Literatura,
Voz insubmissa
Premiada na França, Nathacha Appanah chega ao Brasil com Trópico da violência e fala sobre sua prosa de múltiplos narradores
01nov2025 • Atualizado em: 31out2025 | Edição #99Quando você estiver lendo este texto, é possível que Nathacha Appanah tenha sido anunciada ganhadora do Goncourt. Mesmo se a autora não for laureada com o mais prestigioso prêmio literário da França, será difícil dizer que 2025 não foi o seu ano. Na seleção dos demais prêmios reputados do país — o Médicis, o Renaudot e o Femina —, ela encabeça as listas de escritores aclamados pela crítica, ao lado de Emmanuel Carrère e Laurent Mauvignier.
À rádio França Internacional, a crítica Elisabeth Philippe resumiu: “Há livros aos quilômetros para se ler numa temporada de lançamentos, e às vezes você pega um em particular e para tudo”. A sensação é La Nuit au Coeur, lançamento (ainda sem tradução brasileira) que traz o relato da violência de homens contra suas companheiras. Das três histórias, duas terminam em assassinato. O livro é narrado pela única sobrevivente — a própria Appanah.
Passaram-se duas décadas até que a autora encarasse, pela escrita, a vida ao lado de um homem violento, com quem se relacionou dos dezessete aos 25 anos.
Nascida nas Ilhas Maurício, a autora trata em seus treze títulos de imigração, racismo e abandono
Por e-mail, Appanah conta à Quatro Cinco Um como, em 2021, se sentiu “convocada” pela notícia da morte de Chahinez Daoud, queimada viva pelo marido em Mérignac, no sudoeste da França, perto de onde a autora morava. Com o choque, o que ela antes rotulava de “uma experiência ruim” ganhou urgência. No romance, costura a própria história à da prima Emma, morta pelo marido, e à de Daoud.
Appanah tateia a experiência da coerção enquanto narra, com clareza impressionante, o mecanismo interno da vítima. Seu talento para escolher o melhor ângulo aparece já no primeiro capítulo ao trancar os três homens numa sala fictícia e observar de cima: “Se existisse uma maneira de espremê-los para extrair um suco, esse suco não seria totalmente intragável; talvez, sob sua amargura envenenada, haveria um retrogosto de doçura”. E arremata, após cada retrato: “Ao vê-lo assim, a gente não imagina”.
É essa prosa bem lapidada, atenta à “música das frases”, como ela define, que faz de Appanah uma voz em ascensão no universo francófono. Nascida nas Ilhas Maurício, ela é autora de treze títulos, que abordam dramas de imigração, herança colonial, racismo e abandono — temas duros que, em seus escritos, perdem o caráter de “dever de casa” para o leitor. A grande marca do texto é a delicadeza.
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A Gallimard, editora que publicou La Nuit au Coeur, diz que há uma negociação avançada para publicar o título no mercado brasileiro. Antes disso, a autora, até então inédita por aqui, chega com Trópico da violência, romance recém-publicado pela Paris de Histórias em tradução de Lorena Figueiredo.
Promessas
Neste romance, a trama se passa em Maiote, uma ilha esquecida pelo governo francês no oceano Índico, onde Appanah viveu por dois anos com o marido. Ali, há uma favela chamada Gaza e balsas de migrantes chegam todos os dias. Nesse cenário real se movem os personagens: Marie, uma enfermeira branca, seu filho Moïse e o chefe de gangue Bruce — os dois adolescentes negros separados pelo abismo social da ilha. Não é spoiler dizer que Marie morre no início da trama e deixa Moïse à deriva. Em seu primeiro dia sozinho, o garoto encontra a pobreza e o crime — a “vida de verdade” que provavelmente teria se não tivesse sido adotado.
Como costuma acontecer, a sinopse não corresponde à beleza do romance, a começar pelo recorte narrativo. Polifônico, Trópico da violência é narrado em primeira pessoa por cinco vozes, duas das quais são de personagens mortos. “Fazer os mortos falar é dar conta da multiplicidade de vozes que existem na ilha. Me parece um motivo romanesco fascinante o grão da voz que já não existe, mas que ainda subsiste”, diz Appanah, que menciona dois autores brasileiros da sua estante que ficam à vontade com narradores defuntos: Jorge Amado e Machado de Assis.
A enfermeira Marie narra com insistência: “Têm que acreditar em mim. De onde lhes falo, as mentiras não adiantam”. No lugar do qual ela fala, há coisas difíceis de acreditar: um belo país do qual ninguém ouviu falar, um casamento perfeito e desfeito, e a própria morte. Marie, uma francesa da metrópole enfeitiçada pelo trópico, se assombra com as imagens à sua volta: “Quando olho pro fundo do mar, vejo homens e mulheres nadarem com dugongos e celacantos”. Se o leitor pesquisar o nome desses animais marinhos, terá valido a pena. Sobre o contraste entre os mundos retratados, Appanah diz: “Eu sabia que a matéria do livro era áspera, mas não podia deixar de lado a grande beleza da ilha, suas promessas, mesmo as não cumpridas”.
