'The Large Plane Trees', 1889, de Van Gogh. Óleo sobre tela (Reprodução)

Onde Queremos Viver,

Fotografias

Aquilo foi quatro anos antes do 25 de Abril e nada parece revelar como as coisas mudariam

20ago2025 | Edição #97

1. Vejo The Flooded Grave, de Jeff Wall, numa exposição no maat, em Lisboa. Os coveiros desenterraram o caixão. Estava um dia de chuva no cemitério, céu fechado, fumo de uma queimada. Sob a terra, no lugar do caixão, havia estrelas-do-mar, conchas, corais. O cemitério não era perto da praia, mas no interior da província e, no entanto, a água debaixo da sepultura da mulher era salgada, uma parcela de fundo do mar. A mulher morrera sozinha naquele condado, mas em jovem passara longos verões na costa, na casa que tinha na praia. Era ali que tinha passado os melhores anos da sua vida, acompanhada de amigos ou sozinha. Agora que morrera, o seu corpo chamara o mar. A cova era igual às que as crianças fazem na areia, quando brincam na praia, debaixo das quais, quando fundas o suficiente, a água do mar emerge. Talvez fosse essa a semelhança e, no cemitério, os coveiros fossem meninos a brincar na praia e a sua sepultura fosse na verdade um desses buracos infantis. Era misterioso o que faria isso da circunstância lúgubre de a mulher ter um dia morrido e sido enterrada, se o seu enterro era um passatempo de meninos. A vinda do mar ao seu encontro traçava essa linha obscura entre a morte da mulher e a sua infância. Ou entre a sua morte e as temporadas na vila de praia, também elas misteriosas, apesar da claridade da vila, obscuras porque quanto mais regulares eram os hábitos que ali cumpria à vista, mais a regularidade com que cumpria as pausas estivais fazia dela, na vila de praia, uma ave rara, mesmo que ninguém tivesse reparado no que quer que fosse de estranho a seu respeito.

Debaixo da terra, a mulher morta nadava nas águas, onde dançam e são felizes os mortos

2. O seu corpo chamara o mar, depois de morto, revelara a mulher como um ser das águas, da decomposição do seu caixão e dos seus tecidos e dos seus ossos resultara uma respiração, uma existência oceânica, e agora, no cemitério, a presença da água no lugar da terra e os seres marinhos davam à cena, na tarde chuvosa, a realidade de um sonho. Do fundo da terra, a mulher tinha renascido e saído da sua sepultura pelo seu próprio pé. O mistério revelado no cemitério era esse. Debaixo da terra, a mulher morta nadava nas águas, onde dançam e são felizes os mortos.

3. Folheio o álbum de infância da minha mãe. Foi o meu avô quem lho ofereceu, tinha ela doze anos em 1970. Levavam então a vida próspera de uma família de assimilados em Angola. O álbum encerra esses anos. Contém cenas domésticas, momentos em que se ausentaram de casa para se fotografarem na entrada. Não há nenhuma fotografia de interiores. Fotografaram-se à porta de casa, na rua, em cima de carros, deitados na relva, jamais dentro de casa, não sei por que, talvez porque dentro de casa não havia luz suficiente para fotografar. Da vida que levaram, consigo vislumbrar a soleira da porta, mas não sei como eram os seus quartos, não sei como eram à mesa, ou na sala. Foi quatro anos antes do 25 de Abril e nada parece revelar como as coisas mudariam. Uma linha que me ligue ao começo. Um arco perfeito daqui ao passado, arco fora da dor, plenamente luminoso, daqui às esperanças do meu avô quando primeiro encontrou a casa que agora vejo. Entre a casa bonita no Lubango da fotografia e o casebre onde passaria a velhice em Portugal distam 22 anos.

Quem escreveu esse texto

Djaimilia Pereira de Almeida

Escritora portuguesa, publicou Esse cabelo, A visão das plantas e O que é ser uma escritora negra hoje (Todavia).

Matéria publicada na edição impressa #97 em setembro de 2025. Com o título “Fotografias”

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