Politica,

Vegetarianismo conservador ou feminista

Dois lançamentos que chegam com atraso ao Brasil defendem de maneiras muito diferentes a opção por não consumir carne

20nov2018

Por que você parou de comer carne? Essa era a pergunta há duas ou três décadas (seguida de muitas expressões faciais, conselhos e inquietações). Hoje, tornar-se ou não vegetariano faz parte do rol de questões que respondemos ao nos inscrevermos em um congresso, por exemplo, ou quando vemos opções reservadas para nós no cardápio dos restaurantes.

No mês passado, reportagem do jornal britânico The Guardian afirmou em uma de suas reportagens especiais como um movimento marginal havia se tornado mainstream. No Brasil, a revista Exame divulgou os números da Sociedade Vegetariana Brasileira, no ano passado, que estimava que a causa do vegetarianismo ganhe 2 mil novos adeptos a cada semana no país.

Dois lançamentos recentes no mercado brasileiro parecem corroborar para o argumento de que o assunto tem mais interessados. O primeiro deles, Domínio, é do jornalista conservador republicano Matthew Scully. 

Sem novidades

As quinhentas bem traduzidas páginas de Domínio não trazem novidades para os iniciados no tema da luta contra os maus-tratos a animais. Mas a boa reportagem acontece quando ele vai além dos detalhes sobre os abusos da caça esportiva, da caça às baleias e sobre incontáveis crueldades cometidas cotidianamente nas fazendas industriais. Ela acontece quando ele conecta os interesses da política econômica ao lobby e ao negócio milionário que toda essa indústria gera.

O que mais surpreende, neste livro, no entanto, é a aparente contradição de ver este autor ligado à causa da “libertação animal”, termo cunhado pelo pioneiro Peter Singer, professor de filosofia de Princeton, nos anos 70. 

O jornalista Matthew Scully, conservador republicano e católico radical, foi responsável por discursos de George W. Bush quando este era governador e presidente. Aliás, Domínio foi publicado nos EUA em 2002, e a resenha no New York Times na época de seu lançamento tinha o título de “O mais compassivo dos conservadores”.

Cristianismo

Um vegetariano conservador que elogia a batalha pioneira e incansável de Singer, mas que reconhece ali em seus livros e discursos uma moral “sem Deus”. Scully inclui várias citações da Bíblia em quase todos os capítulos e tenta relacionar a moral católica e a responsabilidade para com a criação do “Todo Poderoso”, como ele diz, à discussão sobre por que discutir os abusos amorais cometidos pela sociedade atual.

O autor de Domínio, agraciado na época por todas as suas relações com as elites dos Estados Unidos, consegue ir mais longe e coletar mais informações que a maioria. Expõe razões pelas quais esta indústria ainda não foi desmantelada, apesar de anos de ativismo. Chega a relações que o escritor novaiorquino Jonathan Safran Foer não conseguiu mostrar ao publicar Comer animais (Bertrand/Grupo Record) uma década depois.

Para poder entender melhor o universo da caça esportiva, com seus “heróis” e sua economia bilionária, ele participou da convenção do Safari Club International em 1999, a maior reunião do mundo no gênero — o clube contava mais de 1 milhão de membros na época de sua pesquisa. Um dos palestrantes era Bush. “Os membros do Safari Club têm em média onze rifles, seis espingardas e cinco revólveres", conta o autor.

Scully trata da caça às baleias com igual dedicação e também fala com os proprietários de grandes conglomerados de fazendas. O livro quer ganhar leitores católicos e o autor comprova sua tese pela moral religiosa defendendo que, ao não tratar os animais como criaturas de Deus, estamos desrespeitando seus ensinamentos [sic].

Do outro lado da corrente de pensamento está A política sexual da carne — Uma teoria feminista-vegetariana, de Carol J. Adams, lançado aqui pouco mais de 25 anos da primeira edição. 

Em seu ensaio, a ativista Adams avisa que é uma teórica engajada que quer mudar a realidade e encontrar o elo teórico que une suas duas lutas: o feminismo e o vegetarianismo. Com exemplos, citações e até imagens, ela quer comprovar como a propaganda e o marketing (e o que ela chama “texto da carne”) de modo geral estão impregnados de mensagens pró-consumo e pró-patriacarlismo, numa simbiose de objetivos. “A política sexual da carne é também a presunção de que os homens precisam da carne e têm direito a ela, como também que o consumo de carne é uma atividade masculina associada à virilidade.”

Para Adams, feminismo e vegetarianismo unem-se contra a “objetualização” de outros seres, em contestar uma cultura onde o poder está alicerçado na violência de uma parte do mundo contra outra. E cita a filósofa Sandra Bartky para justificar a convergência entre vegetarianismo e feminismo: “A consciência feminista — posso arriscar dizer — transforma um ‘fato’ numa ‘contradição’. (…) Antes disso, a tomada de consciência do significado político de ações aparentemente pessoais já fazia parte da minha vida. Inevitavelmente a prática da tomada de consciência acabou por se estender até os meus hábitos alimentares. O que predispôs a ver a mesma coisa — consumo de carne — de modo diferente?”.

O mais importante, para a autora, é chegar à conclusão de que “com as lentes da interpretação feminista, podemos ver que o lugar do animal na história da carne é o da mulher na narrativa patriarcal tradicional; ela é o objeto a ser possuído”.

Adams não estava sozinha em meados dos anos 90, quando publicou o livro. A ativista indiana Vandana Shiva uniu a causa da preservação ambiental e questões ligadas à produção agrícola sustentável e à segurança alimentar à questão da igualdade de gênero em Ecofeminismo, em coautoria com a socióloga alemã Maria Miles. 

Vegana e favelada

E por aqui, sob os sinais contemporâneos da discussão que também avança e traz outras questões para dizer que tornar-se vegetariano não é mais opção apenas para uma minoria: faça uma busca “vegana e favelada” e “vegano e pobre”. Ou dê uma olhada no blog “Sim, sou vegana, feminista e preta!”. Parece que todos queremos dar uma resposta à pergunta: o que é ser vegetariano (ou vegano)? 

Talvez porque os motivos estão mais claramente indissociáveis: mais saúde para o indivíduo que se abstém do consumo de carne animal, menor impacto da criação desses rebanhos enormes para o meio ambiente e, é claro, redução da crueldade e dos maus-tratos aos “animais não humanos”, principalmente no ambiente das já famosas “fazendas industriais”. Ser vegetariano (ou vegano) ainda é uma escolha. Talvez não por muito mais tempo.

Quem escreveu esse texto

Izabela Moi

É diretora executiva da Agência Mural de Jornalismo das Periferias.