Depois da morte da mãe, Moïse mergulha numa solidão que não se parece com a solidão adulta protegida pelo bem-estar. Exposto, o garoto se aferra ao cachorro, que leva aonde vai, e à mochila, onde concentra o que lhe restou. A trama avança no perigo do bairro de Gaza, governado por adolescentes sob efeito de chimique, a droga local. “De onde eu lhes falo, esse país parece uma poeira incandescente, e eu sei que bastará um nada para que ele se incendeie”, anuncia Marie.
E se incendeia. No encontro entre Moïse e Bruce, o jovem chefe de gangue, a tensão é uma espiral ascendente. A voz do jovem marginalizado, aliás, é outro ponto forte do texto. Ele tem sua lógica, seus motivos para convocar Moïse ao mourengué, o boxe de mãos nuas diante da plateia na rua, onde se consagra “o rei de Gaza”. Bruce reclama do idioma bem educado que o novo integrante do grupo fala e das suas “palavras bonitas”. A todo momento, a distância entre uma juventude resguardada e outra sem nada é exposta.
Localizada ao norte de Madagascar, a Maiote real é marcada pela segregação. “É uma ilha francesa, mas com fortes códigos coloniais”, explica Appanah. “Uma ilha muçulmana e ‘rica’ num arquipélago muito pobre. É um departamento da França como qualquer outro, mas as leis ali parecem singulares. Era essa contradição que eu queria evidenciar.”
‘É preciso parar de analisar por que alguns livros chegam ao panteão literário de certos homens’
A autora diz que buscou diversas formas de contar a história de Trópico da violência e passou um longo período às voltas com um texto que não funcionava. Quando voltou à ilha numa visita, se decidiu pela pluralidade de vozes. Além de Marie, Moïse e Bruce, o romance tem trechos narrados por Olivier, um policial, e Stéphane, um agente social desiludido. Os capítulos intercalados são eficazes em provocar proximidade e dão lugar a personagens consistentes, com vontades, história e preconceitos próprios.
Trópico da violência venceu o prêmio Femina des Lycéens de 2016 e foi indicado ao Goncourt, além de ganhar uma adaptação para o cinema com roteiro de Delphine de Vigan. De origem indiana, a escritora tem na própria biografia a riqueza das múltiplas formas de expressão. Cresceu em Maurício, onde o idioma mais falado é o crioulo mauriciano, enquanto as transações oficiais se dão em francês e inglês. Em casa, quando criança, viveu uma poliglota cena familiar. “Meus ancestrais eram trabalhadores indianos contratados para substituir os escravizados negros nos canaviais. Meus avós nasceram e cresceram em uma plantação, com tudo o que isso significa em termos de lida, de estrutura de trabalho e de servidão.”
Quando nasceu, a autora viveu com eles em um lar intergeracional. “Era uma casa aberta a todos os ventos e línguas. Eles falavam comigo em crioulo, em híndi, em telugo. Meus pais falavam comigo em francês, em inglês e em crioulo”, conta ela, que recusa qualquer hierarquia entre os idiomas. “Acredito sinceramente que isso me inculcou tanto o poder das línguas quanto a igualdade entre elas. Nunca houve para mim língua menor, nem mesmo aquelas um pouco desbotadas pelo tempo que meus avós usavam, ou o inglês corporativo do meu pai. Gosto de pensar que minha visão de mundo se mede por essa infância: aberta e igualitária.”
Mulherzinhas
Os holofotes e a atenção midiática decorrente dos prêmios despertaram a reação de alguns críticos, sobretudo homens, que desdenharam do romance mais recente, La Nuit au Coeur, com afirmações lacônicas como “não me toca”. Não é raro que, sob o tom neutro da análise literária, parte dos críticos franceses descarte obras calcadas em experiências essencialmente femininas.
A Nobel de Literatura francesa Annie Ernaux foi alvo de debates acalorados sobre a “falta de interesse” de sua literatura. Questionada a respeito, Appanah prefere matar o assunto por inanição: “É preciso parar de analisar o pensamento de certos homens, por que certas coisas os ‘tocam’ ou não, ou por que alguns livros chegam ao seu panteão literário, ao seu bel-prazer, e outros são considerados como relatos de ‘mulherzinhas’. Há coisas mais importantes, a meu ver”.
Entre as tais coisas importantes, a autora reflete sobre o que pode a literatura. Sobre como, por exemplo, o encontro entre Bruce e Moïse consegue evidenciar a distância artificial de um “nós” e um “eles”, tão explorada na política atual. “A literatura tem um poder: o de despertar a empatia. De nos colocar no lugar do outro. Seria maravilhoso se todos pudéssemos fazer isso ao menos uma vez por dia.”
Especial Atlântico Negro Francófono
Especial sobre livros de autores do Atlântico Negro Francófono lançados no Brasil em 2025 realizado com o apoio da Embaixada da França.
Matéria publicada na edição impressa #99 em novembro de 2025. Com o título “Voz insubmissa”
