Jaguar, Verissimo, Aldir e seu parceiro Marco Aurélio no Bar da Maria (Acervo de família)

Crítica Cultural,

Uma noite em 96

Jaguar promoveu o primeiro encontro de Luis Fernando Verissimo com Aldir Blanc numa jornada de pastel e samba que terminou em crônica

16out2025 • Atualizado em: 15out2025 | Edição #99

Foi numa segunda-feira de dezembro. O Natal ainda não tinha chegado e era Carnaval na Casa da Mãe Joana. No sobrado do século retrasado, que na década de 90 botou o bairro de São Cristóvão num glorioso circuito de rodas de samba do Rio de Janeiro, a festa, sem motivo como as melhores festas, era do Simpatia É Quase Amor. Fundado em Ipanema em 1985 e ainda hoje nas ruas da cidade, o bloco carnavalesco sempre atravessou túneis e gerações. A começar pela homenagem de batismo ao ínclito Esmeraldo Simpatia É Quase Amor, morador da Rua dos Artistas e arredores, coleção de crônicas em que Aldir Blanc recriou Vila Isabel, bairro da Zona Norte onde passou a infância.

Bebia-se desbragadamente por euforia, calor ou hábito. Ou seja, a noite transcorria na mais total normalidade até despontar no salão caótico o perfil longilíneo e algo quixotesco de Aldir Blanc. Depois de anos recluso, resultado de um acidente de carro que o deixou mancando levemente de uma perna, Aldir começava a circular pela cidade. Em setembro daquele 1996, havia comemorado cinquenta anos com disco, livro e show. Também voltara à boemia. E quando Aldir saía na noite era um acontecimento. Sempre acompanhado por Mary, a “sua garota”, puxava um cordão de amigos antigos e novíssimos, conhecidos, desconhecidos, bicões e malucos de todas as extrações. Tentávamos, por isso, achar natural que, na mesa do Aldir, também estivessem Jaguar e Luis Fernando Verissimo.

Como logo saberíamos, aquele era o primeiro encontro de Aldir com Verissimo. Um era fã do outro, um era mais tímido do que outro. Lúcia, mulher de Verissimo, que o acompanhava na Casa da Mãe Joana, gostava de dizer que não perdia debate ou palestra do marido só para saber o que ele estava pensando. Também contava que, numa viagem à Alemanha para promover traduções de seus livros, os organizadores se inquietavam com o silêncio do convidado. Até que Luis Fernando pediu: “Lucia, diz a eles que eu sou calado em qualquer língua”.

Ainda hoje lembro a emoção de ter estado naquele lugar, naquela noite, naquele quadrado do JB

Jaguar se empenhou para que, na tarde daquele 16 de dezembro, os dois se encontrassem na casa de Aldir, mais exatamente no mítico escritório entulhado de livros e CDs onde ele recebia as visitas. Verissimo não seria apresentado a uma pessoa, mas a todo um mundo cujo centro gravitacional era a rua Garibaldi, na Muda. Um mundo encravado na Tijuca profunda, hoje celebrado pelo pequeno Jardim Aldir Blanc, marco da relação essencial entre um artista e seu lugar. 

Dali caminharam os menos de duzentos metros que separavam o prédio em que Aldir vivia — e Moacy Luz morava no térreo e se incorporou ao grupo — do Café e Bar Brotinho. Conhecido como Bar da Maria, o estabelecimento, hoje fechado, era famoso por um inusitado pastel de bacalhau e, sobretudo, pelos ilustres vizinhos e seus não menos ilustres convidados. Em 1997, na festa dos 51 de Aldir, vi descer de um táxi, de terno vermelho, Zé Kéti. A roda deu uma paradinha e retomou, a plenos pulmões: “Eu sou o samba/ A voz do morro/ Sou eu mesmo sim senhor”.

