A escritora Bethânia Pires Amaro (Melina Amaro Knolow/Divulgação)

Literatura brasileira, Trechos,

As marcas de uma herança

Primeiro romance de Bethânia Pires Amaro atravessa gerações de mulheres baianas marcadas por partidas e recomeços

20abr2026 • Atualizado em: 27abr2026

Romance de estreia de Bethânia Pires Amaro, vencedora dos prêmios Jabuti e Sesc de Literatura pelo livro de contos O ninho, lançado pela Record em 2023, Ressalga chega às livrarias brasileiras esta semana pela mesma editora. A escritora nasceu em Pernambuco, cresceu na Bahia, onde se formou em direito, e se mudou para São Paulo, onde vive atualmente.

No livro novo,  aautora conta a história de três gerações de mulheres baianas de uma mesma família que, por razões distintas, precisam abandonar seus territórios. A narrativa toca em temas como a ancestralidade e a liberdade feminina, mostrando como algumas heranças são poderosas marcas na história de uma família. Leia um trecho:

Trecho de Ressalga

A primeira vez que se deparou com o Paraguaçu, a minha avó pensou que mais um pouco inundaria a casa, por isso foi sem surpresa que, quando a chuva desceu, viu o rio subindo, subindo, avançando até pular a mureta e derrubar os bancos e as cadeiras, chegando enfim à parede e desenhando ali uma marca trêmula, um palmo acima do chão. Januário furioso, a água invadindo o galpão das carrancas, ele afundando os chinelos para atravessar o quintal, ela observando o azul transbordar pelas margens, mas que porra de rio filho da puta, enquanto a minha avó descobria que havia encontrado lugar de pouso, uma paz tão poderosa que amoleceu os braços, não teve forças para mais nada, ficou lenta e frouxa diante daquela abundância, somente quando Januário voltou, os troncos pesados nas costas, ela despertou de si e correu a encher de panos os vãos das portas. Tocou então a parede, de um lado seu corpo magro e castigo da seca, do outro a massa de vento levantando o rio, com trovões e tudo, uma tempestade como nunca vista em toda a Bahia, um espetáculo de violência que era milagre aos olhos de Janaína e catástrofe na boca de Januário, aos gritos com a madeira molhada nas mãos.

Quando a minha avó chegou em casa de Januário, tinha já seus dezesseis anos e alguma experiência de estrada. Desse tempo falava pouco, das picadas que seguia sozinha ou na companhia de outros, dois caminhões na bê-erre e dos pedidos de favores, das jacas assando nas bancas montadas nos acostamentos, com as entranhas expostas, por meses viveu apenas de gomos de jaca, pegajosos e doces, cheirando forte nos bolsos. Logo em Caculé desgarrou-se do grupo porque uma mocinha havia tentado roubar a santa enquanto Janaína dormia, uma estátua daquelas valia alguns pratos e ali estavam sempre com fome, assentou-se nos arredores onde precisavam de lavadeiras, chegavam os burros com os sacolões de lençóis e as roupas de baixo de algumas senhoras, uma vida mansa, junto das águas, ainda que tossem as margens castanhas do rio do Antônio, que secava durante os meses sem chuva, um rio magrinho que ainda assim impressiona Janaína ao ajoelhar e encher as mãos de sabão, esfolando os dedos contra as pedras, ouvindo o lamento das mulheres antigas, lavadeira, lavadeira, vou cantar minha tristeza, uma lamúria infernal, por isso à noite minha avó seguia para os bares, onde tocavam um baião decente e um pouco de forró. Agarrava-se a algum sedutor para curtir e ganhar uma ou outra dose de cachaça, o que às vezes ainda rendia uma boa foda, de vez em quando, no mais das vezes eram somente fodas razoáveis, algumas até medíocres, mas que de qualquer forma aplacavam o estômago e a solidão. De início escolhia homens que a lembravam do padre João, depois foi diversificando, já não se importava se eram altos, fortes, bonitos, qualquer um servia desde que ela os escolhesse, se tentassem forçá-la arreganhou os dentes e quebrava garrafas e arrancava os cabelos, chegou a mor der e a ferir alguns antes que a fama se espalhasse, ganhou também dois dentes partidos e uma surra que a deixou sem andar direito, um pouco manca até morrer, mas jamais deitada sem seu consentimento, isso nunca, nem os homens faziam tanta questão, rodada e esquelética como ela era, os dedos corroídos pela soda cáustica do sabão de bola.

Quando se cansou das oscilações do rio do Antônio, seguiu para o rio de Contas, pelas bandas de Jequié, no lombo de um pau de arara, depois Ipiaú, Ubatã, Ubaitaba uma série de cidades que o governo mandara renomear em tupi-guarani, no início da década, e que acabavam chamadas pelos nomes errados a depender de quem falava, se era jovem ou se era velho, uma confusão de caminhos e palavras unidos pelo rio com jeito de cobrar, uma sucessão de bares e forrós com homens pouco memoráveis, de copinhos de cachaça e mandioca frita com carne-seca para forrar o bucho. A santa seguia debaixo do braço, enrolada na toalha manchada, apenas quando tinha certeza de estar sozinha Janaína a descortinava, deixando-se contemplar os olhinhos azuis e o leve sorriso, uma companhia doce para as tardes de verão, para os dias longos e quentes, diante da santa murmurava as suas preces e os anseios da alma, as liberdades e os sonhos de retornar para casa, mulher feita e senhora de posses, para às vezes exercer sua vingança contra todos que a acusaram, outras vezes para provar sua bondade com um perdão magnânimo, embora as duas coisas fossem igualmente impossíveis, já que não sabia voltar, perdida no emaranhado de cidades com múltiplos nomes, e sem poder voltar só havia como seguir adiante, pelo leito do rio, aproximando-se das lavadeiras locais e pedindo serviço, nunca faltavam roupas para lavar.

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