Poesia,

O peso infalível dos corpos

Poeta estreante trata com violência e melancolia as relações amorosas e dialoga com outros artistas

28nov2018

“Finalmente consegui ser agressiva”, confessou a artista Mira Schendel à amiga Iole de Freitas, em comentário sobre a série de pinturas Sarrafos, desenvolvida nos anos 1980. Tais trabalhos, em que robustas arestas de madeira preta despontam de telas em branco, alcançaram uma contundência formal e um efeito de brutalidade até então raro na obra de Schendel, muito conhecida pela sutileza do traço. A violência como triunfo e valor a ser conquistado é um dos motes de Bigornas, livro de estreia da poeta carioca Yasmin Nigri. 

No entanto, assim como a bigorna é um objeto de compleição ambivalente, um corpo de duas cabeças opostas, a violência que permeia os versos de Nigri se conjuga com os horizontes afirmativos do prazer e da criação, e também com a possibilidade — muitas vezes malfadada — do amor. 

“Gosto de você/ Como gosto das coisas/ Que o homem ainda não alcançou”, dizem os últimos versos do poema de abertura. Se a palavra “ainda” aponta para um futuro possível, não é esse o tom que prevalece no livro, sobretudo em “Rua de ontem”, a primeira das quatro partes em que é dividido, e que reúne diversos poemas que ruminam, quase sempre com amargura, relações amorosas do passado. “Fins são terríveis para mim/ Têm sempre um vestígio”, escreve a poeta. 

Muitos desses poemas olham para trás; carregam resquícios de diálogos, cenas cotidianas, insistem em refazer o trajeto que conduziu o encontro amoroso ao fracasso e carregam um senso de melancolia e resistência à renovação; “Nunca te superei/ Como nunca superei nenhum ex”. 

Vigor e brutalidade

Apesar da melancolia vigente, há uma energia propulsora na linguagem de Nigri — como no frenético “Sabe o que cairia bem?”, em que a poeta rejeita o amor por falta de “paciência” e se esquiva da possibilidade de espiritualização (“Deixa pra lá começa às sete da manhã o zen budismo em Copacabana”). 

Mas são desses lampejos de vigor que surgem os primeiros flertes com a brutalidade: “Sabe o que cairia bem agora/ Você de um prédio”. A amargura atinge seu ponto de culminância no poema “Hula”, onde a frustração evolui ao ódio, e as primeiras bigornas são lançadas: “Mas já tá tudo resolvido/ Eu vou sentar na sacada/ Arremessar coisas na cabeça de quem pareça apaixonado”.

Apesar do tônus que a violência pareceu ensejar, o último poema da seção volta a ecoar o passado — que desta vez retorna também terrivelmente violento, em versos muito francos que evocam cenas de uma relação abusiva. “Es bleibt uns die Straße von gestern” (Resta-nos a rua de ontem), diz o último verso, num retorno à epígrafe de Rilke e ao próprio título da seção, numa confirmação do caráter viciado desse início.

“Recibos”, a segunda parte do livro, conta com uma série de poemas que nascem do contato com obras de outros artistas. Como se desse as mãos a eles, Nigri escreve a partir das questões e da atmosfera que os moveram: “estamos pisando sobre os restos/ única maneira de não esquecer”, são os primeiros versos de “Tchekhov”, em que ainda incide o tema dos rastros, tão presente em “Rua de ontem”. 

Como se desse as mãos a outros artistas, Yasmin Nigri escreve a partir das questões e da atmosfera que os moveram

Em seguida, um verso do mesmo poema (que remete às personagens de As três irmãs) parece um alerta à própria autora: “vai pro futuro, Olga”. As seções do livro se interpenetram, como se algo sempre vazasse de um capítulo ao outro.  

Ao se valerem de uma espécie de transcriação, os poemas dessa parte têm um frescor formal muito bem-vindo, mesmo quando a brutalidade irrompe, “violentando/ a leveza dos eventos”. A autora, que já fizera menção à ideia do dublê no poema “Separar as tarefas do dia”, recebe a voz de outros autores e as reencena em novo solo. É o caso do belo “Pizarnik”, em que Yasmin incorpora a persona soturna da poeta argentina para abordar temas comuns à escrita de ambas: “sou um blefe nunca mais vou escrever.”

A ideia da literatura como impostura, comumente relacionada à ficção, é trazida aqui para a poesia. Yasmin reflete sobre o quanto ela se limita com a fraude, o embuste, já que “reside/ nesse espaço onde se pode mentir”. 

Mas é a ambivalência entre leveza e peso, entre afirmação e destruição, que as bigornas querem encarnar. Em “Proposta”, a oferta de uma relação sadomasoquista traz novamente à baila a violência, em versos que levam o corpo a uma situação de antagonismo, na qual prazer e dor se mobilizam mutuamente: “eu te prometo/ um transe delicado/ eu te ensino/ a sufocar”. A delicadeza é constantemente posta em xeque.

Depois do bombardeio

Em “Mulher Malevich”, a penúltima seção do volume, há alguns poemas cujas interlocutoras são mulheres, e somente a elas parece ser possível dizer “eu te amo”. Há um quê de suspensão na soma desses poemas — “estou entre o céu e a corda”. A insinuação de alguma liberdade ou altivez (“e essa placa/ proibido pisar na grama/ retirei a placa”) se confunde com o isolamento, que aparece em poemas de dicção mais grave. O sujeito amoroso está sempre fadado à fragilidade, e o amor pertence ao âmbito do “insuportável”. Mas tampouco a perspectiva de inteireza é acolhida — “não quero/ reparar a mulher/ quebradiça”. 

Em “Pluma azul”, ao evocar de forma indireta uma das epígrafes do livro — um poema de e. e. cummings que justapõe o peso da solidão à delicadeza de uma folha em queda —, Yasmin espelha a recusa da sutileza e explicita a valia de suas bigornas: 
“o mundo carece de mais ódio”. 

Ao chegarmos à última seção do livro, “Bigornas”, deparamos com uma série de poemas muito concisos, sedimentados, sóbrios — as bigornas, afinal, já foram lançadas. Esses versos derradeiros parecem ter sido construídos a partir dos escombros que restaram após um bombardeio: “apenas recolho cascalhos gravetos madeira/ e empilho”. 

Embora se possa deduzir certa resignação e até mesmo uma capitulação — “não sei do que falo/ quando falo/ talvez gritasse melhor/ se soubesse” —, há também aqui um balanço. Yasmin Nigri, nesses poemas maturados, estima o alcance de suas investidas e as motivações da própria escrita; as bigornas, depois da queda, pesam-se perplexas com o que há de equívoco em todo corpo, como “as facas que guardo na cozinha/ e não cortam a si mesmas”.

Quem escreveu esse texto

Julia de Souza

Poeta, é autora de As durações da casa (7Letras), Gigante vermelha (7Letras) e Covil (7Letras).