Águas de março

Aldir conhecia Jaguar desde os tempos do Pasquim. Foi no jornal que pipocaram as primeiras notícias sobre o MAU, o Movimento Artístico Universitário de que ele fez parte ao lado de Gonzaguinha e Ivan Lins. Em 1972, o projeto Disco de Bolso, inventado pelo semanário para unir nomes consagrados a novatos da MPB, levou às bancas de jornal um compacto simples com as primeiras gravações de “Águas de março”, cantada por Tom Jobim, e “Agnus sei”, com João Bosco mostrando a parceria com Aldir. As crônicas de Rua dos Artistas e arredores foram publicadas originalmente no Pasca e, mais tarde, em livro lançado pela Codecri, a editora criada pelo jornal.

“O maior elogio que já recebi foi do Jaguar. Ele disse: ‘o Aldir Blanc tem uma mente doentia’. Não é uma beleza?”, me contou Aldir numa tarde que passei com ele, Mary, o labrador Batuque e seu Alceu, o pai, para escrever um perfil que jamais foi publicado. A lembrança de Jaguar, a quem Aldir adorava, tinha endereço certo, provocar aquele que inspirou o personagem Ceceu Rico: “Essa mente eu herdei de você, pai, foi teu cromossoma Y”.

Aldir Blanc e Luis Fernando Verissimo acompanhado da esposa, Lúcia Helena, no bar Casa da Mãe Joana, no Rio (Acervo de família)

Três dias depois do encontro improvável, Verissimo certificava por escrito que a noite alucinante havia de fato existido. Na crônica do Jornal do Brasil, que nunca foi recolhida em antologia, contou como Jaguar estava nervoso, temendo que o encontro dos dois fosse, palavras de Verissimo, “um choque de silêncios, com consequências imprevisíveis”. Talvez por isso, o anfitrião resolveu “fazer as duas partes do diálogo”, adiando para as páginas do jornal as réplicas do convidado: “O Aldir falou tanto que eu nem pude dizer como estava emocionado em conhecê-lo”.

“Samba de Noca da Portela, samba de Walter Alfaiate, samba de primeira. Casa lotada e entusiasmada”, sintetizou o cronista, que passou a noite toda com a sensação “de que conhecia o lugar e as pessoas, de que aquilo tudo já tinha acontecido”. A ele, que vivia em Porto Alegre, tudo parecia estranhamente familiar. Até mesmo o Amaral, sujeito que vira e mexe entra em cena para “declarar o seu amor a todos” e que ninguém dá pinta de saber quem é — ou que dele é íntimo há tempos imemoriais.

Beijo na careca

A “noitada mágica” se explicaria para Verissimo quando, no meio do samba, o Amaral ressurge do nada e tasca um beijo em sua careca. “Tudo explicado. O clima, a sensação de que já vivi aquilo antes e que tudo vai ser perfeito até o fim”, escreve ele. “Estou numa crônica do Aldir Blanc. Olho para ele sentado ao meu lado, para dizer que entendi tudo. Sei que foi ele que escreveu a noite, para nos receber e nos agradar. É o autor de tudo, do Jaguar aos pastéis. Mas ele está tocando seu tamborim e se faz de desentendido.”

Aldir deu a Verissimo o privilégio de habitar uma de suas crônicas. E Verissimo retribuiu à altura. Naquele 1996, viver numa crônica de Aldir não era para mim uma novidade, havíamos nos conhecido pessoalmente fazia alguns meses e eu já entendera como funcionava o portal para o multiverso Blanc. Não foi, portanto, de todo estranha a sensação de ter vivido uma página de Verissimo — mas ainda hoje lembro a emoção de ter estado naquele lugar, naquela noite, naquele ano, naquele quadrado do JB. Emoção que voltou, intacta, 29 anos depois, em agosto de 2025, na dura semana em que Jaguar e Verissimo se despediram. Foi quando Mary Sá Freire postou nas redes sociais as fotos que ilustram esta coluna.

O resto é literatura.

Quem escreveu esse texto

Paulo Roberto Pires

É editor da revista Serrote. Organizou a obra de Torquato Neto nos dois volumes da Torquatália (Rocco, 2004).

Matéria publicada na edição impressa #99 em novembro de 2025. Com o título “Uma noite em 96”