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Transcrição: Fernando José de Almeida no podcast 451 MHz
Leia a transcrição do episódio #211 do 451 MHz, uma conversa com o autor do ensaio Elogio à saudade sobre como a morte precoce da filha o ajudou a enfrentar a dor e transformá-la em beleza
28set2026Nesta edição, o filósofo e educador Fernando José de Almeida fala sobre luto, fé e como a escrita pode ser usada para lidar com a dor. Ele é autor de Elogio à saudade (Seja Breve), ensaio afetivo sobre a morte da filha, a documentarista e pesquisadora Lorena Almeida, que se suicidou em 2023, aos 43 anos. Ouça a seguir e saiba mais aqui.
Leia a transcrição:
Paulo Werneck [PW]:
Oi. Está começando o episódio #211 do 451 MHz, o podcast para quem lê até com os ouvidos. Eu sou o Paulo Werneck, editor da revista Quatro Cinco Um. Toda sexta-feira, a gente conversa aqui com autores, críticos e leitores sobre os livros mais legais que acabaram de ser publicados no Brasil.
Fernando José de Almeida [FJA]:
O luto é a ideia de lutar contra uma força poderosa que é o sentimento da perda. Ele dá uma rebordosa na gente, revira a gente do avesso. Todo o processo íntimo da gente, os projetos intestinos da gente, eles são completamente mudados de lugar. Ora, a ideia do luto é a ideia de aquilo que a gente manifesta de sentimento. O luto é a manifestação do sentimento de luta.
PW:
Essa voz que você acabou de ouvir é do Fernando José de Almeida. Eu já vou te falar um pouquinho mais sobre ele, mas antes eu preciso te avisar que esse episódio é realizado com o apoio da Lei Rouanet.
PW:
O Fernando José de Almeida é filósofo, educador e escritor. No episódio de hoje, a gente publica a emocionante conversa que ele teve com o jornalista e psicanalista Robinson Borges no último dia d’A Feira do Livro 2026, lá no Pacaembu. Numa mesa que levou a plateia lotada às lágrimas, o Fernando falou da dor inominável de perder a sua filha, Lorena.
Ele, que é ex-seminarista, falou sobre como a fé dele acabou sendo abalada depois da morte da Lorena, e também sobre como escrever foi terapêutico nesse processo de luto. Não por acaso, o ensaio Elogio à saudade, que ele publicou para a editora Seja Breve em maio de 2026, foi o livro mais vendido da Travessa, a livraria oficial d’A Feira do Livro, ao longo dos nove dias do festival. Isso porque ele falou no último dia, né? Foi uma conversa bonita, emocionante e que vale a pena ouvir.
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E no final desse episódio, você vai poder descobrir qual foi o livro que marcou a vida da escritora Cidinha da Silva no quadro Livro Marcador.
Então vamos lá para a primeira parte da conversa do Fernando José de Almeida com Robinson Borges.
Robinson Borges [RB]:
Boa tarde a todas e todos. Muito obrigado pela presença de vocês, tão calorosa aqui no palco da praça. Queria agradecer também ao Paulo e aos organizadores d’A Feira do Livro de São Paulo, que indubitavelmente já um marco no calendário aqui da cidade. E para mim é um privilégio não só participar desse evento, como poder entrevistar o professor Fernando José de Almeida.
E o tema dessa mesa caminha por um terreno que muitas culturas tentam evitar, mas que me parece incontornável, que é o luto. Acho que para alguns é uma dor que não se nomeia, num tempo que se suspende diante da perda, mas a nossa perspectiva aqui é de um livro escrito de pai para filha. Eu acho que apesar da singularidade dessa abordagem, ela serve de espelho para todos nós. O nome do livro é Elogio à saudade, um ensaio afetivo que o Fernando escreveu a respeito da relação dele com a Lorena, a sua filha, que morreu precocemente.
O Fernando é professor, filósofo, tem uma vasta produção acadêmica, uma referência nos estudos acerca da educação, mas aqui ele apresenta uma faceta literária. Eu acho que o Elogio à saudade tem uma narrativa tão intensa quanto breve — eu faria aqui talvez uma analogia com a própria existência da Lorena —, em que o Fernando se abre sem oferecer respostas prontas, consolos fáceis, mas ele entrega a sua dúvida, o seu choro e a sua insistência em continuar respirando por meio das palavras.
