da vida da avó que a escritora paulistana Bianca Santana transforma em ficção em seu primeiro romance, Apolinária, recém-lançado pela Fósforo. Desde sua estreia literária com o relato Quando me descobri negra, em 2015, a autora se dedica a uma investigação sobre si e sobre os acontecimentos que ajudaram a moldar sua identidade. A questão é complexa o suficiente para manter pessoas — pelo menos as que buscam saúde mental — em um consultório psicanalítico por décadas. Santana, no entanto, não parece temer o desafio.
Felizmente para os leitores, a escritora tem se despido da vaidade para relatar nos textos a busca pela própria identidade. Na nova incursão, agora pelo romance, ela mantém o diálogo com a escrita da própria vida, sem se perder em discussões improdutivas sobre as barreiras do real e do ficcional. Como havia mostrado na biografia Continuo preta: a vida de Sueli Carneiro (Companhia das Letras, 2021), Santana, jornalista de formação, sabe bem como falar dos outros e incorporar a realidade social na engrenagem de um bom texto.
Em Apolinária, ela joga com dois registros distintos: a presunção da verdade factual e a literariedade inerente à escrita em primeira pessoa. A avó Apolinária e a persona Bianca entrelaçam suas vozes ao longo dos capítulos. A linguagem, mais que o contexto, entrega quem narra em cada parte. Isso porque as vidas das personagens negras de Santana evidenciam uma ironia: quanto mais se separam por conta da ascensão social e do branqueamento, mais elementos da hereditariedade negra — o problema social que ser negro representa no Brasil — reaparecem.
“Dois meses era o meu tempo de vida quando meu pai saiu de casa. Os exatos dois meses que tinha minha mãe quando o pai dela saiu de casa”, nos conta Bianca num trecho, exemplificando o elo que insiste em unir as personagens. Coincidência trágica ou destino?
O vínculo com a ancestralidade aparece já no título, que pode sugerir que Apolinária, a vó Polu, é a figura mais forte. Mas a escolha parece fazer mais jus à sua importância como vértice de origem da família: vó Polu é a chave que Santana usa para destravar sua obsessão.
A metalinguagem do livro, encarnada nos trechos em que Bianca fala da pesquisa que se materializa na escrita, surge viva nas personagens e nos encontros relatados, mesmo que durem pouco na narrativa. Melhor assim, pois estimulam a investigação e não fazem parecer que a autora quer obter o título de antropóloga ou de historiadora escrevendo um romance.
Mergulho
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Na primeira viagem em busca do rio São Francisco de vó Polu, Bianca mergulha no ofício de jornalista.
Exatamente dois anos depois da morte de vó Polu eu chegava ao lugar onde ela nasceu, ao lado de uma amiga de sobrenome italiano e uma mochila nas costas. Além das poucas roupas, máquina fotográfica e caderno de anotações, levava a carta que minha avó recebeu de uma vizinha em 1951, e uma foto tirada em Aparecida do Norte em 1953.
Anos depois, volta ao cenário acompanhada da família que gerou — só então parece perceber que a busca por identidade que empreende não virá da decodificação da avó ou daqueles afetos que não pode mais ter, mas de tudo que ela enuncia sobre si mesma.
Escrever sobre si é uma declaração de independência e uma tomada de posição
Vó Polu é uma heroína tipicamente brasileira, a quem a vida oferece poucas saídas, que ela transforma em grandes oportunidades. Bianca carrega o peso de receber condições muito melhores que as de suas mais velhas; sua vida seria mais fácil, portanto. A confiança que acumula, porém, não barra o desmoronamento das ilusões: por abraçar o que se acredita fraqueza em vez de força, a personagem se torna mais cativante.
As narradoras convivem e compartilham acontecimentos, mas a percepção sobre o acontecido varia muito no olhar de cada uma. A consciência dessa diferença, entretanto, não impede que se perceba, com perplexidade, aquilo que é umbilicalmente herdado. Santana costura uma linha que une a ancestral à mais nova, sem que uma silencie, vilanize ou santifique a outra. Bianca olha para a realidade com espanto, porque exerce o direito de questionar a forma como é impelida a se brutalizar — direito que a avó não teve. E, ciente de que o texto a revela, pela memória, resiste dizer aquilo que não pode aceitar. “Meu pai tinha levado um tiro na cabeça. Suicídio, ele mesmo atirara.”
Cicatrizes
Apolinária ilumina o fato de que há pegadas da negritude que o Brasil se esforça para apagar, como os dados sobre a origem das famílias de ascendência africana escondidos em cartórios e registros inacessíveis. Por outro lado, há marcas da diáspora nos corpos negros brasileiros, cicatrizes bem visíveis, resultado do esforço redobrado de trabalho e sobrevivência. No romance, são, esteticamente, mapas para uma liberdade definitiva.
A escrita de si vem ocupando a pauta cultural em uma série de debates apaixonados sobre literatura contemporânea. Há quem culpe essa vertente por uma suposta perda de qualidade literária. Outros preferem comemorar a coragem dos que expõem, por meio desse tipo de narrativa, os problemas do mundo, como as muitas violências contra os muitos oprimidos. Se a literatura dos outros fala de fato do que aconteceu aos outros ou se tudo não passa de mitologia, me parece interessar menos. “Enfim, cada um o que quer aprova, o senhor sabe: pão ou pães, é questão de opiniães”, nos ensinou Riobaldo, de Guimarães Rosa.
Em todos esses discursos, porém, é fácil perceber que tanto a ojeriza quanto a celebração da escrita de si estão ligadas ao prestígio social de quem a pratica. Afinal, escrever sobre si é uma declaração de independência e uma tomada de posição sobre o mundo e sobre as outras pessoas, o que pode transformar os protagonistas de todas as histórias de antes em coadjuvantes das histórias de hoje.
Apolinária atesta que Bianca Santana é uma escritora obcecada pelo protagonismo das mulheres negras, sua condição social e suas vidas entrelaçadas. Ao transformar esse material humano em literatura, ela chama, merecidamente, atenção.
Matéria publicada na edição impressa #99 em novembro de 2025. Com o título “Perseguir a vida”
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