Ilustração de Issa Watanabe (Divulgação)

Literatura infantojuvenil,

Cacos da infância

Kintsugi, novo livro-imagem da peruana Issa Watanabe, narra rupturas e reconstruções a partir de uma poética visual

31ago2025 • Atualizado em: 08set2025 | Edição #97

Um amontoado de gente com livro embaixo do braço entupia um dos corredores da Feira do Livro Infantil de Bolonha, na Itália, em frente ao estande da editora espanhola Libros del Zorro Rojo. Na ponta da aglomeração, que tentava ganhar a forma de uma fila, a ilustradora peruana Issa Watanabe autografava o seu lançamento mais recente.

Vestida de preto e sentada diante de uma mesinha, ela assinava havia quase três horas exemplares de Kintsugi. O frenesi tinha explicação. O livro-imagem havia acabado de receber o prêmio de melhor obra de ficção infantojuvenil de 2024 pela feira italiana, o principal evento mundial da literatura para crianças e jovens.

Assim que colocou o ponto-final em mais uma das dedicatórias da tarde, Watanabe sorriu para a leitora parada à sua frente e devolveu a edição autografada. A mulher agradeceu e perguntou se podia abraçar a autora. Ao ouvir que sim, ela se aproximou, deu o abraço e falou algo em voz baixa, que só as duas conseguiram ouvir. Em seguida, começou a chorar.

“Isso já aconteceu mais de uma vez. É emocionante. Muitas pessoas leem o livro e me contam experiências pessoais muito duras”, me disse Watanabe assim que a sessão chegou ao fim e a multidão se dissipou. “Kintsugi é muito aberto, simbólico, um pouquinho abstrato. Os leitores enxergam diferentes coisas na história. Pode ser a morte de alguém, alguma doença ou algo menos dramático, mas que acabou provocando grandes mudanças. Todos já passamos por momentos de ruptura e desequilíbrio.”

Livros podem servir de cola para juntar nossos pedaços a partir da linguagem e de uma experiência estética

Lançado agora no Brasil, numa coedição entre as editoras Solisluna, Selo Emília e Livros da Raposa Vermelha, o livro mergulha tão fundo no simbólico que não é exagero dizer que estamos diante de um livro de poesia feito apenas com ilustrações e uma só uma palavra: Kintsugi, título que se torna chave para destrancar algumas das metáforas visuais da narrativa.

O nome faz referência a uma técnica japonesa que repara cerâmicas quebradas com uma mistura de resina e ouro, formando uma cola que junta os cacos e gruda novamente as peças partidas. O resultado é um objeto reconstruído, mas com as rachaduras aparentes, o que faz com que as imperfeições e cicatrizes se tornem parte da beleza, originalidade, identidade e personalidade do material.

Ilustração de Issa Watanabe (Divulgação)

A partir dessa ideia, Watanabe apresenta no livro a história de um coelho, que toma chá ou café na companhia de um pássaro. Só que, de repente, tudo se transforma. Uma cor branca invade a cena, toma conta do corpo da ave, rompe a xícara de cerâmica e faz o pássaro ir embora. Nesse movimento de fuga, todos os objetos sobre a mesa também são quebrados. Entre o susto e a preocupação, o coelho inicia uma jornada em busca do colega. Ele se embrenha num bosque escuro e mergulha nas profundezas das águas, até chegar ao fundo do poço, onde encontra a mesma cor branca misteriosa.

Quando o coelho volta para casa, nada permanece como antes. Assim como no kintsugi japonês, o personagem tenta colar os cacos da vida — mas as cicatrizes já foram expostas. Sem facilitar a leitura nem cair nas armadilhas do “viveram felizes para sempre”, Watanabe costura questões existenciais complexas e intensas nessa fábula visual.

Fase dolorosa

“Muitas vezes, o adulto subestima a capacidade da criança de fazer leituras mais profundas e abstratas”, afirma a autora. “Mas a infância é também uma fase com experiências muito dolorosas. Teve a pandemia, por exemplo, quando eles tiveram que deixar a escola, ficar longe dos amigos, lidar com a morte de pais, tios, avós. E nem preciso falar sobre as crianças da Ucrânia e da Palestina.”

Se todos esses temas podem ser encaixados nos cacos espalhados por Kintsugi, nada disso é exatamente uma novidade na obra da autora. Seu livro anterior, Migrantes (Solisluna, 2021) toca no tema da imigração e da crise global dos refugiados com a mesma sensibilidade e sem jamais cair no moralismo, no didatismo ou no eufemismo.

Watanabe conta que teve dificuldade para convencer editoras a publicar a narrativa, que foi lançada originalmente em 2020 pela mesma Libros del Zorro Rojo. Hoje, Migrantes está editado em cerca de vinte idiomas, apesar de também ser um livro-imagem sem palavras, e foi premiado em países como Espanha, França e China.

A autora e ilustradora peruana Issa Watanabe (Divulgação)

“Acho que os dois são livros difíceis, mas a dificuldade não está na relação com a criança. O problema são os adultos, que muitas vezes não querem que a infância tenha contato com essa literatura e com esses temas”, conta a autora. “Mas as crianças fazem parte da sociedade. Elas têm direito a um espaço onde possam tentar processar as suas rupturas.”

Até porque a literatura não é só cura, mas também rompimento. O que as histórias de Watanabe nos mostram é que os livros até podem ser o ouro do kintsugi e servir de cola para juntar os nossos cacos a partir da linguagem e de uma experiência estética. Só que a literatura é também a força contrária. Muitas vezes, ela é a pancada que nos espatifa simbolicamente — sejamos nós adultos ou crianças.

Quem escreveu esse texto

Bruno Molinero

É jornalista e escreve sobre literatura infantojuvenil no blog Era Outra Vez, da Folha de S.Paulo. Seu livro Corpo de Passarinha (SM) venceu o prêmio Barco a Vapor de 2023.

Matéria publicada na edição impressa #97 em setembro de 2025. Com o título “Cacos da infância”