Ilustração de Luísa Zardo (Divulgação)

Literatura, Trechos,

Crescer em meio à guerra

Em ‘O grande caderno’, Ágota Kristóf narra a história de dois irmãos que enfrentam maus-tratos ao fugir de uma cidade bombardeada durante a Segunda Guerra; leia trecho

21out2024

O grande caderno, romance da escritora húngara Ágota Kristóf (1935-2011), com tradução de Diego Grando, acaba de ser lançado no Brasil pela Dublinense. Publicado originalmente em 1986, é o primeiro título da trilogia completada por A prova e A terceira mentira, que também estão sendo lançados neste mês, pela mesma editora. 

No romance, a autora de A analfabeta (Nós, 2024, trad. Prisca Agustoni) inicia a trajetória dos gêmeos Claus e Lucas, que durante a Segunda Guerra são levados pela mãe à casa da avó, em uma pequena cidade, para que tenham mais chance de sobreviver. Lá, os dois registram em um caderno como enfrentam uma série de maus-tratos e anulam sentimentos e vulnerabilidades. 

Kristóf também é autora de Ontem (Rocco, 1997, trad. Angela Melin), que narra a vida de um operário imigrante em uma fábrica, e recebeu diversos prêmios literários, incluindo o Prêmio Austríaco de Literatura Europeia em 2008 pelo conjunto da obra. 

Confira a seguir um trecho de O grande caderno, que é também o livro de novembro do Clube 451 — todo mês, os assinantes do clube recebem a edição impressa da revista e um título recém-lançado, escolhido pelos editores da revista.

Trecho de ‘O grande caderno’

A criada canta com frequência. Canções populares antigas e novas canções da moda que falam sobre a guerra. Nós escutamos essas músicas e depois imitamos na nossa gaita de boca. Também pedimos ao ordenança que nos ensine canções do país dele. 

Certa noite, bem tarde, quando a Avó já está deitada, nós vamos até a cidade. Perto do castelo, numa rua antiga, paramos em frente a uma casa baixa. Barulho, vozes, fumaça saem de uma porta no final de uma escada. Descemos os degraus de pedra e chegamos num porão que foi transformado em bar. Homens, em pé ou sentados em bancos de madeira e em barris, estão bebendo vinho. Na sua maioria são velhos, mas também há alguns jovens, assim como três mulheres. Ninguém repara na nossa presença.

Um de nós começa a tocar gaita de boca e o outro a cantar uma canção bem conhecida, que fala de uma mulher à espera do marido que voltará em breve, vitorioso, da guerra. As pessoas pouco a pouco se voltam para nós. As vozes se calam. Nós cantamos, nós tocamos cada vez mais alto, nós ouvimos nossa melodia ressoar, reverberar no teto abobadado do porão, como se fosse outra pessoa que estivesse tocando e cantando.

Terminada a canção, nós erguemos os olhos para aqueles rostos cansados e encovados. Uma mulher ri e aplaude. Um homem jovem que não tem um braço diz com uma voz rouca:

— Mais uma. Toquem mais alguma coisa!

Trocamos nossos papéis. Aquele que estava com a gaita de boca a entrega para o outro e

nós começamos outra canção.

Um homem muito magro se aproxima de nós cambaleando, ele grita na nossa cara:

— Silêncio, seus cachorros!

Ele nos empurra com violência, um para a direita, o outro para a esquerda. Nós perdemos o equilíbrio; a gaita de boca cai. O homem sobe a escada se apoiando na parede. Nós ouvimos ele gritar de novo na rua:

— Cala a boca, todo mundo!

Pegamos a gaita de boca do chão e limpamos. Alguém diz:

— Ele é surdo.

Uma outra pessoa diz:

— Ele não é só surdo. Ele é acima de tudo completamente louco. 

Um velhinho faz carinho nas nossas cabeças. Lágrimas correm dos seus olhos fundos, com olheiras escuras:

— Que infelicidade! Que mundo infeliz! Pobres meninos! Pobre mundo!

Uma mulher diz:

— Surdo ou louco, ele voltou. Você também, você voltou.

Ela senta no colo do homem que não tem um braço. O homem diz:

— Tem razão, minha linda, eu voltei. Mas com o que é que eu vou trabalhar? Com o que é que eu vou segurar a tábua para serrar? Com a manga vazia da minha jaqueta?

Um outro homem jovem, sentado num banco, diz, rindo: 

— Eu também voltei, só que estou com a parte de baixo paralisada. As pernas e todo o resto. 

Nunca mais vou ficar duro de novo. Eu preferia ter batido as botas imediatamente, sabe, ter ficado por lá, de um só golpe.

Uma outra mulher diz:

— Vocês nunca estão contentes. Os que eu vejo morrer no hospital, todos eles dizem: “Não importa o meu estado, eu queria sobreviver, voltar para casa, ver minha mulher,

minha mãe, do jeito que for, viver um pouco mais”.

Um homem diz:

— Você, fique quieta. As mulheres não viram nada da guerra.

A mulher diz:

— Não viram nada? Cretino! A gente fica com todo o trabalho, toda a preocupação. As crianças para alimentar, os feridos para cuidar. Vocês, assim que a guerra termina, são todos heróis. Morto: herói. Sobrevivente: herói. Mutilado: herói. Foi para isso que vocês inventaram a guerra, vocês, os homens. É a guerra de vocês. Vocês que quiseram, então vão lá, heróis de meia-tigela!

Todos começam a falar, a gritar. O velhinho perto de nós diz:

— Ninguém quis essa guerra. Ninguém, ninguém.

Saímos do porão. Decidimos voltar para casa.

A lua ilumina as ruas e a estrada poeirenta que leva até a casa da Avó.