FLIP 2025,
Arnaldo Antunes canta versos e recita canções para celebrar Leminski
Para uma plateia lotada na abertura da Flip, cantor lembrou parcerias com o homenageado do festival, ‘o encaixe entre a poesia concreta e a tropicália’
31jul2025Um poeta multifacetado, que transitou por diferentes universos com naturalidade, um elo entre a cultura e a contracultura. Durante mais de uma hora, o também poeta, cantor e compositor Arnaldo Antunes enumerou as muitas versões de Paulo Leminski (1944-1989), autor homenageado da 23ª edição da Festa Literária Internacional de Paraty, a Flip.
“Fiquei muito contente com a escolha do Leminski. Um reconhecimento à sua obra tão potente e que contempla minha admiração por sua poesia”, disse o artista para uma plateia lotada no auditório e na praça da Matriz, na abertura do festival literário, na noite desta quarta (30).
Munido de diferentes edições dos livros de Leminski, o cantor relembrou sua relação com o poeta e parceiro, cuja obra conheceu antes de conhecê-lo pessoalmente. “Leminski era um libertário tanto na forma quanto no conteúdo. O encaixe entre a poesia concreta e a tropicália”, disse Antunes.
“Ele, virginiano como eu, mas de agosto, mês do cachorro louco”, contou, aludindo a um dos muitos poemas que leu do homenageado:
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“O pauloleminski/ é um cachorro louco/ que deve ser morto/ a pau e pedra/ a fogo a pique/ senão é bem capaz/ o filhadaputa/ de fazer chover/ em nosso piquenique.”
Antunes também repassou sua relação com a obra de Leminski. O primeiro livro que leu foi Catatau (1976) — “que me deslumbrou com o jorro intenso de insights”. Mais tarde, o cantor disse ter lido a coletânea Não fosse isso e era menos, não fosse tanto e era quase (1980).
“Me surpreendi ao entender que o mesmo autor que tinha feito um livro radicalmente exuberante fizesse também aqueles poemas marcados pela síntese, pela concisão”, disse Antunes, que exibiu para a plateia a edição que trazia versos datilografados. O cantor lembrou que os poemas foram incluídos nas edições posteriores de Caprichos e relaxos e Toda poesia, mas sem “o mesmo capricho”: “Merecia uma edição fac-similar”.
Perhappiness
No palco, Antunes também tentou reproduzir a performance que fez no Perhapiness, evento que lembra Leminski e sua obra todos os anos em sua Curitiba natal. Abrindo páginas a esmo, recitou alguns versos, mas lamentou que, sem o pedestal da performance original e tendo que segurar o microfone e o livro, não conseguiu o mesmo efeito.
Ao discorrer sobre as muitas ligações de Leminski com a cultura de sua época, o cantor também contou como um poema do curitibano tinha uma estranha sincronicidade com a canção “Johnny come home” da banda britânica Fine Young Cannibals — e colou o celular no microfone para a plateia ouvir um trecho da música. “Será que eles leram Leminski?”, questionou, citando versos do poema da coletânea Caprichos e relaxos.
Ao recordar a convivência com o poeta e também com sua então companheira, a poeta Alice Ruiz, e as filhas Aurea e Estrela, que estão em Paraty, Antunes lembrou da sua única parceria musical com Leminski. “Numa dessas visitas, compusemos uma canção chamada ‘UTI’, que foi gravada por uma banda chamada Clínica”, disse, fazendo a plateia rir antes de recitar os versos da música.
Depois disso, o cantor disse ter feito uma “parceria póstuma” com Leminski, ao gravar um poema musicado no seu disco Um som (1998). “Foi minha contribuição para essa discussão enfadonha de se letra de música é poesia”, disse, antes de recitar a letra de “Além alma”.
Arnaldo Antunes encerrou a apresentação recitando — e, para alegria dos fãs, também cantando — “Luzes”, poema de Leminski que gravou no disco Ao vivo no estúdio (2007). A canção, como lembrou, também foi regravada pela banda curitibana Jovem Dionísio e integrou a trilha sonora de Ex-isto, filme do diretor Cao Guimarães livremente inspirado em Catatau.
Acenda a lâmpada às seis horas da tarde
Acenda a luz dos lampiões
Inflame a chama dos salões
Fogos de línguas de dragões
Vagalumes
Numa nuvem de poeira de neon
Tudo claro
Tudo claro à noite, assim que é bom
A luz
Acesa na janela lá de casa
O fogo
O foco lá no beco e um farol
Essa noite
Essa noite vai ter sol
Essa noite
Essa noite vai ter sol.
A 23ª Flip acontece de 30 de julho a 3 de agosto e homenageia o poeta curitibano Paulo Leminski. A edição de 2025 reúne trinta e seis autores convidados na programação principal. Entre os escritores e escritoras da Festa Literária Internacional de Paraty estão Arnaldo Antunes, Caetano Galindo, Gregorio Duvivier, Gaël Faye, Cristina Rivera Garza, Valter Hugo Mãe, Rosa Montero, Ricardo Araújo Pereira, Ilan Pappe, Giovana Madalosso, Astrid Roemer, Sandro Veronesi, Marina Silva, Neige Sinno, Liv Strömquist e GauZ’. Leia mais sobre a Flip 2025.