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A cobertura especial d’A Feira do Livro, que acontece de 14 a 22 de junho, é apresentada pelo Ministério da Cultura e pela Petrobras

MINISTÉRIO DA CULTURA E PETROBRAS APRESENTAM

A FEIRA DO LIVRO 2025, Repertório 451 MHz,

Adolescência em risco

Luciana Temer, Lola Aronovich e Juliana Borges debatem os riscos do ambiente digital para meninos e meninas e caminhos para protegê-los dos discursos de ódio na internet

22jul2025

Está no ar o 152º episódio do 451 MHz, o podcast dos livros. Neste programa, a advogada Luciana Temer, a professora Lola Aronovich e a escritora Juliana Borges se reúnem para discutir os perigos do ambiente digital para crianças e adolescentes e como protegê-los dos discursos de ódio de comunidades virtuais diante da onipresença do celular e da internet no mundo atual. 

A conversa aconteceu em junho durante A Feira do Livro 2025, na mesa Adolescência, e teve mediação da jornalista Luka Franca. Transformada em podcast, faz parte da temporada especial do 451 MHz com encontros da quarta edição do festival literário paulistano. O episódio foi realizado com apoio do Ministério da Cultura e tem apresentação exclusiva da Petrobras.

Tendo como ponto de partida a série de sucesso Adolescência (Netflix, 2025) — que narra o caso de um garoto inglês de treze anos acusado de assassinar uma colega de classe depois de se envolver com comunidades digitais misóginas, sem que sua família o professores tenham conhecimento disso —, a discussão trata do problema sob diferentes aspectos.

Presidente do Instituto Liberta, dedicado ao combate da violência sexual contra crianças e adolescentes no Brasil, a advogada Luciana Temer faz inicialmente um alerta importante: é preciso desfazer a ideia de que o lar é um espaço de segurança. 

“A casa nem sempre é, contrariamente ao que a gente gostaria, o lugar mais seguro da criança. Como é que um pai e uma mãe monitoram uma criança dentro de casa?”, questiona ela, se referindo aos momentos em que os meninos e meninas estão imersos no mundo digital. 

Cada vez mais comum, esse tipo de situação exige dos adultos uma mudança urgente de perspectiva, diz Luciana Temer. “Essa geração Z, pós-2015, vive este mundo virtual como se fosse o mundo real. É a mesma relação. E nós, mais velhos, não sabemos o que é isso. Sim, o seu filho e sua filha não estão seguros porque estão no quarto. E você [que é pai ou mãe] precisa entender em que mundo ele [ou ela] está”, ressalta a especialista.

Juliana Borges, Lola Aronovich e Luciana Temer n’A Feira do Livro (Flavio Florido)

Um dos maiores perigos hoje em dia é justamente a interação dos adolescentes com comunidades que reproduzem discursos de ódio, como acontece na série da Netflix. A professora Lola Aronovich, da Universidade Federal do Ceará (UFC), foi uma das primeiras a falar sobre grupos misóginos organizados na internet, o que lhe rendeu incontáveis ameaças. Por conta de sua atuação, a Lei 13.642/2018, que atribui à Polícia Federal a investigação de crimes praticados na internet com conteúdo misógino, recebeu o apelido de “Lei Lola”. 

Na conversa, Aronovich afirma que a misoginia tem servido como porta de entrada para adolescentes em redes de radicalização. “Muitos meninos são atraídos por essa misoginia, por esse machismo, em uma comunidade. E aí ele vai, aos poucos, sendo recrutado para fazer outras coisas. Mas o que eles têm em comum, geralmente, é o machismo. Esse é o denominador comum”, diz.

Regulação das plataformas

Aronovich chama atenção para o papel das plataformas digitais nesse cenário e defende que elas precisam ser responsabilizadas. “Os caras são remunerados por fazer discursos contra mulheres, pessoas negras e outros grupos. A plataforma indica esses conteúdos para as pessoas. Quem combate esse discurso não pode ser monetizado, mas quem propaga esse discurso é monetizado. Essas plataformas têm que ser reguladas, porque são uma ameaça à democracia”, afirma.

Temer diz que a regulação das plataformas é essencial para proteger as crianças e adolescentes. Para ela, é praticamente impossível que pais, mães e educadores evitem que os jovens entrem em contato com conteúdos potencialmente perigosos.

“Não há família boa o suficiente, não há escola boa o suficiente que vá ter força para enfrentar o nível de captação e de conexão que essas plataformas, que a internet, estão tendo com os nossos jovens, com as nossas crianças e nossos adolescentes. Então, temos que falar de regulação, temos que falar de verificação etária, temos que falar de retomar o controle dessa história”, defende.

