'Cocinha alpina', 1918, de Ernesto Ludwig Kirchner. Óleo sobre tela (Reprodução)

Onde Queremos Viver,

Querido Flaubert

Ironicamente, um autor passa a ser o próprio tema assim que se empenha como o francês a não o ser

29jul2025 | Edição #96

“Muito projectivas”, decretou um falecido galerista sobre as minhas imagens, examinando-as sem pressa. “Não as consigo vender.” Apreciei o seu tacto. Rejeitou­-as apelando a uma qualidade. E, suspirando, pensei na frase de Schlegel. “Maneiras são arestas características.” Ser rejeitado (nestes termos, numa galeria) é fazerem-te ver este facto. A tua cara não tem valor de troca.

E a tua, Flaubert? Um autor, insistes, deve estar na sua obra como Deus no universo. “Presente em toda a parte, visível em lado nenhum.” A figura do autor não deve portanto ter prioridade sobre a criação, há algo de irritante quando se torna o seu tema, ou um defeito qualquer quando fica demasiado à vista. Ironicamente, um autor passa a ser o seu tema assim que se empenha tanto como tu por não o ser. É a consequência metodológica de uma certa nostalgia da omnipresença e omnipotência. Não que Deus seja o tema da criação, ideia talvez herética. A nostalgia do controlo absoluto, essa inveja de Deus, na história literária, é um equivalente profano da função, nas religiões, da devoção pelo Criador. O culto da forma é um altar a si mesmo, meu caro amigo.

E já agora, no teu admirável esquema, qual a relação de Deus com a criação? É a criação a fisionomia de Deus, tal como me disse o galerista, ao olhar para minhas imagens, que eram imagens à minha imagem? No fim de contas, é a obra de Deus.

As tuas imagens, se forem imagens realmente tuas, têm a tua cara, por muito que te apagues da imagem. Têm-na no mesmo sentido em que a cara de alguém é a sua cara, e nenhuma outra pessoa tem essa cara. O amadurecimento das formas de arte lembra por isso a vida animal, visto que não acontece sem a ocorrência de certas doenças da idade, algumas hereditárias, como a singularidade acima de tudo, a originalidade-über-alles. Não há artista moderno que não me lembre a vez em que o meu querido avô, a meses de morrer, apareceu à família de cabelo pintado. É no rosto dele que penso quando penso em ti, tio Gustave.

As tuas imagens, se forem realmente tuas, têm a tua cara, por muito que te apagues

E repara: a nossa própria cara, não a criamos. (Podemos, na melhor das hipóteses, desfigurá-la.) E o facto de que se tem uma cara, isso não é uma escolha. E não se é responsável pela fisionomia da própria obra. Nada nos impede de imaginar um Deus insatisfeito com a sua fisionomia. Mas isso quereria dizer ou que não falamos de um Deus todo-poderoso, ou que Deus, seguindo um conselho de Wittgenstein, se resigna diante da Sua fisionomia, aceitando-a tal como é. Queres saber com que se parece Deus-para-a-criação? Aceita a cara que te calhou.

E então revejo uma expressão de perplexidade no rosto da minha mãe, há tantos anos, vendo-me fotografar. (Fotografava a campa do meu avô, em Dia de Finados.) Que via ela?

Não, um autor não deve estar na sua obra como Deus na criação. Deve estar como Ana Maria em relação ao filho. Incrédula, hospitaleira, guardando censuras e juízos; orgulhosa, apesar das fraquezas dele; apreensiva, apesar dos sucessos; sem saber bem o que é e para que serve a sua vida; triste nas partes tristes; feliz se o vê feliz — e até as suas caras se parecem.

Se existir Deus no universo, talvez seja assim.

Quem escreveu esse texto

Humberto Brito

É escritor, ensaísta e fotógrafo

Matéria publicada na edição impressa #96 em agosto de 2025. Com o título “Querido Flaubert”

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