FLIP 2025,
Gaël Faye compara Gaza a Ruanda: ‘palavras podem justificar genocídios’
O autor franco-ruandês e o marfinense GauZ’ relembram experiências como imigrantes na França e dizem que língua do colonizador é como um tesouro de guerra
01ago2025 • Atualizado em: 21ago2025Uma conversa sobre imigração, colonialidade e o poder das palavras marcou a noite de quinta-feira (31) na Flip, no encontro entre o autor marfinense GauZ’ — pseudônimo de Armand Patrick Gbaka-Brédé — e o rapper e escritor franco-ruandês Gaël Faye. Os dois participaram da mesa “Pequenos países, grandes movimentos”, mediada pela jornalista e escritora Adriana Ferreira Silva, colaboradora da Quatro Cinco Um.
Também roteirista, fotógrafo e editor de um jornal satírico na Costa do Marfim, GauZ’ é autor de De pé, tá pago (Ercolano, 2025, trad. Diogo Cardoso), livro que descreve como uma “etnologia de Paris” — onde viveu dez anos — do ponto de vista de seguranças de lojas populares. Ou, como definiu em Paraty, “um livro para escrever de forma descompromissada sobre o capitalismo e a imigração na Europa”.
De volta a Paraty depois de ter participado da Flip em 2019, Faye está lançando Jacarandá (Editora 34, 2025, trad. Mirella do Carmo Botaro e Raquel Camargo), que retoma uma personagem de seu livro anterior, Pequeno país (Carambaia, 2023, trad. Marília Garcia). No romance, o escritor, filho de mãe ruandesa, volta ao tema do genocídio em Ruanda. “Tento compreender como uma sociedade que viveu o pior, um genocídio, consegue se levantar, tornar-se humana novamente”, disse.
Faye tinha onze anos em 1994, quando cerca de 800 mil pessoas foram assassinadas no país africano, numa tentativa de exterminar a etnia tutsi. Ao comentar sobre como as palavras podem interferir na realidade, o escritor, que nasceu no vizinho Burundi, lembrou que em Ruanda se usava a palavra “baratas” para designar os tutsis.
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“Hoje vemos políticos que falam das pessoas em Gaza como animais, ou seja, as palavras podem ser usadas para justificar genocídios”, disse, muito aplaudido pela plateia na Flip, majoritariamente branca.
Ao comentar seu romance anterior Les Portes (sem tradução em português), GauZ’ lembrou que durante muito tempo os sans papiers, imigrantes sem documentos regularizados na França, eram chamados de clandestinos. Em 1996, um movimento que se autodenominou “os sem papéis” tomou as ruas francesas para protestar contra as políticas migratórias e exigir tratamento digno.
“A França é o país que tem o maior número de leis sobre imigração, eles são obcecados com isso. Os sem papéis são as pessoas com mais papéis do mundo porque precisam justificar tudo”, ironizou o marfinense, em um dos muitos momentos em que provocou risadas no público.
Tesouro de guerra
Além das experiências em comum com os narradores dos seus romances, os dois autores falaram sobre o fato de escreverem em francês, a língua do país colonizador. “O francês é nosso tesouro de guerra, nosso butim. Se é a língua do colono, também me pertence”, observou Faye.
O rapper relembrou que, ao se mudar para Paris, aos treze anos, teve que aprender um novo francês. “As línguas são maleáveis, estão em movimento, se transformam e se enriquecem.”
GauZ’ concordou com o colega e disse que o Brasil é um bom exemplo de país que se apoderou da língua do colonizador. “Vocês transformaram uma língua de comedores de batata em outra, não há dúvida. Aqui não se fala português, se fala brasileiro!”
Provocados pela mediadora Adriana Ferreira Silva, os dois também divertiram a plateia ao falar sobre como a experiência da negritude se reflete em suas obras. Filho de um pai branco, francês, Faye disse ter a sorte de ter mais de uma cor. “Quando cheguei na França, meus colegas diziam: um black acabou de entrar e eu ficava procurando”, ironizou. “Precisava de dez horas de voo para mudar de cor.”
Já GauZ’ fez piada novamente sobre o Brasil e sua herança portuguesa. “O Brasil é o pesadelo dos geneticistas. Parece que os portugueses queriam espalhar seus espermatozóides por toda parte. Não dá para dizer a cor de ninguém”, brincou.
Flip 2025
A 23ª Flip acontece de 30 de julho a 3 de agosto e homenageia o poeta curitibano Paulo Leminski. A edição de 2025 reúne trinta e seis autores convidados na programação principal. Entre os escritores e escritoras da Festa Literária Internacional de Paraty estão Arnaldo Antunes, Caetano Galindo, Gregorio Duvivier, Gaël Faye, Cristina Rivera Garza, Valter Hugo Mãe, Rosa Montero, Ricardo Araújo Pereira, Ilan Pappe, Giovana Madalosso, Astrid Roemer, Sandro Veronesi, Marina Silva, Neige Sinno, Liv Strömquist e GauZ’. Leia mais sobre a Flip 2025.
