Política,

Confluência de saberes

Em novo livro, Antônio Bispo dos Santos nos leva a um conflito com a realidade cultivada sobre o que concebemos como humanidade

17jul2023 - 17h03 | Edição #72

Um rio não deixa de ser um rio porque conflui com outro rio. Ao contrário: ele passa a ser ele mesmo e outros rios, ele se fortalece. Quando a gente confluencia, a gente não deixa de ser a gente, a gente passa a ser a gente e outra gente. A partir de ideias como essas, Antônio Bispo dos Santos, o Nego Bispo, nos leva a um conflito com a realidade que é cultivada diariamente sobre o que concebemos como humanidade. Em A terra dá, a terra quer, ele autoinscreve a ideia de humanidade/subjetividade no sujeito quilombola.

Quando toma conceitos como terra e humanos a partir de Saco do Curtume, quilombo onde vive no Piauí, não se referencia em intelectuais quilombistas como Beatriz e Abdias Nascimento, mas na própria existência de seus conterrâneos, parentes e companheiros de luta. Bispo confronta a branquitude, o colonialismo e a própria sociedade brasileira a partir de uma cosmopercepção coletiva própria. No livro editado pela Ubu com a Piseagrama, ele nos mobiliza a entender, a partir de elementos da própria terra e da existência humana, como o sistema criado pelas sociedades ocidentais vai contra a nossa própria existência e as condições de uma vida que flui de modo orgânico, ou quase, como a natureza.

Legitimidade

Nego Bispo provoca a partir do básico. Nos mobiliza a uma revolução fundamental, e não instrumentalizada pelo Norte Global e pela lógica capitalista, ou mesmo pela lógica de organização social das academias europeias brancas que fundamentam certa ideia de esquerda. Pois enquanto o campo progressista for guiado por cabeças brancas, ele não terá sentido para a população brasileira, e nisso Bispo tem toda a razão. Só precisa armazenar quem não confia, quem tem medo de a natureza não fornecer, medo de a natureza castigar, diz ele ao alertar para a insensatez que é o comportamento acumulador dos nossos dias.

 

Bispo compartilha vivências, tecnologias e saberes originários, dialoga com indígenas e faz erguer do chão a defesa da contracolonialidade, que nada tem a ver com a decolonialidade defendida nas universidades. A ideia de contracolonização é para quebrar o sistema, com inteligência, de modo circular. A sustentabilidade deixa de ser uma condição a ser alcançada e passa a ser uma premissa orgânica. O desequilíbrio é impertinente na construção cotidiana proposta pelo quilombola. Para os povos quilombolas, “quem não sabe dançar e cantar no batuque, quem não sabe fazer uma comida, quem não se emociona com a cantiga de um pássaro, não tem um modo agradável de viver”.

Nego Bispo não aceita desfeita, por isso sua leitura é um gesto de gentileza antes de tudo com ele, mas também coletivo

Humano não é quilombola, pode o quilombola ser humano? Nesse aspecto de reinvidicar o tratamento que a humanidade dispensa a si própria, Nego Bispo nos mostra que o sujeito quilombola tem uma existência para além dos termos que constituem a concepção de humano dos nascidos sob o eurocristianismo. O autor disputa a própria linguagem, e talvez por isso mesmo ainda não tenha se entendido com o livro. Essa deve ser uma tarefa muito mais nossa, como leitores, que dele, que abre, dá um nó na nossa orelha e desconecta qualquer possibilidade de conforto.

As cidades também são faladas por Bispo, mas na perspectiva das periferias, onde cabem os quilombos: “A favela vive sem os alphavilles, mas eles não sobrevivem sem a favela”, fazendo a gente lembrar de O som ao redor (filme de Kleber Mendonça Filho) quando critica a política de segurança pública incensada pela classe média. Nego Bispo não aceita desfeita, por isso a leitura de A terra dá, a terra quer é um gesto de gentileza antes de tudo com ele, mas também coletivo. Aqui se aprende sobre comida, política, arquitetura e sustentabilidade. Antes de terminar, a conclusão a que chegamos é que a possibilidade de um outro modo de viver existe, e nos dá esperança, mas também nos garante que ela não virá sem luta.

Quem escreveu esse texto

Jefferson Barbosa

Jornalista, membro da Coalizão Negra por Direitos, Global Fellow da Fundação Ford, foi fundador dos coletivos PerifaConnection e Voz da Baixada e autor de Mãe do mundo: vida e lutas de Mãe Beata de Yemanjá (Malê, 2023).

Matéria publicada na edição impressa #72 em julho de 2023.