Quadrinhos,

Tão forte quanto a vida

Ao contar a história do chá, quadrinho africano mostra os conflitos e os prazeres em torno da bebida mais consumida no mundo

01jan2022 | Edição #53

Ao beberem três copos de chá de menta, os tuaregues, povo nômade que habita as regiões desérticas do norte da África, dizem que o primeiro é “tão forte quanto a vida”, o segundo, “tão amargo quanto o amor”, e o terceiro, “tão suave quanto a morte”. É esse ditado que guia os três capítulos da HQ Ligeiro amargor: uma história do chá, com roteiro de Elanni e Djaï e arte de Koffi Roger N’Guessan.

Por meio de três momentos da vida da protagonista Adjoua — na infância em Abidjan, Costa do Marfim, em 1964; na vida adulta, em Freetown, Serra Leoa, em 1983; e na velhice, em Pequim, China, em 2019 —, aprendemos um pouco sobre a história do chá, bebida consumida por 70% da população mundial, segundo Gervanne Colboc Leridon, da Casa de Chás da África. Ele explica em texto que aparece no fim do quadrinho como a produção de chá no continente tem crescido, tanto que o Quênia é o terceiro maior produtor do mundo, atrás apenas de China e Índia.

Da China para o mundo

Na primeira parte da HQ, uma assustada Adjoua corre chorando para os braços da mãe após receber o sorriso de um homem mais velho que está tomando chá com um grupo de amigos. Para acalmá-la, a mãe da garota prepara um chá de menta enquanto conta a história de como recebeu de herança um bule de chá todo amassado, que pertenceu ao sultão do Marrocos, presente do duque de Buckingham, em fins do século 17. Foi a partir desse contato dos ingleses com os marroquinos que o chá se espalhou pela África ocidental, ainda que os povos do continente já fizessem infusões com outras ervas. 

Aqui vale um parêntese: “chá” é o nome que se dá especificamente à bebida feita com as folhas da Camellia sinensis; “infusão” é o nome da bebida feita com outras plantas, o que já era praticado por outras culturas no mundo. No entanto, o termo “chá” se popularizou para tratar de qualquer tipo de infusão. Outra curiosidade é a origem da palavra “chá”, que vem de cha, em mandarim falado na China continental e que era o nome usado em Macau, onde os portugueses faziam trocas comerciais com os chineses. O termo te, que originou as palavras em inglês, francês, espanhol e italiano, veio do porto de Min Nan, da província marítima de Fuijan, por onde as nações europeias mantinham contato com a China.

É, aliás, na segunda parte de Ligeiro amargor que conhecemos um pouco mais sobre a origem do chá, um processo mantido em segredo pelo império chinês, apenas conhecido por Japão e Coreia. Em meio ao expansionismo do imperialismo britânico no século 19, a rainha Vitória enviou, em 1848, o botânico Robert Fortune para descobrir os segredos do chá da China. Em uma missão digna de grandes nomes da espionagem, Fortune se disfarçou de rico proprietário de terras e adentrou o território chinês para procurar as plantações de chá. Lá, conseguiu desvendar os processos de horticultura e manufatura da planta, introduzindo seu cultivo de forma bem-sucedida na Índia e criando um hábito que hoje vemos como “inglês”: o chá da tarde. O controle sobre a comercialização da planta foi o principal estopim para as chamadas Guerras do Ópio, que aconteceram entre as décadas de 1840 e 1850. Aqui, as disputas em torno do chá no século 19 também são comparadas às dos diamantes de sangue no final do século 20. 

Já o terceiro capítulo mostra a origem mítica da bebida na China por meio da história do imperador Shennong, considerado o pai da agricultura chinesa e o descobridor do chá, que data de quatro milênios atrás.

Como o chá, a própria produção do quadrinho é, digamos, transnacional. Originalmente, Ligeiro amargor foi publicado em 2019 dentro da coleção L’Harmattan BD, dirigida pelo camaronês Christophe Cassiau-Haurie, dedicada a quadrinhos lançados na África ou de autores nascidos no continente. Essa é a primeira graphic novel africana publicada pela editora Skript, que pretende trazer mais quadrinhos do continente africano ao Brasil, como explica no posfácio o editor e pesquisador de HQs Márcio dos Santos Rodrigues. Em trabalho anterior, os roteiristas Elanni e Djaï participaram de uma adaptação em quadrinhos de contos do escritor Malcolm de Chazal, natural das Ilhas Maurício, como parte da coletânea Morne Plage d’après l’oeuvre (Praia morna depois do trabalho), também lançada pela L’Harmattan BD, em 2016, que reuniu autores mauricianos e de Madagascar. 

Koffi Roger N’Guessan é autor de quadrinhos, ilustrador e professor de artes plásticas nascido na Costa do Marfim. Pela mesma coleção dirigida por Cassiau-Haurie, ele publicou Milles mystères d’Afrique/Séductions (Milhares de mistérios da África/seduções, 2013), Les Fins limiers (Os detetives finais, com Cassiau-Haurie, 2016) e Chaka (com Jean-François Chanson, 2018), além de participar da antologia Nouvelles d’Afrique (Notícias da África, 2014). Um dado curioso sobre Ligeiro amargor é que, originalmente, o quadrinho seria ilustrado por Malika Dahil (conhecida por ser a primeira quadrinista mulher do Marrocos), que vive em Manaus, capital amazonense, desde 2016, com seu marido brasileiro, o também quadrinista Eunuquis Aguiar — a edição caprichada da Skript traz a reprodução da arte feita pela ilustradora marroquina.

Além de aprendermos sobre a crescente produção de chá em terras africanas, Ligeiro amargor nos mostra como o continente também é fértil na criação de HQs, que, esperamos, cheguem cada vez mais ao Brasil. Ligeiro amargor é apenas o primeiro gole de uma produção rica e diversificada vinda da África que devemos conhecer mais.

Quem escreveu esse texto

Paula Carvalho

Jornalista e historiadora, é autora e organizadora de Direito à vagabundagem: as viagens de Isabelle Eberhardt (Fósforo).

Matéria publicada na edição impressa #53 em outubro de 2021.