Eu acho que o livro é uma espécie de testemunho de alguém que tenta transformar o real da morte em algo passível de ser compartilhado. Fernando, eu já te disse isso privadamente, mas aqui na frente de testemunhas, é uma grande honra poder entrevistá-lo aqui e acerca de um tema que é tão importante para todos nós, que é como lidamos com a finitude.
FJA:
Agradeço as palavras muito gentis de apresentação, exagerando um pouco alguns dotes que eu aprendi com os meus amigos. Portanto, a fala aqui é de representar um pouco do afeto que se encerra nos peitos de todos nós aqui para construir uma vida melhor.
Agradeço o convite da produção, muito me honrou esse convite. Me honra também a presença da minha editora aqui, Maria Emília Bender, e de todos os amigos, que eu não vou citar agora, porque teria o tempo tomado no nosso trabalho. Eu agora me coloco à disposição para que haja algumas perguntas para eu poder embalar no meu trabalho aqui com vocês.
RB:
Fernando, como o Paulo mencionou, você é autor de outros livros, são oito livros, mais ou menos, que você escreveu, mas Elogio à saudade é de uma outra ordem. A pergunta que eu queria encaminhar é: em que medida esse livro foi uma forma de você lidar com o sofrimento da perda da Lorena e transformar isso em criação, arte e laço social? Na psicanálise, a gente chamaria isso de sublimação, um destino possível ou alguma possibilidade de destino para a forma como lidamos com a profundidade da dor, na maneira como ela marcou em você.
FJA:
Nós ensaiamos essa pergunta, então fica mais fácil para criar um diálogo. Os mecanismos de defesa, como a sublimação, são uma defesa do ego para não sofrer e não ir a fundo em todas as coisas que aquilo representa.
Eu acho que comigo não foi o mecanismo de defesa, não foi sublimação. Foi o desejo de enfrentar, de fato, aquilo que era sublime na morte, sem enganar que ela tem um caráter só sublime. Ela tem também o caráter de dor, de sofrimento, de perda, de luto, de angústia profunda. Mas essas coisas não me fizeram recuar e, de alguma forma, fazer uma escamoteação daquilo que é o sentimento. Eu tentei, eu e minha mulher, sofrer tudo o que podíamos ter sofrido.
Então, a sublimação, ou seja, a produção de alguma coisa artística ou de alguma coisa de humor, até de humor, não era um mecanismo de defesa, era um mecanismo de enfrentamento. Então, a sua pergunta, Robson, me ajudou muito a aquilatar, a ajustar o conceito que eu tive ao fazer alguma coisa que se aproximava da arte. e se aproximava da dor e da alegria. Foi um enfrentamento e não foi um mecanismo de defesa. Mas vale também, tem uma simbologia muito forte.
RB:
Agora, Fernando, o livro tem um recurso estilístico muito interessante. Ele tem uma sofisticação na forma como você criou, nas referências. É um livro bonito, e isso está muito claro, essa preocupação com isso, com esse tratamento estilístico do livro. Como é que foi esse processo para você? Foi uma preocupação, de fato? Eu queria que você comentasse um pouco esse seu processo de elaboração.
FJA:
Essa pergunta ele tinha me feito e eu não ensaiei, então vou ter que começar do zero aqui. Uma das coisas mais importantes que aconteceu na escrita do livro foi o processo de desenvolvimento dos textos. Eu fui convidado para dar uma entrevista sobre a questão do luto num site especializado nesse tema. E fiquei com medo de fazer isso, porque, primeiro, o que eu digo não é necessariamente o que sai escrito. Então, eu digo: “eu vou me proteger de possíveis distorções, eu escrevendo pessoalmente”. E aí eu comecei a escrever e gostei, gostei muito de escrever, gostei muito do exercício quase espiritual que eu fiz ao ter que escolher as palavras, escolher basicamente uma coisa que eu acho que marcou muito esse livro.
Esse livro, eu só li ontem de novo, há sete meses que eu não lia o livro. Depois que a Maria Emília fez a versão final, eu não li mais o livro, li ontem, e vi coisas que eu não tinha percebido ao escrever. Por exemplo, eu me apoiava em fatos que poderiam ser fatos da minha vida, da vida da Lorena, da vida da Silvana, da vida dos netos, ou de algum algum evento bíblico, Novo Testamento, ou algum caso do Zé do coco, que vende coco na doutor Arnaldo [avenida na Zona Oeste de São Paulo], e que se tornou um personagem da minha análise com relação à dor.
