Política,

Lula e Bolsonaro são populistas?

Ensaio mostra como surgiu o termo ‘populismo’ e como ele tem sido manejado conforme o gosto do freguês

02nov2022 - 11h00 | Edição #64

“Todos os gatos são mortais. Sócrates é mortal. Logo, Sócrates é um gato”: a icônica frase da peça teatral O rinoceronte, de Eugène Ionesco, aparece na apresentação do livro Do que falamos quando falamos de populismo, de Thomás Zicman de Barros e Miguel Lago. Segundo os autores, é disto que se trata, de um “sofisma por associação”, quando se abusa do cansado populismo para definir tanto Lula quanto Bolsonaro. Na peça de Ionesco, o fascismo chegava rugindo a uma sociedade que perdera a capacidade de se comunicar. E, naquele turbilhão, ia morrendo a lógica, o discernimento, com as falsas simetrias sustentadas pelo velhaco recurso retórico da falácia indutiva: “Bolsonaro é populista. O PT é populista. Logo, Bolsonaro não será muito pior do que os governos petistas”.

“O silogismo que tomou conta de nosso debate público desde 2018 a partir da palavra populismo é quase tão absurdo quanto o narrado por Ionesco”, explicam, antes de iniciar o minucioso ensaio: “Este tipo de recurso retórico reabilita o ex-capitão e confere às eleições das quais participa um aspecto de normalidade, escamoteando o caráter aberrante de sua candidatura”.

Mas, afinal, o que é populismo? O livreto de 160 páginas nos conduz por um emaranhado. Para início de conversa, populismo seria um termo manejado conforme o gosto do freguês — e o tempo em que coube a este viver. Sendo assim, Barros e Lago escolheram estudar como esse palavrão, a ofensa incomparável, vem sendo usado como arma nas disputas políticas ao longo da história. Para tal, mergulharam em arquivos de jornais e recorreram às diversas formulações intelectuais. A obra se divide em duas partes. Na primeira, percorremos o trajeto do populismo no Brasil — e no mundo —, passando pelo populismo econômico. Na segunda parte, a resposta à pergunta incontornável: “Lula e Bolsonaro são realmente populistas?”. Para os autores, não existe populismo, e sim populismos, no plural, com consequências distintas na democracia liberal.

Régua do tempo

Os russos foram os primeiros a usar a palavra populismo. Na Rússia dos tsares, ser populista era ser contra a tirania, aderindo ao movimento organizado por intelectuais, a partir de 1861, com o intuito de mobilizar o campesinato rumo a uma sociedade socialista. Anos depois, em 1892, o termo apareceria do outro lado do planeta, com o surgimento, nos Estados Unidos, do Partido Populista — ou Partido do Povo —, que pregava a união dos trabalhadores do campo e da cidade, assim como a de negros com brancos. Muitos desses populistas de então acabariam por se incorporar ao Partido Democrata.

Apesar das diferenças, “os populistas russos e americanos são exemplos interessantes por serem radicais à esquerda e reivindicarem para si o rótulo de populistas”.

No pós-guerra viria a guinada. Entre 1954 e 1960, pipocaram nos Estados Unidos trabalhos acadêmicos retratando o populismo como sinônimo de autoritarismo e demagogia. O objetivo final desses estudos mirava a caça às bruxas liderada pelo senador americano Joseph McCarthy na sua cruzada paranoica contra comunistas.

Os autores resolveram estudar como esse palavrão vem sendo usado como arma nas disputas políticas

Para os acadêmicos da hora, o apelo do senador McCarthy a um ressentimento popular teria raízes na tradição populista americana. Baseavam-se na chamada “teoria da modernização”, que via o progresso capitalista como o único caminho para a evolução: “Sob essa perspectiva, tudo o que escapa ou resiste ao ideal de modernização capitalista, como o populismo, na visão destes autores, é tratado como anomalia, quando não uma patologia”.

Assim o populismo desembarcou na América Latina. Na Argentina, o sociólogo Gino Germani, valendo-se dos estudos publicados nos Estados Unidos, lançaria mão do termo para descrever como o peronismo, inaugurado com a ascensão de Juan Domingo Perón, em 1946, mobilizava sentimentos autoritários nas classes populares. Certeira a passagem do livro que discorre sobre o sucesso da teoria da modernização nos países latinos. A oposição entre “civilização” e “barbárie”, a base dessa teoria, viria para coroar o mito fundador do pensamento político latino-americano: ser ou não ser selvagem? A civilização seria algo a importar. As populações locais, indígenas e negros, compõem um contingente ignorante. Sendo assim, caberia aos notáveis conduzir o processo civilizatório.

“Afinal, se o ‘povo’ não está pronto para a democracia liberal, se está infectado pela patologia do populismo, a única solução é a sua tutelagem pela elite.”

