Deslembramentos,
pensei que era um cardume afinal eram infâncias
um dos mais cruéis erros é impedir uma criança de vivenciar a plenitude dessa época: nem sequer vou citar a Palestina, vale para o mundo todo
26ago2025 | Edição #97dizia uma das minhas dezessete avós: a infância está em toda a parte. (para) onde quer que se olhe, lá está ela — como um espelho que aparece sem ser invocado.
a infância é a maré vazia só à espera que a maré possa encher. um resto de brilho no brilho de quem olha o luar.
dura, porosa, sofrida, envenenada, tardia, monótona, desacarinhada, violenta ou desinteressante. a infância — é.
por vezes falo nisso: um dos mais cruéis erros é impedir uma criança de vivenciar a infância. nem sequer vou citar a Palestina. vale para o mundo todo, a todo o momento em que a uma dessas incríveis pessoas (a quem por certo tempo chamamos “criança”) lhes falta a oportunidade de viver em pleno a plenitude dessa época.
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território sagrado da descoberta e da brincadeira, do riso e dos virgens encantamentos, barro de pontes frágeis e de pontes eternas, bruma em que o peito jura e diz e acredita.
em português de angola, eu poderia dizer: ali onde tombou o sal da lágrima que ainda nem sabíamos se o nome dela era qual. poço de luz, onde tudo pareceu ser possível sob a escuridão bonita das nossas benditas faltas de luz.
território sagrado da descoberta e da brincadeira, do riso e dos virgens encantamentos
a infância, numa certa luanda minha, foram as estórias também aumentadas da guerra ao longe e o mundo a ficar grande na nossa pequena margem de vida, margem de ida.
quantas importantíssimas professoras de português… quantas quedas. quantas mentiras e estigas. quanto sofrimento e choro. quanta dificuldade em saber as palavras e saber as explicações da adolescência toda mal assessorada.
ali onde tombou o sal sobre as palavras, ali comecei a mudar de nome, só não sabia qual [excerto do diário].
mas é também a infância a maré cheia como regozijo aberto em direção à lua. que é da infância ser cheia e ser rasa, ser cheia e ser nova, ser uma e ser outra. abensonhados (diria o Mia) aqueles que tudo atravessaram sem tropeçar ou ser atropelados pela culpa. que a natureza nos ajude sempre a afastar a culpa do peito das crianças.
dizia uma das minhas dezessete avós: a infância é tudo em toda a parte. (para) onde quer que se viva, lá está ela — como uma árvore que reaparece sem ser evocada. um resto de lua no que já foi brilho de luar.
e dura — por uma vida e uma rosa, sôfrega, embelezada, macia, constante, acarinhada, violeta ou desinteressante.
a infância? é.
Matéria publicada na edição impressa #97 em setembro de 2025. Com o título “pensei que era um cardume afinal eram infâncias”
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