Então, a minha escrita, primeiro, foi uma escrita imensamente prazerosa. Em segundo lugar, muito terapêutica. Eu chorava, ia para frente, continuava, fazia escondido da Silvana, porque eu escrevia à noite, altas horas e escrevia três, quatro páginas por dia. Então, o prazer de escrever se revelou como um ato terapêutico e um ato de buscar coisas bonitas que a vida da Lorena nos trouxe, coisas que eu teria prazer de contar para todo mundo que ela fez e nunca ninguém soube.
Então, ao mesmo tempo que eu era atravessado pelo sentimento de dor e de sofrimento, ele me deu uma sublimação, para poder dar um pouco de razão para ele, no sentido que permitiu que o ato de produzir alguma coisa bela a partir da dor era bonito, era uma coisa que eu estava podendo fazer e que nunca pude fazer na vida antes, já que meus livros eram todos técnicos — não sei se eram de qualidade, mas eram técnicos.
E agora eu tive essa chance na vida de poder retomar o que era a vida de um jeito que me desse, não só compreensão, mas me desse basicamente uma alegria. O processo de escrever foi um processo de alegria. Eu estou vendo o Andrés Bruzzone lá atrás, que foi a pessoa que muito me inspirou nesse trabalho que eu fiz.
RB:
Fernando, você foi jesuíta, estudou para ser padre e é uma pessoa religiosa. Eu queria que você comentasse um pouco como a morte da Lorena trouxe para você a sua relação com a fé, com a transcendência, como isso te impactou de outra maneira, te atingiu de outra maneira.
FJA:
Eu, de fato, tive 80 anos da minha vida banhado no horizonte, vamos dizer, no vapor de um cristianismo bem coerente. Não é a melhor das religiões, mas é uma religião que eu abracei como algo que dava conta de explicar a minha vida, como muitos que estão aqui, que eu conheço, né? Mas com a morte da Lorena, de um momento pra outro, eu tenho uma fé muito desconfiada, eu não confio mais na minha fé, eu perdi um pouco daquela fé quase original e inocente que eu tinha, eu tenho uma fé capciosa, desconfiada dela mesma. Até que ponto essa fé dá conta de explicar as coisas que… A morte, a morte.
E com relação a essa perda da filha e dos amigos, Danilo morreu 15 dias antes da Lorena. Danilo Miranda era padrinho da Lorena, morreu 15 dias antes. Os dois, essas duas mortes muito seguidas me fizeram pensar o seguinte vida eterna: “bacana, vou encontrar com eles, daqui a pouquinho eu morro, encontro com o Danilo e com o Lorena lá no céu, vai ser ótimo.”
Aí comecei a dizer: “não, vai ser muito difícil, porque vai estar minha mãe, minha mãe vai querer falar comigo também, meu pai, aí tem um monte de gente… Sivuca, sei lá, os autores de música popular, Gonzaguinha…” Eu digo: “eu quero encontrar Gonzaguinha, tem um monte de pessoas, e os passados, Aristóteles, eu gostaria de conversar com ele um pouco também.” Aí eu disse assim: “é impossível, é inadministrável a organização de um céu cristão cujos corpos estarão todos ressuscitados. E fazendo o que o dia inteiro?” Aí eu fiquei muito preocupado e digo: “não dá, eu vou deixar de acreditar, porque é muito confuso isso e não explica o…”
Agora, ironias à parte, a perda de uma pessoa muito querida, muito próxima, de qualquer maneira, ela sempre nos causa uma pergunta sobre a vida eterna e sobre o que fica do corpo. Como é que seria a tal ressurreição dos corpos? Como é que seria a recompensa eterna? Mas o maior problema meu não foi esse. Eu digo: “a Lorena vai para o céu e eu vou para o inferno. E aí? E se eu for para o inferno? Eu nunca mais vou me encontrar com ela?” Então a fé não resolve. Não resolve. Mas eu digo o seguinte: tem que ter fé. Eu acho que tem que ter fé ainda em um monte de coisas, inclusive em Deus. Mas a fé como uma cultura, ela não explica a realidade, não dá.
