Trechos,
A responsabilidade por uma tragédia
Romance de Vincent Delecroix finalista do International Booker Prize reflete sobre omissão em morte de 27 imigrantes no canal da Mancha
18jun2026 • Atualizado em: 17jun2026Finalista do International Booker Prize em 2025, O naufrágio chega às livrarias brasileiras pela Record, com tradução de Karina Jannini. O romance de Vincent Delecroix é baseado numa história real ocorrida em novembro de 2021, quando a morte de 27 imigrantes que viajavam em um bote no Canal da Mancha provocou debates sobre quem seriam os responsáveis pela tragédia.
A partir do ponto de vista da oficial da Marinha francesa que atendeu aos chamados de emergência das vítimas e respondeu que a jurisdição seria do Reino Unido, o livro mergulha em dilemas de culpa e responsabilidade, usando da situação para analisar dilemas morais. Leia um trecho:
Trecho de O naufrágio
Eles tentam te atrair para lá, a voz deles ao telefone é como um arpão que tenta se enganchar em sua imaginação para capturar você. Essa voz é o canto das sereias; por isso, é preciso resistir e tapar os ouvidos. É preciso dizer a si mesmo Você não vai me pegar com suas palavras, com seu choro e suas súplicas. Não tente me atrair para perto de você, não tente me fazer conhecer seu rosto, não preciso conhecer seu rosto, não quero vê-lo, nem o dos que estão ao seu redor, não quero imaginar a menina junto a você, não quero ver a água. Me dê apenas a sua geolocalização e pronto, você terá seu barco de salvamento. De que adiantaria eu estar aí, tirando água do barco ao seu lado e gritando de terror como a sua esposa? Se quer que eu te ajude, preciso ficar em terra firme. Então pare de falar e de me dizer que está com medo.
Mas eles precisam falar. E os chiados da comunicação, a linha que cai a todo instante, as palavras inaudíveis, o ruído de fundo, pode-se pensar que tudo isso é mantido à distância. Mas é exatamente o contrário, e diríamos que a voz deles chega diretamente às vísceras sem passar pelos ouvidos e pela mente. Então, felizmente, após um momento, você compreende que não deve se deixar atrair e precisa permanecer na costa, em vez de se lançar feito um imbecil na água para socorrê-los. Ou então elevar-se bem alto e olhar tudo a partir do céu da tela do radar, e de lá de cima o mar não passa de uma superfície preta e uniforme, mergulhada em uma noite eterna, mas sem turbulências, e tudo o que vemos são apenas pequenos pontos luminosos que se deslocam aos solavancos nas rotas marítimas que sobem e descem, pequenos quadrados e pequenos triângulos que se acendem e se apagam, que arrastam seu segmento de direção como a cauda das estrelas cadentes e que às vezes desaparecem. Em todo caso, dessa altura já não se corre o risco de ver casacos impermeáveis apertados uns contra os outros nem crianças vomitando e chorando, e é mais ou menos o que deve ver o bom Deus lá de cima, o mundo para Ele é uma tela de radar com linhas retas, pontilhados e quadriláteros, só que Ele não faz nada, não envia resgate, deixa o barco afundar
aliás, é mais ou menos o que fiz
mas, curiosamente, quando se trata do bom Deus, que, pelo que me consta, dispõe de recursos muito mais importantes que a Marinha nacional, ninguém parece achar escandaloso; no entanto, pode-se muito bem dizer que aquela gente, naquele momento, à deriva no mar, em plena noite, está muito mais nas mãos Dele do que nas minhas.
Seja como for, a certa altura, a gente aprende a relativizar, e a imaginação perde o fôlego sozinha, e ainda bem, pois é nesse momento que a gente realmente se torna eficiente, ou seja, como deve ser. Mas quem olha isso de longe ainda exige que a gente tenha lágrimas nos olhos, como se enxergássemos melhor as trajetórias com os olhos cheios de lágrimas; querem que a gente demonstre humanidade; aliás, suponho que, além de tudo, por eu ser mulher, deveria manifestar uma sensibilidade, uma humanidade e, por que não, uma maternidade extras: afinal, tenho uma filha pequena. Eu deveria tranquilizá-los e, por que não, mimá-los e, por que não, cantar uma canção de ninar enquanto o mar os embala antes de os engolir. De resto, no fim das contas, não deixei de fazer isso: disse a eles, repeti que o resgate estava a caminho.
Mas era mentira.
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