A escritora e jornalista portuguesa Anabela Mota Ribeiro (Estelle Valente/Divulgação)

Encontro de Leituras,

A literatura do corpo

Jornalista e escritora portuguesa, Anabela Mota Ribeiro conta da escrita orgânica de O quarto do bebê, seu primeiro livro de ficção

07out2025 • Atualizado em: 31out2025 | Edição #99

Anabela Mota Ribeiro teve um câncer de mama. Anabela nunca vai ter um filho. Anabela escreveu um livro sobre o incomunicável, o que se passa nas entranhas. Escreveu com o corpo.

“Fala orgânica”. Esse é o título do caderno citado na “Advertência”, prólogo machadiano de O quarto do bebê. Foi escrito por Ester, uma ex­-paciente de um psicanalista famoso, o pai morto da narradora.

“Quando lancei o livro em Portugal, perguntaram-me por que ela se chamava Ester. Uma jornalista concluiu que era Ester por causa das primeiras letras: esterilidade. Não pensei nisso. Pronto, vou dizer: meu nome era para ter sido Ester, meus pais mudaram de ideia na última hora. Os portugueses vão ficar um pouco furiosos comigo, porque por dois anos me perguntaram e nunca contei”, diz a jornalista e escritora de Trás-os-Montes, sub-região do nordeste de Portugal.

Estamos em uma pousada em Paraty, na manhã do primeiro sábado de agosto. Dois dias antes, a escritora tinha participado de uma mesa da Flip com a francesa Neige Sinno. Uma conversa sobre traumas — Triste tigre (Amarcord), livro de Sinno, fala dos estupros que a autora sofreu do padrasto; O quarto do bebê, de Ribeiro, trata do câncer de mama que teve durante a pandemia e a descoberta da infertilidade, época que a autora andou “no intestino da vida”.

Nesta entrevista para a Quatro Cinco Um, já com as entranhas expelidas pela literatura e feliz da vida, Anabela fala da escrita das mulheres, de escrever com o corpo e, também, de seu trabalho como jornalista.

Em O quarto do bebê você parte de uma experiência muito pessoal. Aumentou o interesse por essas histórias da vida privada?

Sim, há muitos livros maravilhosos que estão tocando leitoras e leitores. Tratam de uma vida singular, mas acabam refletindo o que está acontecendo no mundo. Interessante, percebo que tantos, talvez a maioria, são escritos por mulheres.

Como vê essa característica de serem livros escritos por mulheres?

Quando penso em todas as mulheres que estão escrevendo lembro de Um quarto só para mim, da Virginia Woolf. A sociedade patriarcal oprime e silencia essa voz autoral. Porque, para convocar o título de outro livro, este do Nelson Rodrigues, a vida como ela é coloca a mulher numa mecânica de cuidados, obrigações, culpabilidade que, na maior parte das vezes, é inescapável. Que muitas mulheres consigam aplicar e afirmar a sua voz é um fenômeno que considero extraordinariamente importante, exprime a conquista de um lugar. E essa voz está sendo escutada. Fico muito contente de ler mulheres e compreender que estamos a romper qualquer coisa que era muito pesada, um cimento sólido que inibiu e cortou a voz de mulheres geração após geração.

Sobre silenciamentos e novas gerações: você tem um programa na RTP (Rádio e Televisão de Portugal), no qual entrevista pessoas nascidas depois do fim da ditadura de Salazar. O que tem escutado nessas conversas?

O programa, Os Filhos da Madrugada, é uma série anual de 25 episódios, transmitidos todos os dias em abril, num crescendo até o dia da revolução de 1974 [25/4]. Neles, faço uma auscultação da democracia através de uma maratona de entrevistas com pessoas que nasceram já em liberdade. Ouvindo-as, questiono-me também sobre a consciência que eu tenho de mim em liberdade, faço uma releitura mais fina da minha própria história.

Você mesma nasceu em 1971, só um pouco antes do fim da ditadura em Portugal. O que a redemocratização significou para você?

Nós já nos beneficiamos do Estado Social, do acesso à educação. Minha avó era analfabeta, eu sou filha da escola pública, demos passos gigantes em poucas gerações. Mas, ao mesmo tempo, fomos educados por esses pais e avós que cresceram nos 48 anos de ditadura, isso não desaparece assim.

‘Assimilar, expelir, deglutir; o que se passa dentro do corpo não é tão diferente do que se passa na escrita’

Há uma ideia de silenciamento, uma memória muito recente sobre a qual ainda não se elaborou suficientemente em Portugal. A relação com as ex­-colônias, a inserção na sociedade portuguesa de quem veio desses países cola com o tema do racismo, da xenofobia. Essa discussão ainda está muito incipiente em Portugal. Para o programa, tenho como ponto de honra que pelo menos metade dos entrevistados sejam mulheres. Não é tão óbvio assim, e tem a ver com por que ler mulheres. Faço essas escolhas porque sou feminista. E defensora das cotas!

Dos traumas históricos para os íntimos: no livro, você conta do câncer de mama, fala de um filho que nunca vai nascer, de seu corpo. Como foi esse processo? A escrita doeu?

A ficção pode doer e curar. Há sempre uma parte inacessível, um reduto do sujeito por vezes incompreensível para si mesmo, que é incomunicável. É quando nos confrontamos com nossa vulnerabilidade, nossas questões mais primordiais. E pode ser até mesmo salvífico quando temos uma mão amorosa ao lado. Mesmo assim, há uma parte na vida e na escrita em que permanecemos nesse lugar de solidão absoluta.

Escrever implica esse recolhimento?

É contraditório: é um ensimesmamento e, ao mesmo tempo, um solilóquio, uma fala que um dia será expelida.

Expelir, uma ação orgânica, está presente em O quarto do bebê, e tem a ver com o título do caderno encontrado pela narradora, “Fala orgânica”. Foi isso que procurou fazer com a escrita?

Sim, estou a dizer “expelir” porque me ocorrem tantas palavras orgânicas, da ordem do metabolismo, da fisiologia, daquilo que no fundo é o próprio processo do corpo a se manifestar: assimilar, expelir e, antes disso, deglutir; o que se passa dentro do nosso corpo não é tão diferente do que se passa na escrita.

Deglutir e expelir o trauma no livro te ajudou?

Foi um pouco salvífico, porque eu comecei a encontrar palavras para o trauma. Tinha passado pela doença meses antes e, na época, eu não conseguia nem falar sobre o que estava a passar comigo, muito menos escrever. Era um atordoamento. Não era tempo de sentir, de sofrer, de chorar. Era tempo de lutar, e enfrentei com disciplina férrea. Hoje percebo que fui muito severa comigo mesma.

Quem escreveu esse texto

Iara Biderman

Jornalista, editora da Quatro Cinco Um, é autora de Tantra e a arte de cortar cebolas (Editora 34).

Matéria publicada na edição impressa #99 em novembro de 2025.

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