Quando a gente vai diante do túmulo, não é? Dos amigos, das pessoas que a gente gosta, a fé é muito abalada pela concreticidade do mármore preto, pelas fileiras das pessoas ali, das suas vidas, seus nascimentos e mortos, suas famílias. Aquilo é um caos mental para a gente que abala, pela pobreza do ser humano mesmo, a possibilidade e a compreensão do infinito que seria a fé em Deus. Uma fé abrangente que explica todas as coisas. A gente fica abalado mesmo. Não há jeito.
RB:
Fernando, você citou o Andrés Bruzzone que está aqui, e como o texto dele foi importante para você não só escrever o livro, mas de alguma maneira dialogar com o seu sofrimento em torno da morte da Lorena.
Em que medida você acha que testemunhos como o do André, e o seu próprio testemunho com o Elogio à saudade, eles criam uma cadeia de significante que possa, de alguma maneira, ter uma relação com as perdas tão dramáticas? Não sei se a palavra seria consolo, mas de tentar dar algum tipo de contorno para esse buraco, para esse vazio que essas perdas significam para nós.
FJA:
São pequenas frases que podem atrapalhar muito, como podem ajudar muito. O meu medo após as primeiras semanas de morte da Lorena era os consolos que não são consolos, irritam. Irritam no sentido de dizer: “não, vai passar.” Não vai passar, eu não quero que passe. Quem é você para dizer que vai passar? Desculpa, é brincadeira, mas assim, é isso que a gente sente.
Segundo: “não, um dia você vai encontrar com ela.” Não quero encontrar com ela desse jeito, era bom como estava aqui. Para que eu quero encontrar de outro jeito? Não quero, não tem nada melhor do que aquilo que eu estava vivendo. Então esses consolos parciais e assim esporádicos e muito cheios de companheirismo e boa vontade, não consolam. Eu fiquei meio resguardado de ouvir esses consolos. Não falava para a pessoa, mas sentia.
Até que, a Raquel, que está aqui, indicou o Bruzzoni e disse: “olha, meu chefe na editora Abril perdeu o filho também de forma parecida com a sua, e escreveu uma coisa muito bonita. Posso te mandar?” Eu disse: “pode.” Aí eu li e pensei: “isso é o que eu precisava.”
E aí tentei localizar o Andrés para conversar com ele e a nossa conversa foi muito… Primeiro, ele resistiu um certo tempo, com uns dois meses me dando um chá de espera. Eu até sei o porquê, mas aqui não vale contar. Mas o Andrés, quando veio me contar a história dele, aí foi a percepção muito fraterna e de almas gêmeas da compreensão do outro.
E são pequenas frases de amigos que nos estimulavam. Eu estou vendo vários aqui, lá atrás, gente escondida, pessoas que me disseram coisas muito relevantes. Por exemplo, Zé Miguel Wisnik, eu estava na fila do livro do [Eugênio] Bucci, que também está lá atrás, e esperando fiquei do lado do Zé Miguel. Aí, Zé Miguel também perdeu um filho de maneira bem trágica e eu disse para ele: “estou escrevendo um livro sobre minha filha, mas eu não sei o que vai acontecer com esse livro.” Aí ele me disse só isso: “está te fazendo bem escrever?” Eu digo: “muito bem.” “Então, fará bem aos outros, escreva o livro.” E ele ganhou o autografo do Bucci logo em seguida.
E o Bucci também me arranjou a mesma editora, que é a Seja Breve, para fazer esse livro meu aqui. Então, essas duas olhadas… Quer dizer, tem frases que são absolutamente lindas, cuidadosas, delicadas, mas que não fazem bem para a gente que está sofrendo. E outras que as pessoas dizem, não digo “sem querer”, porque não é sem querer, mas que fazem cair no momento correto da vida da gente.
Só tenho a agradecer as pessoas que cuidaram de mim nesse tempo, com pequenas frases, pequenas jaculatórias, chamava-se na igreja católica. Jaculatórias eram frases rápidas, pedaços de textos lindos, etc., que louvavam a Deus de alguma forma. Então, a gente tinha lá, como jesuítas, uma ideia de, de vez em quando, fazer jaculatórias, quer dizer, lançar ideias boas ao ar, a Deus, aos anjos, aos santos, seja quem for. Então, acho que eu recebi muitas ejaculatórias de vocês e me ajudaram muito na vida.
