Literatura infantojuvenil,
Linguagem cheia de mistérios
João Anzanello Carrascoza traça permanente trânsito pela fronteira entre o humano e o natural
01out2025 • Atualizado em: 30set2025 | Edição #98Poderíamos dizer que no princípio era a folha.
Ailton Krenak
No conto inicial de Entre bichos e plantas, de João Anzanello Carrascoza, a relação entre animais e humanos é apresentada por meio de um acontecimento trágico, um mal-entendido, um susto e seus desdobramentos. A alteridade é o mote e o estranhamento não se dissipa, mesmo com o encontro aparentemente lúdico entre uma coruja e dois meninos.
Luzia, a ave de “O sono da coruja”, percebe uma paisagem cheia de luminosidade, conversas e quietude, mas também um território de espanto e de algum perigo. Luzia tenta uma aproximação com os humanos; encontra a vida cheia de sons e movimentos dentro da noite, dentro do sono e do sonho.
Marcada por um acidente, a história apresenta as linhas estruturantes do que encontraremos ao longo da coletânea de Carrascoza: o permanente trânsito pela fronteira entre o humano e o natural.
É seguindo as trilhas da imaginação sem rédeas — desprendida das formas fixas do pensamento moderno e colonial, em que rochas são inanimadas e árvores não têm sentimentos ou memória — que o autor esquadrinha um conjunto de histórias sobre plantas, pedras, rios, bichos, nuvens e gente, como se apontasse para um profundo diálogo entre as coisas.
Nesse sentido, é possível lembrar das ideias de Ailton Krenak, Davi Kopenawa e Antônio Bispo dos Santos, autores de uma cartografia das convergências entre a política e o orgânico, e pensadores fundamentais do que Isabelle Stengers chamou de “tempo das catástrofes”.
Perspectiva
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Entre bichos e plantas burila uma linguagem do solo — mineral, comum e cheia de mistérios. As ilustrações de Rodrigo Visca dão ao conjunto de histórias uma perspectiva onírica e filosófica, como a encontrada em “Quadradinha e Redondela”, em que duas pedras trançam uma conversa sobre a vida, mapeando as vantagens e desvantagens de rolar pelo rio:
Fizeram silêncio. Mas logo reataram a conversa. Quadradinha ficou falante, contou alguns de seus sonhos e revelou que adorava a Lua. Aí Redondela disse que a Lua era o sorriso do céu, porque aparecia sempre à boca da noite.
Antes, em “Praia”, os versos do poema esmiúçam os fundos da memória, como se fizessem a imaginação regressar ao universo infantil, num haicai: “Mar calmo. / Um cardume de infância /
passou, como brisa, / pelo meu rosto”. A gramática manipulada por Carrascoza é a da matéria orgânica, viva, transcendente e fabulosa. Um alfabeto originado nas folhas e raízes das árvores, no sentimento dos animais e na memória da infância.
A gramática manipulada por Carrascoza é a da matéria orgânica, viva, transcendente e fabulosa
As histórias de “O pica-pau e o pau-ferro”, “Lembrança do outono”, “Enquanto nuvem” (um conto-poema) e “Entre bichos e plantas” juntam-se à do conto “As flores do lado de baixo”, estreia do autor na literatura, uma fabulação sobre a origem mineral e a encantaria das florestas.
Outro fruto colhido nos contos de Carrascoza é o do tempo. O tempo está presente nas aventuras do pássaro que mantém diálogo com uma árvore e pratica uma espécie de prospecção esperançosa do futuro, espalhando sementes e fazendo germinar a vida em outros cantos (“O pica-pau
e o pau-ferro”). E está presente da mesma maneira na umbilical relação da folha com a mãe-árvore (“Lembrança do outono”), marcando o ritmo (devagar) da existência.
Subordinação
Com os processos históricos que se materializaram nas Américas, principalmente a colonização, ganhou força no Ocidente uma compreensão da natureza como subordinada (e mercantilizada) ao modo de vida das sociedades. Nessa perspectiva, bichos e plantas estariam no universo orgânico, ao passo que a cultura (humana) carregaria a força das ideias e da razão, em um plano separado e cindido.
A falácia moderna nos diz que a natureza é um “objeto” passível de uso e de exploração. Em sentido contrário, os contos de Carrascoza revelam outra constituição do mundo: a imaginação é atributo de tudo, sem distinções, e flanar por paisagens pode ser o desejo de uma nuvem.
Matéria publicada na edição impressa #98 em outubro de 2025. Com o título “Linguagem cheia de mistérios”
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