Onde Queremos Viver,
De noite
É na quietude, neste silêncio animado e humano, que sinto que não sei o que procuro
29jul2025 | Edição #96Se te disser que na quietude da noite enquanto, escrevendo no quarto, murmuras as sílabas que vais teclando no teclado, e ouço os intervalos hesitantes dos teus dedos e o ciciar das palavras que escreves e pensas escrever, se te disser que a tua presença no quarto ao lado, nesse intervalo do serão em que nos separamos para escrever, e ouço as conversas dos vizinhos de cima, abafadas pela placa de betão que nos separa, sem saber bem se são os de cima, se os de baixo, às vezes, alguém abre uma torneira, escrevo e vou ouvindo os meus dedos sobre as teclas, interrompido nos momentos em que me interrompo para ouvir os teus dedos nas teclas, nestes instantes, cortados por um cão que ladra na escada, pelo rugido de um carro passando na rua, a sala ainda quente do cozinhado que comemos ao jantar, neste silêncio animado e humano, é quando sinto que não sei o que procuro.
Nos últimos treze, catorze anos, não tenho feito senão procurar esse ente sinuoso
Uma criança solta risinhos noutra casa, são momentos em que estou atenta a tudo, ouço os teus pés no soalho, quando os mudas de posição, debaixo da secretária, o som de um talher sobre um prato, ao longe, o som do rato do teu computador a seleccionar uma pasta, olho os candeeiros, a luz sobre os vidros das molduras, escrever como quem faz desenho à vista, sinto o cheiro do meu corpo, resto de perfume, levemente azedo, ouço passos, os carros cruzam a rua num compasso quase disciplinado, tudo está estático dentro de casa, apesar da ventania na rua, quem serão os nossos vizinhos, sobre que conversarão?
A porta do prédio bate seis andares abaixo, o elevador arranca, diante de mim os livros estão arrumados por cores, a maioria são brancos e pretos, quando foi, pergunto-me, situada neste anel seguro, tranquilo, quando terei perdido isso que procuro incessantemente, como se a cada instante na vida me faltasse alguma coisa, alguém arrasta uma cadeira, vivo cada dia como se tivesse deixado cair do bolso uma pedra preciosa, em busca incessante, às vezes mesmo desesperada, e quando me pergunto que coisa é essa que me falta, não uma parte de um mecanismo outro, estranho à minha pessoa, mas uma parte do mecanismo que sou, é mais parecido com procurar por uma mão ou um nariz perdidos, do que com procurar uma chave, mais como andar pelo mundo à procura do próprio coração do que com andar à procura de um número numa rua aonde se vai pela primeira vez.
Que coisa será, se não sei o que é, como poderei encontrá-la, se da coisa tenho apenas a energia que me lança no abismo da procura e a certa frustração de que, falhando na procura, falho na vida, sem saber se é parecida com uma semente, alguma coisa no meu âmago, que me falta e sem a qual não opero, se é parecida com um adereço. sei que nos últimos treze, catorze anos, não tenho feito senão procurar esse ente sinuoso, sim, um ser e não um objecto ou quem sabe uma finalidade cujo encontro teria o poder de me lançar na paz, então procuro, escavo, sem saber se o reconheceria se o visse, procuro-o procurando casas, procurando empregos, lendo notícias, olhando o chão que piso, como à espera de dar com ele como se dá com um desaparecido, e dedico-me a todas as pesquisas com a mesma avidez, com o mesmo sentido de missão pateta de um soldado que jurou bandeira numa república feita de bonecos de madeira.
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Matéria publicada na edição impressa #96 em agosto de 2025. Com o título “De noite”
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