Política,
A luta pela maioria
Numa época em que as esquerdas são acusadas de defender interesses específicos, Erika Hilton e Pastor Henrique Vieira buscam o universal
27jan2026 | Edição #102Estamos acostumados a pensar a relação entre maioria e minoria como um fato quantitativo. Falso. O vínculo entre as duas não é apenas uma questão de números, mas de sentido. Ter a maioria significa possuir o domínio da interpretação, definir sistemas de valor, padrões éticos e estéticos para ler o mundo. Implica uma generalização semântica: o termo homem pode indicar humanidade, mulher não. Alguém ou algo se torna maioria quando a abrangência de seu significado é reconhecida como naturalmente dada, embora seja fruto de uma construção histórica, social, cultural, política e econômica — enfim, de poder.
O que te faz lutar? é sobre a amizade entre Erika Hilton e Henrique Vieira. Uma mulher trans e um pastor evangélico, ambos negros, nascidos na periferia e, hoje, deputados federais pelo PSOL. Um livro sobre as trajetórias pessoais e políticas, convergências, discordâncias, batalhas individuais e conjuntas. Mas é também, e principalmente, sobre uma esquerda que resolveu lutar pela maioria, no sentido semiótico do termo, isto é, para que os significados que ela atribui à experiência humana se tornem cada vez mais aceitos, ordinários, transversais. A deputada afirma em uma das passagens mais cristalinas:
Eu trabalho por uma sociedade para todos, não só para as pessoas trans, negras ou LGBT. Eu quero um Brasil justo, fraterno e equânime para todos os brasileiros, em todas as suas expressões. Para que todos vivam em igualdade, fraternidade e acesso a direitos.
Lutar pela maioria significa, na visão de Hilton e Vieira, construir e promover uma nova configuração do senso comum, em que não apenas uma parte detenha o poder de definir a forma do todo (o homem branco, hétero e cis como epítome do humano), mas em que o todo se constitui em redes de diferenças articuladas, promovendo a pluralidade e a diversidade. Daí surge um problema: enquadrar as demandas particulares do campo progressista num horizonte de valores universais (justiça, equidade, dignidade), no qual todos, mesmo os não diretamente envolvidos, possam se reconhecer. Em uma época em que as esquerdas são acusadas de defender os interesses de parcelas supostamente restritas da população, os autores traçam elos entre o particular e o geral, trazendo ao primeiro plano não o que distingue, mas o que une. Isso sem deixar que o diverso se dissolva no equivalente.
Para os autores, prosperar não é despontar como indivíduo, mas viver num mundo menos desigual
Um exemplo: a campanha em favor da união civil igualitária, desenvolvida pela equipe dos dois deputados. O slogan “O amor vence”, já utilizado nos Estados Unidos para os mesmos fins, desloca a pauta do direito à união civil de pessoas não heterossexuais para um campo narrativo mais amplo, o do direito ao amor — de modo que a particularidade do primeiro é englobada na universalidade do segundo sem, porém, perder seus contornos.
Esse mecanismo se revela também na campanha pelo fim da escala 6×1, defendida pela deputada e por Rick Azevedo, vereador da Câmara Municipal do Rio de Janeiro. O slogan “Vida além do trabalho” não opõe vida e trabalho, como apontam erroneamente seus detratores, mas humanidade e desumanidade, trabalho digno e exploração. A discussão sobre a precariedade e as violências do trabalho contemporâneo é reconduzida para o âmbito da reflexão sobre temas amplos e inclusivos, como igualdade, liberdade e até prosperidade, que ganham sentidos outros em relação àqueles construídos pela extrema direita ao longo da última década.
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Liberdade, fazem vislumbrar os autores, não significa — como defendem Donald Trump, Elon Musk e os Bolsonaro — poder falar o que bem quer nas redes sociais, mas ter tempo para descansar, cuidar de si, encontrar as pessoas amadas. Prosperar não quer dizer ganhar dinheiro e despontar individualmente, mas viver em um mundo menos desigual, com boas condições de vida para todos. Eis uma redefinição de signos que tem potencial para abalar o discurso público, mudando seus rumos e alicerces.
Sonho
Isso leva a outro ponto central do diálogo: o sonho, também sequestrado pela extrema direita brasileira e ocidental. Durante a campanha das eleições municipais de São Paulo, o portal Metrópoles publicou uma notícia sobre o candidato Pablo Marçal cujo título era: “Marçal diz que suas propostas são ‘sonhos’ e podem não ser cumpridas”.
O tom crítico da notícia revela não só certo supremacismo moral acerca dos desejos de uma população que sofre com as injustiças do capitalismo neoliberal, mas a incapacidade de entender a centralidade da dimensão utópica na política. Uma postura também adotada pelas esquerdas mundo afora, mais preocupadas em desmentir o rival apresentando dados, fatos e raciocínios lógicos do que em acolher a necessidade de encantamento das pessoas comuns, que batalham todo dia para sobreviver.
O que te faz lutar? resgata e acolhe o sonho como projeto político. E o faz a partir de uma história de sonhos negados, a de Erika Hilton, que revive, numa escrita crua, as feridas do tempo de prostituição em Francisco Morato. Experiência que não serve somente para escancarar as hipocrisias da sociedade brasileira, mas para afirmar a vontade de utopia — da própria Erika, da população LGBTQIA+ e de todos os brasileiros.
Sonho tem a ver com religião, ou melhor, com espiritualidade, outro campo que a esquerda precisa adentrar sem preconceitos. Em páginas de igual intensidade, Pastor Henrique Vieira defende a religiosidade como esfera em que espiritualidades diversas coexistem e dialogam, amparadas pelo princípio da laicidade do Estado. A religião é uma questão de espiritualidade, diz o pastor, e cada um deve poder praticar a sua, pois a espiritualidade ata o tangível ao intangível, o cotidiano à utopia.
O que te faz lutar? é um livro antidogmático: contra todo tipo de fundamentalismo político, religioso, estético. Um livro em que a luta pelo senso comum — ou seja, pelas maiorias — é uma luta pela beleza. A beleza não como privilégio de poucos, mas como prerrogativa de todos. Para que outros sentidos, mais belos do que os de agora, se tornem finalmente maiores, ou, dito de outro modo, populares.
Matéria publicada na edição impressa #102 em fevereiro de 2026. Com o título “A luta pela maioria”
