A escritora Jen Beagin (Franco Vogt/Divulgação)

Trechos,

A obsessão inquietante de ‘A Suíça’

Jen Beagin estreia no Brasil com uma história sobre limites e desejo

30mar2026

Novidade nas livrarias brasileiras, o internacionalmente aclamado A Suíça, da romancista Jen Beagin, ganha edição da HarperCollins Brasil. Primeiro livro de Beagin publicado no país, o romance terá uma adaptação produzida pelo canal HBO e estrelada por Jodie Comer.

A trama acompanha Greta, responsável por transcrever gravações de áudio de sessões de terapia. Durante esse trabalho, fica obcecada por uma paciente misteriosa que apelida de “a Suíça”. A situação se intensifica quando ela reconhece o som da voz dessa mulher e decide se apresentar, levando a fixação a outro nível. 

Leia um trecho a seguir. 

Trecho de A Suíça:

Como técnica em farmácia, Greta tinha passado dezoito meses trabalhando no depósito de uma farmácia que vendia remédios por correspondência, separando as receitas à mão. Warfarin, um anticoagulante, era o remédio com o qual ela mais lidava, mas havia cerca de uma dúzia de outros tabletes, normalmente versões genéricas de remédios populares, e ela terminava o turno coberta de poeira farmacêutica. Não levou muito tempo para todo tipo de poeira começar a parecer poeira de comprimido, em especial a poeira amarelo-clara da hidrocodona de dez miligramas. Ela ficou convencida de que conseguia ver partículas flutuantes na zona de respiração pessoal (ZRP) das pessoas. Via poeira de comprimido em carpetes, espelhos, telas, suéteres. Lá estava ela de novo, espalhada por cima da pipoca no cinema. Mesmo um bom tempo depois de ela ter deixado o depósito, continuava a notar poeira de comprimidos em todo lugar aonde ia.

Nesse momento, Greta via transcrições. As transcrições pertenciam aos clientes de Om e apareciam sempre que ela pisava no Catedral, o café mais popular da cidade. O lugar tinha uma acústica perfeita e estava sempre lotado com os clientes de Om, porque o consultório dele ficava logo acima. Greta sempre ouvia pelo menos uma voz conhecida. Ela não conseguia se lembrar da transcrição inteira, óbvio, já que eram bem longas, mas, se fechasse os olhos e se concentrasse, a memória era boa o suficiente para evocar várias páginas.

Em poucos minutos, da mesa em que estava esperando por Om, ela reconheceu a voz sonolenta do homem sentado ao lado. Não o conhecia pessoalmente, mas um pedaço da transcrição dele lhe veio enquanto ela esperava seu café americano. As iniciais dele eram AAG, e ele estava tendo um caso com a cunhada. Eles se encontravam em quartos de hotel pela cidade, mas nesse momento o homem estava conversando com a esposa, imaginava ela, e segurando a mão dela. Como a maior parte das pessoas no Hudson, eles eram mais bonitos que a média e estavam vestidos como fazendeiros chiques.

OM: O que é especial na Tamara? O que ela tem que sua mulher não tem?

AAG: Nós odiamos as mesmas coisas 

OM: Tipo?

AAG: Jogos de tabuleiro, azeite trufado, realismo fantástico, Harry Potter, política, crianças pequenas, idosos, gente que ama macarrão com queijo, scat…

OM: Scat?

AAG: Aquela coisa que cantores de jazz fazem. Parece banal, eu sei, mas eu nunca tive tanta coisa em comum com alguém.

OM: O que vocês fazem juntos?

AAG: Você já ouviu falar em comer o ortolan?

OM: Não.

AAG: É um antigo rito de passagem entre gastrônomos franceses. Os ortolans são passarinhos pequenos e raros. O chefe os captura, afoga em Armagnac e assa inteiros. Então o pássaro é comido, os pés primeiro, incluindo os ossos, com um guardanapo de linho colocado sobre a cabeça da pessoa, para reter os aromas e, reza a lenda, para se esconder de Deus.

OM: É isso que você faz com Tamara?

AAG: Não, mas é assim que eu chupo a boceta dela.

OM: Afogando em Armagnac?

AAG: Com um guardanapo sobre a minha cabeça.

Greta sorriu sem querer para a esposa, a quem estava encarando como uma maníaca. A mulher devolveu o sorriso. Então AAG olhou para Greta e sorriu para ela também. Greta fechou a cara para ele e olhou para o próprio celular, envergonhada.

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