A cobertura especial d’A Feira do Livro, que acontece de 14 a 22 de junho, é apresentada pelo Ministério da Cultura e pela Petrobras
MINISTÉRIO DA CULTURA E PETROBRAS APRESENTAM
A FEIRA DO LIVRO 2025, Repertório 451 MHz,
Onde os velhos têm vez
Mary del Priore repassa o que mudou ao longo dos séculos na forma como enxergamos o envelhecimento e aponta para um futuro em que os idosos serão a maioria
26jul2025 • Atualizado em: 25jul2025Está no ar o 154º episódio do 451 MHz, o podcast dos livros. Este programa traz a historiadora Mary del Priore em uma conversa sobre seu novo livro Uma história da velhice no Brasil (Vestígio, 2025), em que ela mostra o que mudou na forma de nossa sociedade tratar os idosos ao longo dos séculos. No bate-papo, conduzido pela jornalista Tatiana Vasconcellos, da rádio CBN, a convidada apresenta a percepção sobre a velhice desde os primeiros anos da colonização até hoje, fala de etarismo e dos estereótipos que ainda acompanham os mais velhos e aponta para um futuro em que os idosos serão a maioria.
A conversa aconteceu em junho durante A Feira do Livro 2025, na mesa Envelhecer no Brasil. Transformada em podcast, faz parte da temporada especial do 451 MHz com encontros da quarta edição do festival literário paulistano. O episódio foi realizado com apoio do Ministério da Cultura e tem apresentação exclusiva da Petrobras.
Autora de mais de cinquenta obras e uma referência em estudos sobre a história do Brasil, Mary del Priore partiu de um impulso pessoal para investigar a construção histórica da velhice no país, como revela no episódio.
“Esse livro nasceu de uma dor no joelho e de uma mãe centenária”, conta a historiadora. “Quem teve que cuidar dos seus velhinhos sabe o quanto isso é penoso, como é um longo processo de despedida. A gente vai lembrando daquela pessoa tal como ela foi no passado, e a minha mãe, em particular, foi uma mulher cheia de vida. Me deu uma vontade de escrever sobre esse assunto que eu achava que deveria interpelar os historiadores.”

Ao colocar esse desejo em prática, Del Priore constrói uma narrativa que atravessa muitos séculos, englobando desde os relatos dos primeiros jesuítas que chegaram ao Brasil colônia até os desafios contemporâneos do envelhecimento populacional.
“Muito me impressionou o depoimento dos nossos primeiros jesuítas, que foram excelentes jornalistas e tinham um olhar muito apurado para as nossas tribos originárias”, diz a autora. “Eles fazem questão de dizer que os nossos povos originários não tinham cabelo branco, que eram homens fortes, que eram capazes de percorrer caminhando as florestas”, ela ressalta. “Havia uma força física nesses homens [os idosos indígenas] que impressionava muito os padres jesuítas.”
No centro da história
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Segundo Mary del Priore, os registros revelam também o papel central dos idosos nas comunidades. “Até meados do século 19, os nossos antepassados, enquanto eles puderam, tiveram uma enxada nos ombros, foram buscar lenha no mato, foram caçar, as mulheres indo buscar água carregando o balde pesado”, relata ela ao destacar que os mais velhos continuavam ativos e importantes para a sociedade até seus últimos anos de vida. “A velhice era algo inevitável. O que preocupava as pessoas não era envelhecer, era em primeiro lugar ficar de pé até o fim, poder trabalhar.”
A resistência física, diz a autora, vinha de uma combinação de fatores que hoje parece quase exótica, principalmente nas grandes cidades: ar puro, água limpa, alimentação simples e trabalho. Essas condições, ela aponta, não estão mais amplamente disponíveis na modernidade. “Nós temos muitos remédios, temos muitos hospitais, temos muita fisioterapia, mas não temos nem água limpa e nem ar puro [para todos]”, exemplifica.