RB:
Fernando, você usa um conceito que é “a ecologia da perda”, que seria, se eu entendi bem, uma forma que ajuda a integrar novos valores, novas formas de vida após um acontecimento devastador. De que maneira isso operou para a sua forma de elaborar e de lidar com a morte da Lorena?
FJA:
Bom, nós todos aqui vivemos duas ecologias. Uma ecologia do bem e uma ecologia do mal. Uma ecologia que qualquer coisa que você mexe estraga tudo e outra que tudo dá certo. Tudo dá certo e você faz.
Então, o que eu busquei no meu processo de escrita, mas também do meu convívio com os netos, com meus amigos, com a minha mulher, com a minha irmã, com a minha outra filha, minhas outras netas, foi de descobrir o campo ecológico das coisas boas, das coisas que poderiam trazer uma boa recordação da Lorena e das pessoas que conviveram com Lorena.
Então, ouvir alguma coisa boa das pessoas que conviveram com Lorena, mesmo que não fosse sobre ela, me ajudava a compreender a Lorena. Estou vendo aqui o Gustavo ali atrás. Tantos amigos, tantas pessoas que vinham e se aproximavam da gente para trazer coisinhas boas. E isso foi… Essa que eu chamo de ecologia.
E tem duas ecologias… Eu não vou falar muito senão eu me emociono muito mais. Mas uma delas é o seguinte, as amigas da Lorena me perguntavam, esse é o campo ecológico do bem: “Fernando, se precisar de mim, você, Silvana, me procura. O que você precisa? Você quer alguma coisa?” Eu digo: “eu quero eu quero bife de fígado acebolado.” E era de verdade, eu queria bife de fígado acebolado e elas traziam para mim. Maínha que está aqui e eu estou vendo, é uma das que fez esse processo de atendimento para a gente, com cuidado e para além do cuidado normal da vida.
E também, acho que ela está aqui, eu não vi ainda, não vi todo mundo, mas uma das meninas mora em Bragança e ela disse assim: “o que você quer?” Eu disse: “eu quero linguiça de Bragança.” Pronto, é isso que eu quero, preciso dessas coisas. E porque também eu estava numa fase que eu ganhava tanto panetone, que eu tive que, quase que fiz uma banca de panetone para distribuir.
Mas, assim, tive que variar os tipos de carinho que as pessoas tinham conosco. Não é, Silvana? Então, essa ecologia, ela passa por duas áreas. Olha, a área do afeto, que é esse afeto das amigas da Lorena, que ela tinha uma multidão de amigas, e eu diria assim, elas tratavam cada uma como a melhor amiga. A maioria que eu conheço se considera a melhor amiga da Lorena, e era. Mas ela tinha umas 43 melhores amigas.
Agora, isso é ecologia da bondade. É você juntar as coisas. Porque juntar as coisas ruins é facílimo, é muito mais fácil. Porque coisa ruim tem em todo lugar. Eu também sofri, eu não quero saber que você sofreu. Eu quero saber como é que eu lido com a minha. Então, a gente não pode atrair e imantar as coisas que não cooperam para o bem.
Eu acho que eu consegui fazer isso primeiro com o auxílio dos amigos que me acompanharam a vida inteira e que nesse evento se revelaram muito mais amigos do que pareciam, muito mais, muito mais. Um grau quase angelical de amizade a gente construiu nessa devastação que foi a nossa vida durante algum tempo.
RB:
Fernando, nessa rede de amigas e amigos que a Lorena cultivou ao longo da vida, de alguma maneira, eu acho que no livro você deixa transparecer que é um jeito de permanência da Lorena na cidade, por meio desses afetos todos que ela consolidou e desenvolveu ao longo da vida. Eu queria que você elaborasse um pouco e desenvolvesse um pouco em torno desse aspecto. No livro tem algumas passagens muito bonitas em torno disso que você está dizendo, da sua relação com as amigas e como a Lorena, de alguma maneira, permanece por meio desses afetos que ela consolidou ao longo da vida.
FJA:
Eu vou até dar algum exemplo aqui, mas basicamente dizer o seguinte. No início, é muito difícil a gente aceitar o que tem nos livros sobre o suicídio. Há uma centena de livros que falam sobre a morte desejada. E esses livros dão um receituário muito… Me fez muito mal. Um conjunto desses receituários não me ajudou.