Nova sociabilização

Já a escritora Juliana Borges, que é também colunista da Quatro Cinco Um, chamou atenção para como a realidade digital alterou profundamente as formas de socialização na adolescência. “Às vezes eu e minhas amigas sentávamos em uma praça e dávamos uma volta no quarteirão, sabe?”, lembra. “Agora, a sociabilidade foi toda mediada pelas plataformas digitais, pelo espaço da internet, que, pelo que estamos discutindo aqui, não tem nada de mediado.”

Ela também destaca como o esgotamento de adultos e professores dificulta a identificação de sinais de alerta entre adolescentes. “Não temos tempo, todos nós estamos exaustos”, diz. “Não conseguimos perceber alguma mudança que está acontecendo com aquele jovem, com aquela adolescente.” 

Borges também critica a ideia de que a escola, sozinha, possa resolver o problema. “Estamos falando, mais uma vez, de saídas do ambiente escolar sem pensar que precisamos transformar a escola. A escola não pode ser só esse ambiente que achamos que é um depósito dos nossos filhos.”

Para ela, a sociedade precisa rever os modelos masculinos nos quais os meninos estão se espelhando. “Que tipo de masculinidade é essa que estamos produzindo? Não dá para não falar que existe uma crise da masculinidade, sobre o que é ser homem”, afirma. “Vamos ter que lidar com isso, isso é papo nosso também. Acho que os homens têm que se auto-organizar, mas vamos ter que estar nessa conversa também.”

Livros do episódio

Veja abaixo os livros que aparecem nesta edição do 451 MHz e foram recomendados pelas convidadas:

  • A geração ansiosa: como a infância hiperconectada está causando uma epidemia de transtornos mentais, de Jonathan Haidt, traduzido por Lígia Azevedo (Companhia das Letras, 2024).

  • Aconteceu com a minha filha, de Paulo Zsa Zsa (Geração Editorial, 2025).

Mais sobre as convidadas

Lola Aronovich é professora de literatura em língua inglesa na Universidade Federal do Ceará, e, desde 2008, é autora do blog Escreva Lola Escreva, um dos mais conhecidos blogs feministas do Brasil. A Lei 13.642, que atribui à Polícia Federal a investigação de crimes misóginos na internet, leva o nome de Lei Lola em sua homenagem.

Luciana Temer é advogada e professora de direito constitucional na PUC-SP. Atualmente preside a Comissão de Direito Constitucional da OAB-SP. Foi secretária de Juventude, Esporte e Lazer do Estado de São Paulo e secretária de Assistência e Desenvolvimento Social do Município de São Paulo. Há oito anos preside o Liberta, um instituto de comunicação e conscientização sobre violência sexual contra crianças e adolescentes.

Juliana Borges é autora de Encarceramento em massa (Pólen Livros, 2019) e Prisões: espelhos de nós (Todavia, 2020), além de colunista da Quatro Cinco Um. É ainda coordenadora de Advocacy da Iniciativa Negra por uma Nova Política sobre Drogas, diretora de Programas e Articulação Política e fundadora da Kuíra Feminista Instituto, consultora ad hoc da Comissão Permanente de Segurança Pública do Conselho Nacional de Direitos Humanos e consultora da Comissão Permanente de Segurança Pública da OAB-SP.

Temporada especial

Em julho, mês em que completa seis anos no ar, o 451 MHz publica uma temporada especial de quinze episódios com mesas que fizeram sucesso n’A Feira do Livro 2025. Ou seja, a cada dois dias, até 1º de agosto, um episódio novo do podcast dos livros vai ao ar. Saiba mais aqui.

O 451 MHz é uma produção da Associação Quatro Cinco Um.
Apresentação: Paulo Werneck
Produção: Beatriz Souza e Mariana Franco
Edição e mixagem: Fabio Teixeira
Identidade visual: Quatro Cinco Um
Apoio: Ministério da Cultura
Apresentação exclusiva: Petrobras
Para falar com a equipe: [email protected]

A Feira do Livro 2025 · 14 — 22 jun. Praça Charles Miller, Pacaembu

A Feira do Livro é uma realização do Ministério da Cultura, por meio da Lei Rouanet – Incentivo a Projetos Culturais, Associação Quatro Cinco Um, organização sem fins lucrativos dedicada à difusão do livro e da leitura no Brasil, Maré Produções, empresa especializada em exposições e feiras culturais, e em parceria com a Prefeitura de São Paulo.