O populismo e a ditadura

No Brasil, a epidemia da palavra populismo tem data de início: 20 de março de 1949. As forças se organizavam para as eleições presidenciais de 1950. Exilado em São Borja desde o fim do Estado Novo, em 1945, Getúlio Vargas ressurgia na cena política como provável candidato de uma coligação do Partido Trabalhista Brasileiro (PTB) com o Partido Social Progressista (PSP), do paulista Adhemar de Barros. Para impedir a volta do ex-ditador, o presidente Eurico Gaspar Dutra convocou uma reunião no Palácio Rio Negro, em Petrópolis (RJ), para discutir a aliança entre o Partido Social Democrata (PSD) e a União Democrática Nacional (UDN). No encontro, segundo o jornal Diário da Noite, chegou-se ao “Esquema de Petrópolis”. De um lado, os “democráticos conservadores”. Do outro, “os populistas”, hostis ao regime.

Entre o ataque e a defesa, o termo atravessaria os anos 50 com conotação positiva. Ao vestir a carapuça com orgulho, Adhemar dera o tom: “Somos populistas, que é ser democrata no mais nobre e no mais moderno sentido da palavra democrata. Ser populista, para nós, é dar à função social do Estado uma amplitude que não teve até agora”.

Na década de 60, o populismo caiu em desuso, substituído pela polarização ideológica entre esquerda e direita. Porém, o golpe de 1964 o jogaria de volta na fogueira. “Passamos vários anos em regime populista e sabemos, por experiência, que o paternalismo tampouco leva a alguma parte. Leva, de imediato, talvez, a um desabafo, e em seguida, ao golpe”, decretou o sociólogo Fernando Henrique Cardoso, que se tornaria a comissão de frente da esquerda antipopulista.

Nem Lula nem Bolsonaro

“A pergunta a ser feita quando se analisa um discurso não pode ser se ele é populista ou não. Não estamos lidando com uma lógica binária. Existem discursos populistas em maior ou menor grau, que adquirem mais ou menos traços daquilo que se define como populismo”, esclarecem os autores logo no início do capítulo dedicado a destrinchar o engodo martelado em editoriais e manchetes de jornal, vocalizando a autoproclamada terceira via: nem Lula nem Bolsonaro, os dois demônios populistas.

“Nossa definição leva em conta três traços do populismo: o populismo envolve um discurso que opõe o ‘povo’ às ‘elites’, os ‘de baixo’ contra os ‘de cima’; o populismo é esteticamente transgressivo, irreverente, culturalmente ‘popular’; o populismo é uma força capaz de transformar instituições”, escrevem os autores.

No discurso de Bolsonaro, o povo é o “cidadão de bem”, aquele que busca a segurança. Não apenas a segurança pública, mas a segurança ontológica, existencial, ameaçada pelas transformações sociais. Para esse cidadão, Bolsonaro se oferece como o líder forte que irá reter o caos e reinstaurar a ordem.

No bolsonarismo, a elite seria essencialmente administrativa, cívica e intelectual. Não há oposição às burguesias financeiras ou agrícolas. Os empresários são apresentados como os defensores dos empregos, os verdadeiros trabalhadores. Nessa construção, o latifundiário se torna a vítima dos movimentos sociais ou dos órgãos de controle ambiental. Trocando em miúdos, o latifundiário é o povo e o MST, a elite.

“O conflito defendido por Bolsonaro busca precisamente acabar de vez com a bagunça do regime democrático. É movido pela fantasia de um momento final de purificação”, afirmam os autores.

O líder petista jamais incomodou as elites. O que gera pavor é sua própria existência política

Já Lula tem um discurso clássico de oposição entre povo e elite. O povo, claro, são os mais humildes, e as elites, os poderosos. No dia de sua prisão, aliás, ele parafrasearia o célebre provérbio: “Os poderosos podem matar uma, duas ou três rosas, mas jamais conseguirão deter a chegada da primavera”. Desde a sua fundação, o PT se propusera a ser um partido de movimentos sociais. O antagonismo se estabeleceu na luta pela ampliação de direitos, visando incluir mais gente. Sendo assim, o populismo lulista favorece a democracia liberal, pois esta depende do conflito de ideias e nele se aprofunda.

Para haver populismo, de acordo com o livro, urge haver transgressão estética. Se Bolsonaro apela para o popularesco, a figura de Lula é a personificação da transgressão: “O líder petista jamais incomodou as elites com suas políticas — muito pelo contrário, ele as beneficiou como poucos. O que gera pavor é a própria existência política de Lula”.

Sobre a transformação das instituições, enquanto um reforçou os mecanismos de controle que, inclusive, viriam a se chocar com práticas dentro do seu próprio governo, o outro atua abertamente para enfraquecer as regras e dinamitar as estruturas democráticas. Ao fim do livro, o que se compreende é que os populismos podem ser divididos grosseiramente entre populismo reacionário e populismo emancipador.

Os autores explicam: “O populismo reacionário atribui a causa da nossa angústia a um bode expiatório ameaçador, desviando nossa atenção do fato de que somos irremediavelmente vulneráveis”, definem no ensaio. “Já o populismo emancipador encara a vulnerabilidade de outra maneira, enxergando a dissolução de certezas que a modernidade nos traz como uma oportunidade”, concluem.

Quem escreveu esse texto

Karla Monteiro

É autora da biografia Samuel Wainer: o homem que estava lá (Companhia das Letras).

Matéria publicada na edição impressa #64 em outubro de 2022.