No entanto, um deles me deu uma iluminação, fora o livro do Bruzzone, muito importante, que foi a ideia de que as pessoas que se vão antes, de qualquer maneira, de qualquer forma, deixam um legado, querem que alguém realize o que ela não conseguiu realizar. As pessoas deixam isso, o desejo. Aí eu disse, primeiro me incomodam as sugestões. Eu tenho um grande incômodo para com a primeira sugestão.
Mas pensando, eu comecei a ver que o que elas… E o que Lorena deixou de fazer foi muito grande, muita coisa. Ela estava inscrita, entregou o trabalho de conclusão do semestre no dia que morreu. Mandou para a professora o trabalho feito, quer dizer, ela queria viver. Ela queria continuar, senão ela não entregaria o trabalho, eu corrigi o trabalho, vocês vão ler lá. Eu corrigi um pedaço do trabalho, faltava uma vírgula ali, um acento daqui, eu corrigi. E disse: “está bom, pode mandar para a professora.” E ela mandou à noite. Isso significa que ela tinha o que fazer.
Eu digo, eu vou pegar isso para mim, para a Silvana e para os filhos. Nós vamos continuar as coisas boas que ela fazia. Então, isso é uma coisa importante, muito importante: a ideia de que não é só a recordação de coisas boas que ela foi para nós, mas a ideia de que as coisas que ela não completou, pode caber a nós fazer essa continuação da vida dela. Que nem sei se era dela, mas a gente cria como sendo dela. Isso é uma glória para nós.
RB:
Fernando, na conversa que a gente teve antes, a gente discutiu um pouco o quanto o livro, de alguma maneira, a pergunta “por que?” está muito presente, mas você de maneira nenhuma tenta fechar sentidos, é uma pergunta que não tem uma equação, uma resposta possível. De que maneira você tentou articular essas questões na feitura do livro e de que maneira elas são articuladas também para além do livro em você?
FJA:
É o seguinte, uma coisa que me ajudou muito foram as leituras sobre um filósofo que muitos daqui conhecem, chamado Paul Ricoeur. Eu trabalhei com ele no início do meu mestrado aqui na PUC, os professores nossos, Severino, aquele pessoal todo, Geraldo Tonaco, Aquiles von Zuben, voltavam da Bélgica, onde estudaram com Paul Ricoeur.
Tive muita influência dele, depois retomei Paul Ricoeur por conta de um presidente da associação do Paul Ricoeur no Brasil, que é o Andrés Bruzzone, então ele me retomou a leitura do Paul Ricoeur, que foi objeto de alguma forma do doutorado do Bruzzone. E a gente mexendo na literatura, nos títulos, etc., tínhamos que anteceder sabendo que ele também teve um filho que se matou, o filho mais velho do Paul Ricoeur se suicidou.
E aquilo deu uma sintonia na gente para compreender, da maneira ricoeuriana, como é que é compreendido o sentido da vida. E uma das coisas que eu li com ele — aprendi, sofri, discordei, fui para frente, fui para trás — é que o suicídio é um ato de profunda consciência, não é uma doença, “o cara ficou doente, então se matou.” E é de uma subjetividade levada ao grau máximo. A pessoa tem tal consciência do que é a vida, de quem é ela, do que está fazendo, que ela opta pela vida encurtada. Mas optou pela vida, sabendo de todas as coisas que nós achávamos que eram.
Eu falei isso, conversei com Silvana várias vezes. A Lorena tinha vacinas contra o suicídio que seriam os filhos, a gente, as pessoas que ela gostava, os amigos. Ela tinha uma vacina. “Ela nunca fará isso.” Mas a vacina é falha, a vacina não é o conceito para se tratar o valor da vida e da morte, tem outras coisas. E acho que o que aconteceu foi esse.
Ao fim do meu… Para pegar a sua pergunta. O fim do meu trajeto de reflexão, de escrita, de pensamento, de sofrimento, de noite, era exatamente isso, da clareza e subjetividade profunda da Lorena ao escolher o jeito de sair da vida. Ela escolheu. Não foi nenhum câncer, nenhum desastre de automóvel. Foi uma opção. Ora, o que eu posso fazer contra a opção tão clara de uma filha ou de uma pessoa? É isso uma coisa que me tocou profundamente.
