Quadrinhos,

Marcha sem volta

Sai no Brasil primeiro volume de graphic novel sobre a luta pelos direitos civis nos Estados Unidos

20nov2018

A publicação do primeiro dos três volumes de A marcha, história dos direitos civis dos negros norte-americanos a partir do relato pessoal de John Lewis, um dos seus líderes principais, demonstra a relevância da narrativa para os debates atuais sobre direitos em todas as sociedades liberais. Os vários eventos desse processo histórico são contados e analisados de forma a levar o leitor para dentro do desenrolar de fatos que promoveram mudanças significativas na organização da sociedade norte-americana. 

Primeiro, devemos destacar a escolha da forma como a recordação dos eventos é feita. Os quadrinhos são desenhos emocionalmente poderosos, que situam o leitor no meio das inúmeras tensões psicológicas e sociais daquele período. Os acontecimentos são descritos do ponto de vista de um sujeito concreto, e a fala em primeira pessoa sobre suas experiências, angústias, seus medos, cumpre um papel central no que está acontecendo. 

Pelos olhos do protagonista, vemos como o sistema de segregação racial operava na vida cotidiana de centenas de milhares pessoas, cerceando vidas, limitando perspectivas, desestabilizando famílias, dificultando o progresso social para que o regime de supremacia branca permanecesse. Poucas narrativas do movimento pelos direitos civis expressam de modo tão impactante como o direito e a política operam para promover a exclusão e a opressão. 

Há outro elemento que permeia a história: o racismo como sistema de dominação social. A ação ocorre de maneira frenética, envolvente, demonstrando como a luta pela igualdade racial teve que combater uma ideologia que legitimava a segregação em todos os setores da vida. 

Vemos, nos três volumes de A marcha, o papel do racismo na economia psíquica das pessoas brancas, a exploração política e econômica do racismo pelas elites brancas, sua atuação para fomentar o ódio e também a forma como o direito foi usado como instrumento central de reprodução da supremacia branca. Mais do que isso, a obra mostra como o racismo restringe oportunidades em todos os aspectos da vida de grupos minoritários, o que fica evidente nas passagens autobiográficas de Lewis, da infância ao ápice da obra: a descrição da marcha de Montgomery a Selma, um dos principais focos de resistência à integração racial. 

Gandhi

Observamos nesse livro formidável figuras que, inspiradas por Gandhi, formularam as táticas de luta sem recorrer a atos violentos. O desafio à ordem racista seguia uma doutrina baseada em princípios políticos e religiosos. Vemos as várias medidas de mobilização dos negros que conseguiram desestabilizar o racismo institucional, presente naquele país em sua forma mais visceral. É revelador o encontro entre Lewis e Martin Luther King: ele também pastor protestante que estava atento à necessidade de criar uma prática política que não utilizasse a mesma lógica do opressor. 

Lewis e King estavam atentos à necessidade de criar uma prática política que não utilizasse a mesma lógica do opressor

Notamos no livro a crença e também a descrença no direito, o que levou as duas figuras a organizarem movimentos e manifestações que desafiavam práticas racistas institucionalizadas. Havia ainda a crença no direito como um sistema que deveria permitir a realização dos ideiais que organizavam a vida política daquele país. As pregações de Lewis e King desafiavam a ordem jurídica estabelecida por meio da desobediência civil, por desvirtuar princípios do liberalismo, tais como a igualdade moral entre todas as pessoas e a afirmação da dignidade dos seres humanos.

A marcha faz uma interligação entre eventos históricos que marcaram a luta pela igualdade de tratamento jurídico. A história começa com o encontro entre um líder do movimento dos direitos civis e duas crianças negras que estão em Washington para um evento extremamente importante: a posse de Barack Obama, o primeiro presidente negro dos Estados Unidos. 

O encontro entre essas duas crianças e um dos grandes líderes é o ponto de partida para compreender a relevância histórica daquele momento. Lewis relembra vários outros acontecimentos na luta contra a supremacia branca. Somos envolvidos em vários fatos amplamente conhecidos, como a reação dos brancos diante dos negros que solicitavam atendimento em restaurantes e cinemas segregados, o boicote dos negros aos negócios e aos ônibus segregados, os ataques das massas brancas aos ônibus dos militantes negros, as intimidações incessantes de grupos supremacistas brancos aos líderes negros, os ataques terroristas desses grupos às igrejas negras, a recusa de Rosa Parks em dar seu lugar para um homem branco, o célebre discurso de Martin Luther King e, além de tudo, todo o embate psicológico e político da marcha sobre a ponte de Selma. 

A marcha é uma narrativa histórica, é uma narrativa jurídica e é uma narrativa sobre solidariedade humana. Seu impacto é particularmente poderoso por relatar um momento histórico relevante na trajetória das sociedades liberais a partir da experiência de um indivíduo específico. Acompanhamos a mobilização psicológica e política de um indivíduo, o que nos aproxima desses eventos a partir de uma perspectiva especial. 

A marcha também mostra o impacto da mobilização política dos negros na redefinição de uma série de direitos constitucionais, tais como a liberdade de expressão, a liberdade de reunião e o próprio princípio da igualdade. Temos ainda uma história movida pela articulação entre membros de uma minoria racial para promover a transformação da sua própria condição social. Sob todos os aspectos, a leitura desse livro nos mostra como a história tem muito a informar nossas práticas sociais contemporâneas, nossa maneira de nos percebermos como sujeitos sociais e também o lugar que o direito pode ocupar dentro desse processo. 

Quem escreveu esse texto

Adilson José Moreira

É professor de direito na Universidade Mackenzie e autor de O que é discriminação? (Casa do Direito).