Grandes mudanças
Durante a conversa, a historiadora ainda conta que, na segunda metade do século 19, a percepção da velhice começou a passar por transformações culturais profundas. Primeiro, a figura do velho que era sinônimo de sabedoria é substituída pela do patriarca. “Dom Pedro Iº se cercou de velhos. Dom Pedro II, que havia crescido entre velhos, vai optar por estar cercado de jovens envelhecidos”, diz Mary del Priore. “Todos se trajavam de ternos escuros, procuravam usar óculos, não sorriam.”
A historiadora lembra também que os anos 20 e 30 do século seguinte marcam o início de uma cisão geracional. “É quando começamos a ouvir palavras como ‘jovem’, ‘mocidade’, ‘moço’. Na Semana de Arte Moderna de 1922 e na turma dos intelectuais de São Paulo, Mário de Andrade dizia ‘vamos fazer a nova literatura’. Era a jovem literatura contra a velha literatura.”
Já na década de 60, a ruptura se intensifica com a revolução sexual e a ditadura, quando o ideal de juventude se mistura com o da oposição aos militares. “Surgem palavras como ‘coroa’, ‘véia coroca’, ‘véio babão’. Esse é o repertório dessa juventude para aquelas pessoas mais velhas, que eles identificavam com a crise econômica, falta de oportunidade e o regime militar.”
Futuro da velhice
Por fim, a historiadora destaca que o envelhecimento é um tema importante no Brasil atual, já que em poucas décadas os idosos serão maioria na sociedade brasileira. Com essa perspectiva, ela critica o que considera eufemismos para descrever essa fase da vida, defendendo que o termo “velho” deixe de ter qualquer carga negativa.
“Acho obscenas essas palavras que hoje são utilizadas para descrever esse momento da vida da gente, que pode ser muito pleno, mas também é cheio de sofrimentos, a começar pelas pessoas que perdemos nessa idade. ‘Envelhescência’, ‘feliz idade’, acho tudo isso uma grande bobagem.”
Livros do episódio
Veja abaixo a lista de livros que aparecem nesta edição do 451 MHz, incluindo os títulos lançados pela convidada e outras leituras recomendadas:

Uma história da velhice no Brasil, de Mary del Priore (Vestígio, 2025).
Histórias da gente brasileira, de Mary del Priore (Leya, 2016-2017, três volumes).
História das mulheres no Brasil, org. de Mary del Priore (Contexto, 2004).
História das crianças no Brasil, org. de Mary del Priore (Contexto, 1997).
História da alimentação no Brasil, de Luís da Câmara Cascudo (Global, 2023).
Mais sobre a convidada
Mary del Priore é historiadora com pós-doutorado pela École des Hautes Études en Sciences Sociales, em Paris. Lecionou história do Brasil colonial na USP e na PUC-RJ, e é autora de mais de cinquenta livros, muitos deles premiados, como História das mulheres no Brasil e História das crianças no Brasil (Contexto), ambos vencedores do prêmio Casa-Grande & Senzala. Também recebeu o Prêmio Jabuti e foi eleita, em 2022, para a Academia Paulista de Letras. É sócia honorária do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro e colabora regularmente com jornais e revistas no Brasil e no exterior.
Temporada especial
Em julho, mês em que completa seis anos no ar, o 451 MHz publica uma temporada especial de quinze episódios com mesas que fizeram sucesso n’A Feira do Livro 2025. Ou seja, a cada dois dias, até 1º de agosto, um episódio novo do podcast dos livros vai ao ar. Saiba mais aqui.
O 451 MHz é uma produção da Associação Quatro Cinco Um.
Apresentação: Paulo Werneck
Produção: Beatriz Souza e Mariana Franco
Edição e mixagem: Fabio Teixeira
Identidade visual: Quatro Cinco Um
Apoio: Ministério da Cultura
Apresentação exclusiva: Petrobras
Para falar com a equipe: [email protected]
A Feira do Livro 2025 · 14 — 22 jun. Praça Charles Miller, Pacaembu
A Feira do Livro é uma realização do Ministério da Cultura, por meio da Lei Rouanet – Incentivo a Projetos Culturais, Associação Quatro Cinco Um, organização sem fins lucrativos dedicada à difusão do livro e da leitura no Brasil, Maré Produções, empresa especializada em exposições e feiras culturais, e em parceria com a Prefeitura de São Paulo.
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