RB:
O Fernando, na nossa conversa anterior, me delegou para emprestar aqui a minha voz para um trecho do livro que eu escolhi a pedido dele, e eu vou ler aqui:
Aquela foi a primeira vez que fui ao cemitério depois do enterro. E constatei o óbvio. No jazigo preto da família D’Elia, está minha filha. Uma pequena peça de mármore preto com o nome dela:
LORENA D’ELIA DE ALMEIDA
*18-07-1980 +12-11-2023
Volto sempre que posso, movido pela absoluta necessidade de ampliar meu tempo com ela. Aprendi a passear entre as belas esculturas ornando os jazigos das famílias tradicionais e os túmulos abandonados de famílias que já nem existem mais. Ando entre as lápides, nos caminhos estreitos, tortuosos e irregulares. Assim, consigo fazer certa companhia a ela e ela a mim. E já me peguei pensando: “Exista você, onde for, nós todos estamos levando a vida, pensando nas coisas belíssimas e dolorosíssimas que você fez. Você é parte, mais do que nunca, de nós que aqui ficamos. Tristes e alegres, de uma forma de alegria que nunca pensamos que pudesse florir em nós. Embora a tristeza nunca vá deixar de ser o éter que nos envolve, você trará sempre os outros sentimentos que também nos povoam, inesperados, agudos, graves, voláteis, plúmbeos, humanos, amargosos e cerúleos.
Quer comentar esse trecho?
FJA:
Não, eu acho que não precisa de comentário. Eu gostei da leitura, porque o tempo que você usou para ler foi o tempo para a gente também amadurecer o que significa a elaboração afetiva de um texto, das palavras, cada palavra escolhida com muito cuidado. Preciso que você leia outro. Quer ler outro?
RB:
Vamos lá.
Entrei, pois, no umbral da criação das peças. E nele, com a sutileza e a humildade de quem lida com memórias, busquei algumas que me permitissem ter uma visão mais ampla, generosa e corajosa do que é uma vida. Mesmo que fosse aquela vida que eu gostaria e imaginei que ela tivesse levado em 43 breves e intensos anos. Achei muitas peças do mosaico nessa busca. Reconstruí outras, talvez tenha que inventar algumas, à luz do olhar da pessoa que sou. Em algumas dessas peças estou muito presente. Falo do que sou, não de forma abstrata e metafísica de ser, mas o que fui sendo e estou sendo. Sou velho, tenho 81 anos, sou professor, sou marido, sou pai, sou irmão, sou 8tio, sou um pesquisador, um avô desmesurado. Sou um ex-seminarista jesuíta, sou o que são meus amigos e sou o que de mim eles fizeram, sou padrinho de batismo de muitas pessoas queridas, fui orientador de mais de 120 mestres e doutores ao longo de mais de quarenta anos…. E é da visão de mundo daí construída que me lanço à tarefa de spectare (do latim olhar) e re-spectare (olhar com cuidado, olhar duas vezes). Olhar e reolhar com profundo respeito ao ato humano aqui tratado. Enfim, vou entrar nesse terreno respeitando todos os elementos humanos que me constituíram para conviver com minha filha até o fim e mesmo depois dele.
RB:
Fernando, você estudou latim, e isso está presente aqui e ali no livro, como no trecho que eu li, e um deles você busca a etimologia da palavra luto, que tem uma referência com lutar, e de alguma maneira parece que você fez sentido para você o luto enquanto luta. Eu queria que você, de alguma maneira, elaborasse sobre isso da forma como você tratou no livro.
FJA:
Eu agradeço essa pergunta, porque ele falou do latim. Eu e alguns, estou vendo aqui o Alip e vários outros colegas meus que estudaram latim durante muitos anos, 11 anos, 12 anos de latim. Mas eu tive a oportunidade de fazer toda a minha faculdade, meu curso de filosofia, os três anos, todos em latim. As aulas eram em latim, os livros em latim. E se eu tivesse pergunta a fazer, debate, era tudo em latim. A arguição final era uma arguição de três horas em latim. Não serve para nada. Foi bom ele ter falado, porque valorizou um pouco a minha formação. Mas serve para essas coisas.
