A escritora haitiana Yanick Lahens (Philippe Matsas/Divulgação)

Literatura,

Saga de uma devastação

Sob a ótica da violência e do destroçamento, romance de Yanick Lahens é uma viagem pela cultura e pelas tradições do Haiti

13out2025 • Atualizado em: 10out2025 | Edição #99

A sensação ao terminar de ler Banho de lua, de Yanick Lahens, é a de que estamos diante de uma história de utopias. Ou talvez não seja bem isso. Sensação é, na verdade, um modo de dizer. É o que sentimos quando um vento frio sopra nosso rosto quente: o arrepio é imediato e, logo em seguida, se dissipa. Vivi a narrativa de Yanick Lahens como quem ganha um susto. Histórias que nos detêm, nos prendem na cadeira, nos deixam alheios a tudo, horas a fio, são as que mais assustam. Ou melhor, não só assustam, como nos comovem e nos direcionam a digressões profundas — sobre cultura, seres humanos, países e, ainda mais, suas desigualdades.

Banho de lua se integra ao enredo de uma nação destroçada pela ganância e pelo medo. O romance é nítido como um espelho que reflete, de forma nua e crua, a realidade vivida por duas famílias historicamente rivais: os Lafleur e os Mésidor. A primeira, formada por camponeses simples que vivem do suor diuturno, da labuta do pescado e da colheita da roça; a segunda, claramente poderosa, formada por despóticos donos de terras, latifundiários doentios que dominam tudo na base da corrupção política e da violência.

Essas duas famílias, com seus ciclos geracionais, percorrem o romance de Lahens de forma surpreendente, atadas a um realismo que aproxima a ficção, em seu estado de elevação, à própria história do Haiti, onde a narrativa se passa — um país forjado em conflitos sanguinários, assassinatos, rivalidades e guerras sem fim.

A forma loquaz com que a autora remexe no passado haitiano nos diz muito sobre seu ativismo

Ao escrever Banho de lua pela ótica do crime e da corrupção, Lahens traça um painel preciso de um ponto de vista concêntrico. Seu alicerce é a saga utópica da jovem Olmèse Dorival, integrante da família rural, em constante luta pela sobrevivência. Em contraponto, há o poderio do senhor de terras Tertulien Mésidor, perpetrador de desmandos sedento por poder, cuja personalidade é enraizada no passado familiar forjado no domínio arbitrário, na matança e na submissão.

O país dos personagens tem correlação direta com a nação verdadeiramente distópica que, desde sua origem, entre o final do século 18 e o início do 19, vive entre rupturas coloniais e arrebatamentos consecutivos. De um lado, a forte marca do pertencimento, para além da ancestralidade espremida pela religião, misto de catolicismo e africanidade, com o vudu de permeio; e de outro, a colonização europeia. Duas dolorosas feridas abertas, que teimam em não cicatrizar e que ainda sangram.

A forma loquaz com que Yanick Lahens remexe no passado do Haiti, considerado de “violenta beleza”, nos diz muito sobre sua trajetória e seu ativismo enquanto negra e intelectual, ganhadora em 2014 — justamente por Banho de lua — do prêmio Femina, uma espécie de Goncourt com júri exclusivamente feminino.

Imersão

Educada na França, onde se graduou em literatura comparada na tradicional Universidade Sorbonne, a autora retornou a Porto Príncipe, seu território de nascença, aos 25 anos, em 1978, para repensar e lecionar sobre os escombros herdados do período da escravidão. Nessa conjuntura, fundou a Associação dos Escritores Haitianos, que molda o espírito militante de sua escrita e mantém o projeto “Rota da Escravatura” — cujos encontros e debates procuram remover as camadas do atraso cultural e econômico caribenho.

Mesmo pelo viés da destruição e do massacre, é possível enxergar na narrativa a conexão de beleza e poesia, de leveza e de acúmulo cultural. O romance também pode ser entendido como pequeno manual de aprendizados — tanto pelos rituais das divindades do vudu, que cada vez mais se sincroniza com a religião católica, quanto pela preservação dos falares crioulos, originados do embate linguístico dos idiomas de matriz africana com o francês do colonizador.

Mais do que isso, Banho de lua é uma história que nos anestesia — ou melhor, nos causa nan dòmi (doce sonolência, em crioulo haitiano). Aos solavancos, entramos e saímos dela com uma ideia para “além daquilo que éramos capazes de inventar”. O romance não diz respeito apenas a uma pura e simples fabulação, termo que se emprega aqui com conotação oposta à sua raiz etimológica.

Narradora concisa, habilidosa no traquejo linguístico e na criação de tramas seguras e convincentes, Yanick Lahens oportunamente nos conecta a uma “história de tumultos e de eventos ordinários. Às vezes, de fúria e fome. Por momentos, de corpos que exultam e encantam. Por outros, de sangue e silêncio”, como professa o livro.

Talvez venha daí o que nos leva a imergir na narrativa, num mergulho indelevelmente sem volta para dentro de uma obra que nos emociona e alimenta a ponto de nos condicionar a “comer a própria fome”. Quase assumindo o lugar da autora, tomamos nas nossas mãos o destino das personagens, arrogando o poder de vida e morte sobre elas.

O que Yanick Lahens escreve não é fácil de ser ingerido, mas é altamente necessário — para o Haiti, para o mundo. Os traços coloniais — marcadores da existência dos povos das Américas, sobretudo os de origem africana — estão por toda parte no continente, como um medidor de violência e atrocidades, a exemplo do que acontece no Brasil.

Sob tal perspectiva, Banho de lua se transforma no caminho do sentir do povo haitiano — e, igualmente, do nosso sentir. Os registros epidérmicos nos carregam pelo mesmo tempo de dor, de desilusão, de buscar saber quem somos e de onde viemos.

Neste particular, Yanick Lahens nos deixa algumas pistas, mas não muitas. A tradução de seu romance premiado nos permite conectar com sua diáspora, que não está muito distante da nossa.

Especial Atlântico Negro Francófono

Especial sobre livros de autores do Atlântico Negro Francófono lançados no Brasil em 2025 realizado com o apoio da Embaixada da França.

Quem escreveu esse texto

Tom Farias

Jornalista e crítico literário, é autor de Carolina: uma biografia (Malê).

Matéria publicada na edição impressa #99 em novembro de 2025. Com o título “Saga de uma devastação”