Eu tenho uma mania de buscar as raízes das palavras e, com isso, facilita o trabalho. Só que meus netos, de vez em quando, não acreditam. Dizem que estou inventando. “Isso é invenção. Não foi nada disso. Para de inventar.” Mas eu não invento… Às vezes eu invento. Mas as coisas são, o latim traz essa origem da origem, né?
O luto é a ideia de lutar mesmo contra uma força poderosa que é o sentimento da perda. Ele dá uma rebordosa na gente, né? Revira a gente do avesso. Todo o processo íntimo da gente, os projetos intestinos da gente, eles são completamente mudados de lugar. Ora, a ideia do luto é a ideia de aquilo que a gente manifesta de sentimento. O luto é a manifestação do sentimento de luta.
Então, quando se usava no meu tempo de jovem o terno preto ou uma tarja preta na camisa como símbolo de luto, ou a mulher ficava um mês sem sair de casa quando o marido morria, etc., são manifestações do sentimento. E o que eu acho que a gente vivenciou muito, eu e minha mulher também, e todos os parentes nossos, os netos, os grandes amigos, é: como que eu manifesto a dor, sem ser alguma coisa que me torne incômodo no conjunto e, ao mesmo tempo, que revele o que eu estou sentindo? O que eu desejo é falar para todo mundo.
No início, eu entrava no táxi e dizia que eu perdi a minha filha. O jovem do táxi parava, ficava catatônico perante essa… Ou seja, o sentimento da gente de luto, ele é um sentimento que tem que ter a delicadeza de quanto eu me intrometo na vida do outro ao contar a minha desventura e quanto que eu peço às pessoas encarecidamente que me apoiem. É muito difícil saber o que é a intromissão na vida do outro sem o direito e o que é aquilo que as pessoas gostariam de estar comigo nesse momento.
E aqui eu estou vendo um monte de gente que era isso. “Quero estar com você e continuar mais com você à medida que você precisar de mim.” Isso eu sinto profundamente. O que me salvou foram os meus amigos. É isso. E é para acabar, porque agora eu vou soltar o choro aqui fluido. [Palmas] Mas a gente tinha um casal de amigos nessa hora, que durante 90 dias, telefonava toda noite para cantar para a gente dormir. Eu estou satisfeito. [Palmas]
PW:
E antes de me despedir, eu queria passar para o nosso novo quadro do 451 MHz, o Livro Marcador. Nele, a gente convida grandes autores e grandes leitores em geral para compartilhar qual livro marcou a vida deles. Pode ser a leitura que despertou para a escrita, o livro mais emocionante que já leram, aquele que eles admiram tanto que gostariam de ter escrito, um que acompanhou algum momento importante da vida, enfim, um livro inesquecível.
No episódio de hoje, quem conta pra gente qual foi o seu livro marcador é a escritora Cidinha da Silva. A Cidinha é autora de mais de vinte livros. Em maio de 2026, ela lançou Quando borboletas furiosas se tornam mulheres negras: nós e os livros, que foi publicado pela Relicário. Vamos ouvir a Cidinha.
Cidinha da Silva:
Olha, um livro muito importante pra mim, é o Afrografias da memória, da Leda Maria Martins. É um livro que eu li no meio da vida. Eu conheço a Leda desde muito jovem e li esse livro talvez com 30 anos, 30 e pouquinho… E é um livro que, para mim, descortinou muito a possibilidade do trabalho com a memória negra e como você articular um pensamento ensaístico a partir de bases que são de religiosidade popular, como os reinados. Então, foi um livro definidor na minha vida, Afrografias da memória.
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O 451 MHz é uma produção da Associação Quatro Cinco Um.
Apresentação: Paulo Werneck
Colunista mensal: Bruna Beber
Produção: Beatriz Souza e Mariana Franco
Edição e mixagem: Fábio Teixeira
Identidade visual: Quatro Cinco Um
Identidade sonora: Guilherme Granado e Mario Cappi
Apoio: Ministério da Cultura – Lei Rouanet – Incentivo a Projetos Culturais.
Para falar com a equipe: [email protected]
Porque você leu Podcast
Transcrição: Karla Monteiro e Mário Magalhães no podcast 451 MHz
Leia a transcrição do episódio #210 do 451 MHz, uma conversa com os biógrafos de Leonel Brizola e Carlos Lacerda
SETEMBRO, 2026
